Partículas de plástico também chegam à atmosfera, indicam pesquisadores americanos

El País
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NORUEGA - Os plásticos já estão por toda parte, e agora conquistam o único espaço que ainda não haviam dominado: o ar. Desde a Segunda Guerra Mundial, a fabricação de fibras e resinas plásticas passou de 2 milhões de toneladas, em 1950, a 380 milhões, em 2015. Na forma de microplásticos, podem atravessar o planeta, ficar no ar por até uma semana e voltar à Terra. O chamado ciclo do plástico, semelhante ao da água e do carbono, é estudado por pesquisadores do Instituto Norueguês de Investigação Atmosférica (Inia).

A pesquisa, realizada em 2020, aponta como os pneus de carros — feitos, em sua maioria, de plásticos derivados de petróleo — liberam plástico no ar a cada derrapagem, freio ou aceleração.

O trabalho, que estuda o desgaste de pneus em países do norte da Europa, estima que cerca de 140 mil toneladas de restos de rodas chegaram aos mares, levadas pelo vento. O cálculo dos noruegueses também foi comprovado em um novo estudo, que analisou dados de uma dezena de estações localizadas na região oeste dos Estados Unidos.

O trabalho, publicado no ano passado sob a coordenação da bioquímica Janice Brahney, da Universidade do Estado de Utah (EUA), acompanha estações de qualidade do ar dos parques nacionais dos Estados Unidos. Na pesquisa, ela procura detectar como os plásticos chegaram às principais áreas de preservação ambiental do país, como o Parque Nacional Joshua Tree e o Grand Canyon.

Os pesquisadores calcularam que, somente nos parques nacionais dos Estados Unidos, caía uma “chuva” de plástico equivalente a mil a 4 mil toneladas por ano.

— Em escala, seria o equivalente a 22 mil toneladas caindo sobre os Estados Unidos, ainda que esse valor seja provavelmente subestimado —, disse Brahney.

Quase 84% dos microplásticos, partículas com cerca de 5 milímetros de diâmetro, encontrados vêm das estradas, em sua maioria, dos pneus, ainda que haja certa contribuição dos freios e do asfalto. Outros 11% viriam do oceano e cerca de 5%, do campo. Neste caso, se trata tanto de plásticos agrícolas que foram se degradando como das partículas plásticas presentes no fertilizante vindo do tratamento das águas residuais urbanas, os chamados biossólidos.

Entretanto, o dado mais surpreendente é a baixíssima porcentagem de microplásticos de origem urbana — apenas 0.3%, quando as cidades são grandes geradoras de contaminação plástica.

— A princípio, esse dado também nos surpreendeu. Mas, faz sentido, já que essas partículas necessitam ser elevadas a uma altura considerável da atmosfera antes que possam viajar longas distâncias. Os edifícios das cidades interrompem o fluxo do vento, o que dificulta que caiam partículas à superfície do solo — explica Brahney.

Dessa forma, a pesquisadora explica que, assim, as cidades podem ser o ponto a partir do qual esses plásticos chegam a regiões do seu entorno, “mas as estradas são o principal local a partir do qual o plástico entra na atmosfera".

O caminho convencional do plástico convertido em resíduo começa nas aglomerações humanas e tende a acabar no mar. Lá, o plástico não é destruído, apenas vai diminuindo de tamanho até chegar a um nível microscópico. A maioria fica na parte mais superficial da água, onde a radiação solar e a erosão o reduz ainda mais.

É nesse momento que os peixes, as tartarugas e as aves marinhas acreditam se tratar de comida de cores e odores atrativos, e a ondulação e o vento levam grandes quantidades de microplásticos para a circulação atmosférica como faz a população em regiões desérticas ou como acontece com as partículas advindas da poluição. Esses fatores explicam a taxa de 11% de microplásticos de origem marinha levantados pelo estudo.

A existência de uma rota aérea, além da quantidade transportada, confirma a existência de um ciclo do plástico. De fato, o trabalho de Brahney e seus colegas estima que chegam mais microplásticos à terra a partir do mar que o movimento contrário.

— Muitos supõem que a atmosfera poderia ser, sozinha, o vetor do movimento de plásticos na direção dos oceanos, mas, com décadas de contaminação se acumulando no mar, agora tem mais plástico que sai a partir dele do que a partir do mar — sustenta a bioquímica.

O professor de ecologia industrial e prevenção e coautor da pesquisa que estima o consumo total de plástico por humanos, Roland Geyer, explica que, desde a publicação do artigo, em 2017, foram produzidas outras 1,4 bilhão de toneladas de plástico, e a produção acumulada chega a quase 10,1 bilhões de toneladas. Segundo ele, a pandemia da Covid-19 impulsionou a dependência do plástico.

Seu colega da Universidade de Cádiz (Espanha), Andrés Cózar, passou anos investigando a contaminação plástica, sobretudo no mar. Sobre o ciclo do plástico, ele explica que a única questão que pode assegurar é que os efeitos da produção de plástico têm impacto global. Para ele, a preocupação é com o que não se sabe:

— É um setor tão grande, são tantos tipos de plástico. Desconhecemos o seu impacto a longo e médio prazo, tanto em seres vivos quanto para a saúde humana — alerta.

Cózar acredita que a introdução de mecanismos que colaborem com a degradação do plástico já no início da sua fabricação poderia reduzir a quantidade de microplásticos que alimentam o ciclo. Essa informação foi confirmada por uma pesquisa publicada na semana passada, na revista Nature. No estudo, pesquisadores americanos introduziram certas enzimas em polímeros para contornar o caráter não biodegradável do plástico, que leva de décadas a anos para se decompor.