Partes em conflito na Líbia aceitam cessar-fogo

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Combatentes do general líbio Khalifa Haftar em Bengasi, em dezembro de 2019

O chefe do governo de União Nacional (GNA) reconhecido pela ONU, Fayez al Sarraj, e seu rival, o marechal Khalifa Haftar, chegarão nesta segunda-feira a Moscou para assinar um acordo de alto cessar-fogo.

A assinatura do acordo abre caminho para a reativação processo político, declarou o presidente do Conselho de Estado (o equivalente ao Senado), Khaled al Mechri, à rede de televisão Libya al Ahrar.

As duas partes que se enfrentam no violento conflito na Líbia aceitaram um cessar-fogo que começou a ser aplicado nas primeiras horas deste domingo (12), após semanas de intensos esforços diplomáticos da Rússia e da Turquia em favor de uma trégua, para impedir que o país se torne uma "segunda Síria".

Este país do norte da África, rico em petróleo, tem sido palco de confrontos e está mergulhado no caos desde que uma intervenção militar internacional derrubou em 2011 a longa ditadura do coronel Muammar Khadafi.

Desde abril do ano passado, o GNA, com sede em Trípoli e reconhecido pela comunidade internacional, tem sido alvo das forças leais ao marechal Khalifa Haftar, que controla o leste do país.

Na noite de sábado, o marechal Haftar anunciou um cessar-fogo que entraria em vigor à meia-noite, após um apelo conjunto neste sentido dos presidentes russo, Vladimir Putin, e turco, Recep Tayyip Erdogan.

As forças do marechal alertaram em uma breve declaração que "a resposta será dura se o lado oposto violar a trégua", referindo-se às tropas do GNA.

Pouco depois, em comunicado, o líder do GNA, Fayez al-Sarraj, anunciou um cessar-fogo que entraria em vigor a partir das primeiras horas do domingo.

Ele também enfatizou o "direito legítimo" de suas forças de "responder a qualquer ataque ou agressão do lado oposto".

Depois da meia-noite, ou seja, após a entrada em vigor dessa trégua, tiros ainda eram ouvidos no centro de Trípoli, sede do GNA, mas depois a calma foi estabelecida na parte sul da capital, onde as forças do GNA resistem desde abril à ofensiva das forças de Haftar.

A missão da ONU no país comemorou a trégua e pediu que as partes façam "esforços em favor do diálogo".

Desde o início da ofensiva de Haftar, mais de 280 civis e 2.000 combatentes morreram, segundo a ONU. Além disso, cerca de 146.000 líbios foram deslocados pelos combates.

- "Segunda Síria" -

A entrada em vigor deste cessar-fogo ocorre após importantes esforços diplomáticos liderados por Ancara e Moscou.

Na quarta-feira, Erdogan e Putin pediram em Istambul que essa trégua fosse estabelecida.

Especificamente, a Turquia pediu à Rússia para convencer Haftar a respeitá-la.

Ancara enviou militares em janeiro para apoiar o GNA, enquanto a Rússia é suspeita, apesar de negar, de apoiar as tropas de Haftar, que também tem o apoio dos Emirados Árabes Unidos e do Egito.

Os países da Europa e da África do Norte lançaram uma ofensiva diplomática para tentar impedir a Líbia de se tornar uma "segunda Síria".

Os governos europeus temem que grupos islâmicos e traficantes de migrantes se estabeleçam neste país, aproveitando-se do caos que reina desde a morte de Khadafi.

No sábado, a Líbia foi um dos temas centrais das discussões entre Putin e a chanceler alemã Angela Merkel em Moscou.

A chanceler alemã disse que quer organizar uma reunião internacional sobre a Líbia em Berlim em breve, com o apoio da ONU para ajudar o país a se tornar "soberano novamente e recuperar a paz".

Mas a Rússia e a Turquia emergiram como as verdadeiras potências influentes na crise líbia, apesar de supostamente apoiarem lados diferentes.

Putin negou, porém, que seu país seja um defensor do marechal Haftar. "Se há russos, eles não representam os interesses do Estado russo e não recebem dinheiro de nós", garantiu.

Os Estados Unidos, descontentes com o crescente envolvimento de Moscou na Líbia, denunciaram no sábado o "destacamento de mercenários russos (...) e combatentes sírios apoiados pela Turquia" em comunicado de sua embaixada.