“Participação dos negros nos processos decisórios precisa avançar”, diz Gleisi Hoffmann, presidenta do PT

Foto: NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images

Texto / Juca Guimarães | Entrevista / Pedro Borges | Edição / Simone Freire

O Partido dos Trabalhadores (PT) completou 40 anos em fevereiro deste ano. Em quatro décadas passaram pela presidência do partido 14 presidentes, nenhum deles era negro.

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Em entrevista ao Alma Preta, a atual presidenta nacional do partido e deputada federal pelo Paraná, Gleisi Hoffmann, falou sobre as questões raciais dentro do partido e sobre representatividade e as ausências de lideranças negras na participação eleitoral.

A presidente explicou que, desde 2012, o PT adota uma cota mínima de 20% de negros e negras em todos os cargos de direção, mas que ainda é preciso “avançar muito na participação de negros e negras nos processos decisórios”. Confira a entrevista exclusiva ao Alma Preta.

O Partido dos Trabalhadores (PT), assim como os principais partidos do país, disputarão em 2020 prefeituras e mandatos de vereador. Assim como o PT, outros partidos de esquerda são questionados pela ausência de lideranças negras entre os principais quadros dessas siglas. Como você enxerga essa crítica ao PT? O que o partido está preparando para 2020 nesse sentido?

Precisamos avançar muito na participação de negros e negras nos processos decisórios do Partido e do país. O PT adota desde 2012 a cota mínima de 20% de negros e negras em todos os cargos de direção. Isso tem contribuído bastante para formar lideranças e estimular a participação eleitoral. Para 2020, teremos foco no estímulo e apoio a candidaturas negras. A Secretaria de Combate ao Racismo do PT está organizando a participação de inúmeras lideranças nesse processo. Teremos cursos de formação, estratégia de comunicação, acompanhamento nos Estados para garantir a presença dessas candidaturas.

Depois de anos a frente da gestão pública, o PT perdeu o posto de chefe do executivo nacional para Jair Bolsonaro. O atual presidente tem adotado uma política forte de cortes de investimento público e retirada de direitos. Para alguns críticos, o PT poderia ter adotado políticas mais radicais à esquerda e fortalecido mais grupos sociais marginalizados. Existe uma autocrítica em relação a esse aspecto? O que o PT poderia ter feito de diferente e deve mudar para os próximos anos?

O PT no governo, em 13 anos, fez mais pela inclusão social e combate ao preconceito e discriminação do que o que foi feito em 500 anos de história do Brasil. Quem tem de fazer autocrítica são as elites deste país, que sempre o governaram com exclusão, cabeça escravocrata e autoritária, relegando o povo pobre ao sofrimento, deixando-o fora do orçamento público. 

Lula foi o presidente que visitou a Porta do Nunca Mais, no Senegal, para pedir perdão ao povo africano pela escravidão. Foi o presidente que nomeou o primeiro ministro negro para o Supremo Tribunal Federal. Criou as cotas nas universidades para a população negra e garantiu que milhões de jovens negros pudessem cursar o ensino médio. Criou a Secretaria Nacional de Combate ao Racismo e implantou políticas públicas definidas nas Conferências realizadas ao longo de seu governo. 

Além disso, outras políticas de inclusão contemplaram a população negra, majoritariamente pobre e excluída, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, programas de cisternas, aumento real do salário mínimo, criação de mais de 20 milhões de empregos. Podemos ter errado em nossos governos, como qualquer organização humana, mas tenho certeza que pelo curto tempo em que estivemos no governo, acertamos muito mais.

O atual governo foi eleito com um forte discurso de combate à corrupção. Durante o primeiro ano de gestão, foram alguns os casos, como o envolvendo o Senador Flávio Bolsonaro. Apesar dos indícios, a Polícia Federal não viu sinais de crime. Como você tem avaliado o atual governo no fato corrupção? E como você tem avaliado a atuação de setores como a Polícia Federal e o Ministério Público?

Bolsonaro toma a carteira dos outros e grita pega ladrão! A Polícia Federal, por interesses políticos de Sérgio Moro, tem sido conivente com isso, “passa pano”. É vergonhoso. Parte do sistema judiciário brasileiro tem atuado como braço político da direita e extrema direita no país. Perseguem a esquerda, o PT, Lula e são complacentes com o governo de plantão, que faz o serviço sujo para o capitalismo financeiro, destruindo o Estado e a soberania nacional. Único estado forte que eles querem é o policial militar para reprimir os pobres e proteger os ricos.

O ano de 2019 foi marcado pela aprovação de propostas como a Reforma da Previdência e a expansão da base militar de Alcântara. Ambos os projetos prejudicam de maneira sensível a comunidade negra. Para 2020, quais são os principais temas a serem debatidos que exigem cuidado especial por parte da comunidade e do movimento negro?

A continuidade das reformas que vão atingir a máquina pública, desmontando os serviços que o Estado presta à população; a MP 905, que implanta a carteira verde amarela, retirando direitos e impondo outras maldades; a aplicação da pena após julgamento em segunda instância. Há vários outros projetos tramitando, inclusive das privatizações, que prejudicam o povo em geral, principalmente o mais pobre. Pelo que estamos vivendo, para o bem do país seria melhor o Congresso entrar de recesso antecipado para as eleições deste ano. O povo e o Brasil sofreriam menos derrotas.