Partido de Aung San Suu Kyi é favorito nas legislativas em Mianmar

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Aung San Suu Kyi espera voltar ao poder em eleições de 8 de novembro
Aung San Suu Kyi espera voltar ao poder em eleições de 8 de novembro

Muito criticado pela comunidade internacional, mas também muito admirado por seus concidadãos, o partido de Aung San Suu Kyi parte como o favorito para manter o poder nas eleições legislativas de domingo (8) em Mianmar, cuja legitimidade já está sendo questionada.

Com cerca de 60.000 casos de coronavírus e mais de 1.300 mortes, a situação neste país com um sistema de saúde muito frágil é uma das mais preocupantes do Sudeste Asiático. Muitas vozes apelaram, em vão, para que as eleições fossem adiadas.

Cerca de 37 milhões de eleitores são esperados nas urnas.

Embora esses pedidos tenham sido ignorados, as autoridades permitiram que pessoas com mais de 60 anos votassem antecipadamente.

A própria Aung San Suu Kyi, de 75 anos, votou no dia 29 de outubro, usando uma máscara com as cores de seu partido, a Liga Nacional para a Democracia (LND).

Em 2015, a sigla obteve uma vitória esmagadora, mas foi forçada a dividir o poder com o ainda todo-poderoso Exército, que controla três ministérios importantes (Interior, Defesa e Fronteiras) e para o qual a Constituição garante 25% das cadeiras no Parlamento.

A vitória do LND nas eleições de domingo, as segundas desde a dissolução da junta militar em 2011, seria menos ampla agora.

As razões são três: a ampliação do espectro político, com o surgimento de dezenas de novos partidos; o fracasso da "dama de Rangun", apelido de Suu Kyi, em alcançar a paz com várias minorias rebeldes; e seu fraco desempenho na área da saúde e na luta contra a pobreza.

- Presidente de fato? -

Os resultados oficiais sairão vários dias após as eleições.

Uma vez empossados, os parlamentares procederão à eleição do presidente birmanês. 

A Constituição impede Aung San Suu Kyi de concorrer a esse cargo por ser casada no exterior. Ela poderia ser nomeada "conselheira especial de Estado", cargo criado sob medida para lhe permitir liderar o país.

Ainda muito amada em Mianmar, especialmente entre a maioria étnica dos bamar, a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 1991 caiu de seu pedestal fora das fronteiras do país.

Suu Kyi se tornou pária no cenário internacional, após ser acusada de passividade no drama dos muçulmanos rohingyas, uma etnia do noroeste do país que desde 2017 foi forçada ao exílio em massa por causa dos excessos do Exército. Centenas de milhares de rohingyas se refugiaram no vizinho Bangladesh.

Esta crise levou Mianmar a ser acusada de "genocídio" perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ), o órgão judicial mais importante da ONU.

Aung San Suu Kyi viajou para Haia, sede do tribunal, para negar as "intenções genocidas" do governo. 

E há vozes que questionam a credibilidade das eleições.

A votação foi anulada por razões de segurança em grande parte do estado de Rakhine, no noroeste, onde os confrontos entre militares e um grupo rebelde se intensificaram nos últimos dois anos.

Para alguns, é uma forma de silenciar os partidos étnicos que poderiam prevalecer na região.

Os cerca de 600.000 muçulmanos rohingyas que permaneceram no país, metade dos quais estão em idade de votar, têm a cidadania birmanesa negada e não terão permissão para irem às urnas.

Quase dois milhões de pessoas, de um total de 37 milhões de eleitores, não podem votar, situação que pode alimentar um conflito armado, alertam os especialistas. 

bur-sde/cn/mar/bl/mr/tt