Paris abre investigação contra cientista político acusado de abusar enteado

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O francês Olivier Duhamel, cientista político e chefe da Fondation Nationale des Sciences Politiques (FNSP), na instituição Sciences Po em Paris em 19 de maio de 2016

A promotoria de Paris abriu uma investigação na terça-feira (5) por "estupros e agressões sexuais" por parte do famoso cientista político francês Olivier Duhamel, acusado em um livro de abusar seu enteado, um caso que abalou a França.

O jornal Le Monde e a revista L'Obs revelaram na segunda trechos da obra da jurista Camille Kouchner, "La Familia grande", onde ela acusa seu padrasto, Duhamel, de ter abusado sexualmente de seu irmão gêmeo quando tinham 14 anos.

Duhamel, de 70 anos, anunciou no mesmo dia sua renúncia do cargo de presidente da Fundação Nacional de Ciência Política e cancelou sua participação regular em programas de rádio e televisão. Sobre as acusações, ele disse que "nada tinha a dizer".

"Ao ser alvo de ataques pessoais e desejando preservar as instituições em que trabalho, estou encerrando minhas funções", escreveu no Twitter o cientista político.

A FNSP, responsável pelas orientações estratégicas e gestão administrativa da prestigiada universidade francesa Sciences Po, tomou conhecimento da sua renúncia "por motivos pessoais", segundo mensagem interna consultada pela AFP.

A promotoria de Paris comunicou a abertura de uma investigação por "estupros e agressões sexuais cometidas por pessoa com autoridade sobre uma criança com menos de 15 anos".

"Eu tinha 14 anos, sabia e não disse nada", escreve Kouchner, uma professora de direito de 45 anos, de acordo com detalhes do livro.

Ela e seu irmão são filhos de Bernard Kouchner, ex-ministro e co-fundador da organização Médicos Sem Fronteiras, e da professora de direito Evelyne Pisier (falecida em 2017), que mais tarde se casou com Duhamel.

Em seu livro, Camille Kouchner afirma que as agressões sexuais aconteceram durante vários anos. A obra "mostra até que ponto muitas pessoas sabiam", diz ela em entrevista à L'Obs.

Ao longo da obra, Kouchner se refere a Duhamel apenas como seu "padrasto". Ela também modifica o nome de seu irmão, o chamando de "Victor".

O abuso é citado quando Victor diz: "Ele me acariciou e você sabe ..."

“Meu cérebro fecha. Não entendo nada. É verdade que ele é gentil, meu querido padrasto”, escreve a autora, que também expõe uma adolescência dilacerada pelo suicídio de seus dois avós maternos, que afundaram a mãe no alcoolismo.

O dilema de Kouchner é respeitar ou não a proibição de seu irmão de falar sobre isso. “Por não dizer o que estava acontecendo, participei de um incesto”, ela se censura.

Mas, segundo a autora, o segredo acabou quando se tornou conhecido, entre "o microcosmo dos poderosos" e o elegante bairro parisiense de Saint-Germain-des-Près. “Muitos sabiam disso e muitos fingiam que nada estava acontecendo”, acrescenta.

Sua mãe também é acusada de não ter agido. Já o ex-ministro Bernard Kouchner quis reagir ao saber, mas foi dissuadido pela filha, afirma na obra.

“Felizmente, veio à luz este terrível segredo que tanto pesou sobre nós”, disse o ex-ministro em nota transmitida à AFP por seu advogado.

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