Parte da vida cultural de Nova York há 29 anos, 'Stomp' terá suas últimas apresentações na cidade

Depois de 29 anos de atividade, a produção de "Stomp", aquele grupo de percussionistas que se tornou uma das muitas caras de Nova York, anuncia que vai encerrar suas atividades no Orpheum Theater, no badalado bairro de East Village, no próximo domingo. Motivo: queda nas vendas de ingressos.

— Diga que não é verdade! — diz o produtor musical Lou George, conhecido como Bowllegged Lou.

Superfã de "Stomp", ele afirma que já viu o show 225 vezes e planeja vê-lo antes que a trupe faça suas reverências finais.

— “Stomp” é um marco de Nova York.

Dividindo-se entre percussão e coreografia, “Stomp” é um espetáculo em que o timing é tudo. Dançarinos e percussionistas atuam com objetos domésticos reaproveitados e detritos urbanos, criando ritmo a partir de latas de lixo, tambores de óleo, malas, mangueiras de radiador e coreografias de precisão, tudo com humor e contratempos malucos. Qualquer coisa pode virar música: unhas arranhando caixas de fósforos; bolas de basquete passando de um lado para o outro com um baque.

Ainda que símbolo da paisagem cultural de Nova York, o “Stomp” foi concebido por dois britânicos — Luke Cresswell e Steve McNicholas, que se conheceram como artistas de rua em Brighton, Inglaterra, nos anos 1980. Juntos formaram grupos musicais que misturavam percussão, voz e comédia e, após experimentarem apresentações usando apenas vassouras e latas de lixo, estrearam “Stomp” no Festival Fringe de Edimburgo em 1991.

—Nós nos concentramos nos elementos rítmicos — diz McNichola. — Mas acho que permanecemos cientes do absurdo inerente ao conceito de usar objetos do cotidiano como instrumentos, então o humor estava lá desde o início.

Quando o show chegou a Nova York, nos anos 1990, o East Village era o lar do Blue Man Group e do clube de rock indie Brownies. Cresswell e McNicholas acharam a região punk — longe das luzes brilhantes da Broadway — um lugar perfeito para seu show.

Eles não tinham certeza se o espetáculo sobreviveria à temporada prevista inicialmente para quatro meses, mas acabou sobrevivendo a uma grande parte do ecossistema artístico do bairro.

Mais que isso, “Stomp” conseguiu um alcance mundial incomum, participando de atrações como “Os Simpsons”, e se apresentando em 45 países — incluindo no encerramento da Olimpíada de 2012, em Londres.

“Stomp” durou quase três décadas, rivalizando com “O Fantasma da Ópera”, que deve encerrar sua longa temporada em breve, após 35 anos no palco. Em sua história, apenas três ocasiões interromperam a continuidade do espetáculo percussivo de Nova York: no período pós-11 de Setembro, uma explosão de gás na Segunda Avenida e a pandemia de coronavírus. Mesmo quando as lojas comerciais fecharam, os aluguéis dispararam e os estudantes e artistas se mudaram para o centro da cidade, o show continuou.

Parte da paisagem

Mas o tempo virou. Jackie Green, a publicitária de “Stomp”, disse que a queda no turismo internacional após os bloqueios pandêmicos foi um fator na decisão de fechar. Os shows da turnê americana e europeia continuarão acontecendo.

McNicholas disse sentir pena dos artistas, que ano passado se apresentaram para casas “pequenas”, embora nem a energia no palco nem o entusiasmo da plateia tenham diminuído.

— Estou um pouco triste, porque sinto que fazíamos parte do East Village —, disse McNicholas. — Fizemos parte da paisagem, e é uma pena dizer adeus a isso.

Membro do último elenco de “Stomp” de Nova York que se apresenta no Orpheum desde 2007, Alan Asuncion reforça:

— Tocar em objetos para criar música existe desde sempre. Mas os criadores brilhantemente colocaram isso em uma peça de teatro que tornou-se um nome familiar. E esse legado viverá.