Partes em conflito na Líbia assinam cessar-fogo permanente com efeito imediato

Agnès PEDRERO
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Representantes das duas alas que disputam o poder na Líbia apertam as mãos após a assinatura do acordo de cessar-fogo

Partes em conflito na Líbia assinam cessar-fogo permanente com efeito imediato

Representantes das duas alas que disputam o poder na Líbia apertam as mãos após a assinatura do acordo de cessar-fogo

As duas partes em conflito na Líbia assinaram um cessar-fogo nacional e permanente com efeito imediato nesta sexta-feira (23), após cinco dias de negociações em Genebra com a mediação da ONU.

"Hoje é um bom dia para o povo líbio", declarou a atual chefe da Missão de Apoio das Nações Unidas na Líbia (Manul), Stephanie Williams. "Às 11h15, aqui, na sede da ONU em Genebra, as duas delegações líbias assinaram um acordo de cessar-fogo completo, nacional e permanente, com efeito imediato", anunciou.

A assinatura aconteceu no Palácio das Nações Unidas de Genebra. A cerimônia durou 10 minutos, seguidos de muitos aplausos. As partes líbias e Stephanie Williams participaram do evento. Todos usaram máscara, devido às normas de saúde impostas pela pandemia da Covid-19.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, elogiou o acordo como "um passo fundamental para a paz e a estabilidade" desse país. "Felicito as partes por ter feito prevalecer o interesse de sua nação sobre suas diferenças", acrescentou, durante entrevista coletiva na sede da ONU em Nova York.

"Faço um apelo a todas as partes envolvidas e aos atores regionais que respeitem as disposições do acordo de cessar-fogo e garantam sua aplicação sem demora", declarou Guterres.

Os Estados Unidos também elogiaram o cessar-fogo. "Esse acordo é um grande passo rumo à concretização dos interesses compartilhados por todos os líbios de desescalada do conflito, estabilidade e saída de combatentes estrangeiros", assinala uma nota da embaixada americana na Líbia.

Em uma primeira reação líbia, o chefe do Governo de União Nacional (GNA), Fayez al-Sarraj, destacou o papel da Manul no desfecho desta acordo em favor de "uma paz baseada na justiça", que "afaste o espectro da guerra e de distúrbios no país", segundo um comunicado.

A Líbia está mergulhada no caos e na violência desde a queda do regime de Muammar Khadafi, em 2011.

- Saída dos 'mercenários' -

O atual conflito coloca frente a frente o GNA, reconhecido pela ONU e com sede em Trípoli, e o marechal Khalifa Haftar, que domina o leste e parte do sul do país - sobretudo as zonas em que se encontram as principais instalações de petróleo.

Cada lado possui seus apoios internacionais. O marechal Haftar conta com o apoio militar de Egito, Rússia e Emirados Árabes, enquanto o GNA é apoiado pela Turquia. Desde que as partes anunciaram o fim das hostilidades, em agosto, as negociações foram aceleradas para estabelecer as condições de uma trégua duradoura.

"É um acordo com efeito imediato" e deve ser acompanhado pela saída da Líbia "dos mercenários e combatentes estrangeiros (...) em um prazo máximo de três meses a partir de hoje", declarou Stephanie Williams. As partes concordaram que "todas as unidades militares e grupos armados presentes nas linhas de frente irão retornar a seus campos", assinalou.

De abril de 2019 a junho de 2020, o marechal Haftar tentou conquistar Trípoli militarmente, sem sucesso. Os combates deixaram centenas de mortos e levaram à fuga de dezenas de milhares de pessoas.

A Itália, antiga potência colonial na Líbia, recebeu "com grande satisfação a assinatura de um acordo de cessar-fogo", segundo um comunicado da sua chancelaria. Já a União Europeia saudou como "uma boa notícia" o entendimento, "embora a sua aplicação também seja importante, pois será a chave para a retomada do diálogo político".

Para a Alemanha, tratou-se de "um primeiro êxito decisivo", segundo um comunicado do ministro das Relações Exteriores, Heiko Maas. O presidente turco, por sua vez, declarou em Istambul que "o acordo de cessar-fogo não foi alcançado no mais alto nível. Para mim, carece de credibilidade."

Na Grã-Bretanha, o chanceler Dominic Raab classificou o entendimento como "um passo importante. A diplomacia francesa saudou o acordo, "que mostra o desejo de todos os líbios de soberania frente às interferências exernas".

Catar e Arábia Saudita expressaram sua satisfação e o desejo de que o acordo abra caminho para um entendimento político completo e uma melhora da economia.

A Companhia Nacional de Petróleo líbia (NOC) anunciou após o acordo o levantamento do estado de força maior, o que autoriza a retomada das exportações de óleo cru a partir de dois dos principais terminais do leste do país. 

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