Parque do Juquery se recupera guardando marcas do pior incêndio de sua história

Franco da Rocha, 31.ago.2022 - Um ano após o pior incêndio de sua história, no qual as chamas queimaram mais da metade de sua área, e grande parte da última reserva de Cerrado da Grande SP, o Parque do Juquery se recupera, mas guarda as marcas da tragédia causada pela queda de um balão. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Franco da Rocha, 31.ago.2022 - Um ano após o pior incêndio de sua história, no qual as chamas queimaram mais da metade de sua área, e grande parte da última reserva de Cerrado da Grande SP, o Parque do Juquery se recupera, mas guarda as marcas da tragédia causada pela queda de um balão. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

Um ano depois do pior incêndio florestal de sua história, o Parque Estadual do Juquery, na Grande SP, mostra sinais de recuperação da vegetação e da vida, mas com cicatrizes e marcas do fogo criminoso provocado pela queda de um balão.

Última reserva de Cerrado da região metropolitana de São Paulo, o Juquery combina a maior parte do território de savana – campos e áreas de árvores baixas – com trechos de Mata Atlântica. O fogo iniciado na manhã do dia 22 de agosto do ano passado devastou mais da metade dos seus 2.058 hectares – algo próximo a 2.800 campos de futebol.

"Foi o pior incêndio nos quase 30 anos de história do parque, e o combate envolveu cerca de 800 pessoas, muito além da equipe de brigadistas", conta Francisco Honda, gestor do parque desde o começo do ano. Depois de quase uma década à frente do Juquery, Honda passou um período gerindo o Parque Estadual da Serra do Mar, e observou de longe o desastre ocorrido.

No calor do momento em meio o combate às chamas, brigadistas estimaram entre 80 e 90% do parque queimado, dado que foi revisto com imagens de satélite.

Quase 70% do parque é composto pelo Cerrado – a savana com maior biodiversidade vegetal do mundo, e extremamente adaptada ao fogo natural. No entanto, o geógrafo explica que em São Paulo estas queimadas ocorrem somente com a ocorrência de raios, e, portanto, chuvas, que retardam a queima e espalhamento das chamas.

Em 2021, o Parque do Juquery viu o fogo devastar mais da metade dos seus 2.058 hectares – algo próximo a 2.800 campos de futebol. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
Em 2021, o Parque do Juquery viu o fogo devastar mais da metade dos seus 2.058 hectares – algo próximo a 2.800 campos de futebol. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)

"Tínhamos o cenário perfeito para o desastre, com o que chamamos de 30, 30, 30", conta. Os números fazem referência à temperatura, umidade do ar e velocidade dos ventos. Com a queda do balão, o fogo se espalhou rapidamente.

À tarde o combate às chamas era ainda mais afetado pelo calor e ventos, com brigadistas e bombeiros comentando na época apenas retardar um pouco a destruição. A extinção de fato do fogo seria possível somente no período noturno, com maior umidade e menor temperatura.

"A temperatura perto das chamas pode passar de 1.000ºC", afirma o gestor. "Algumas espécies arbóreas são adaptadas à passagem do fogo, possuem uma camada de proteção, mas não tanto à intensidade que ocorreu no ano passado. É por isso que elas ainda estão muito queimadas", observa.

Enquanto os campos naturais já mostram recuperação e aparência normal, os trechos de bosques relembram aos visitantes o tamanho do estrago. "O que a gente vê aqui, e está registrado na paisagem do Juquery, é que a ocorrência de um grande incêndio é altamente impactante para os trechos de floresta, e essa recuperação ainda pode demorar anos", comenta.

Caixa d'água da Grande SP

Dos cerca de 1.400 hectares de cerrado do Juquery, 1.000 foram consumidos pelas chamas. Imagens de satélite revelam a extensão da mancha carbonizada em meio às colinas e vales do parque.

Localizado no início da serra da Cantareira, entre os municípios de Franco da Rocha e Caieiras, o parque estadual é vital para manutenção ambiental da Grande SP e, sobretudo, do Sistema Cantareira, "caixa d'água da região metropolitana", como define Honda.

Em uma das divisas está a represa Paulo de Paiva Castro, última do conjunto do Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de água de 9 milhões de pessoas, quase metade de toda a Grande SP.

Atualmente em queda, o Sistema Cantareira opera com 32% da sua capacidade – bem acima do nível registrado na última grande estiagem do complexo, em 2015. Naquele ano as represas atingiram o nível de -24%, passando a utilizar o chamado "volume morto", com o uso de bombas para retirada da água. Hoje este sistema segue ativo e é usado no cálculo apresentado pela Sabesp.

Imagens de satélite mostram a extensão do estrago feito pelas chamas no Parque Estadual do Juquery em agosto no ano passado. Cerca de mil hectares, ou 70% de toda a área de Cerrado do parque, foi destruida pelas chamas, e agora se recupera, mas ainda sentindo os efeitos
Imagens de satélite mostram a extensão do estrago feito pelas chamas no Parque Estadual do Juquery em agosto no ano passado. Cerca de mil hectares, ou 70% de toda a área de Cerrado do parque, foi destruida pelas chamas, e agora se recupera, mas ainda sentindo os efeitos

Em dezembro de 2021 o Cantareira contava 24% do seu volume. Poucas semanas depois, Franco da Rocha sofreu com graves enchentes que deixaram ao menos 18 mortos e milhares de desabrigados. Em todo o Estado foram 5.277 famílias desabrigadas e 34 óbitos.

"Se não houvesse a preservação da várzea do rio Juquery, no parque estadual e entorno, funcionando como uma espécie de piscinão natural, o desastre seria ainda mais grave", observa Honda. Além de Franco da Rocha, o vizinho Francisco Morato, também em meio à Cantareira, foi um dos mais afetados, junto com parte da região norte da capital.

No dia do incêndio, essa região recebeu uma chuva de fuligem que chegou até mesmo a áreas da região central da cidade. Folhas queimadas inteiras foram observadas em casas e galpões destas regiões. Por conta da queimada, a estação de medição da Cetesb de Perus, bairro da capital no extremo norte, registrou qualidade do ar péssima naquele mês.

Franco da Rocha, 31.jan.2022 - Cidadãos ajuda bombeiros a remover a lama em busca das vítimas após um deslizamento de terra causado por fortes chuvas enterradas em Franco da Rocha, estado de São Paulo. As chuvas torrenciais no estado brasileiro de São Paulo entre sexta-feira e domingo deixaram pelo menos 18 pessoas mortas, disseram as autoridades.(Filipe Araujo/AFP/Getty)
Franco da Rocha, 31.jan.2022 - Cidadãos ajuda bombeiros a remover a lama em busca das vítimas após um deslizamento de terra causado por fortes chuvas enterradas em Franco da Rocha, estado de São Paulo. As chuvas torrenciais no estado brasileiro de São Paulo entre sexta-feira e domingo deixaram pelo menos 18 pessoas mortas, disseram as autoridades.(Filipe Araujo/AFP/Getty)

Atualmente atuam no Parque Estadual do Juquery seis bombeiros florestais, três vigilantes brigadistas e três monitores ambientais. Eles realizam o trabalho de manutenção de aceiros e limpeza de acessos, para impedir uma eventual propagação de fogo, além da vigilância de elementos externos, como balões e fogos para limpeza de terrenos vizinhos.

De janeiro até aqui a equipe já resgatou 54 balões dentro do Juquery, um dos quais queimou uma área de 1 hectare antes de ser resgatado. O "resgate" significa, basicamente, perseguir o balão e evitar que ele toque o chão e cause um princípio de incêndio. E isso, logicamente, nem sempre é possível.

A prática é crime ambiental e pode render prisão de um a três anos e multa, mas é recorrente em toda a Grande SP, sobretudo nos meses de inverno.

Diante do problema, o geógrafo que há 20 anos trabalha na área, metade no parque cercado pelo fogo, questiona: "Por que as causas que geram incêndios ainda persistem e são as mesmas"?

Franco da Rocha (SP), 31.ago.2022 - Gestor do Parque Estadual do Juquery, Francisco Honda monitora a recuperação das áreas queimadas no ano passado no pior incêndio da história do parque. Enquanto as áreas de campo aberto mostram sinais de recuperação, as árvores e bosques do parque ainda guardam marcas das chamas de até 1.000ºC que arrasaram a área em agosto passado
Franco da Rocha (SP), 31.ago.2022 - Gestor do Parque Estadual do Juquery, Francisco Honda monitora a recuperação das áreas queimadas no ano passado no pior incêndio da história do parque. Enquanto as áreas de campo aberto mostram sinais de recuperação, as árvores e bosques do parque ainda guardam marcas das chamas de até 1.000ºC que arrasaram a área em agosto passado. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)