Partido de Boris amarga derrotas nas eleições regionais do Reino Unido

SÃO PAULO, SP, GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - O Boris Johnson sorridente que foi às urnas na quinta (5) acompanhando de Dilyn, seu cachorro, poderia parecer despreocupado com o resultado das eleições regionais. Forma bem diferente da que ele e seus partidários acordaram nesta sexta (6).

Os resultados parciais da votação revelam que o Partido Conservador, a legenda de Boris, perdeu controle de redutos tradicionais em Londres e sofreu reveses em outras regiões, com eleitores aproveitando o pleito para depositar nas urnas uma mensagem de repúdio à série de escândalos de seu governo --sendo o "partygate" o principal.

O cenário inicial segue, em partes, o que previam analistas e pesquisas. O revés para Boris, é verdade, está mais no campo do simbólico, já que os milhares de assentos em conselhos municipais e distritais não têm, em tese, impacto direto na política nacional.

A legenda do premiê perdeu, por exemplo, o controle do conselho de Westminster, na região de Londres, administrado pelos conservadores desde a sua criação, em 1964. Também passou para o controle dos trabalhistas o conselho de Wandsworth, reduto conservador desde 1978, e o de Barnet, sob comando quase que contínuo da sigla do premiê desde 1964 --exceto em duas eleições.

O atual pleito decidirá quase 7.000 assentos em conselhos municipais, incluindo todos os de Londres, da Escócia e do País de Gales, e um terço dos assentos do resto da Inglaterra.

Contagem do jornal The Guardian mostra que, até o momento, os conservadores perderam 284 assentos, enquanto os trabalhistas ganharam 171. Sobraram fatias consideráveis também para outras legendas, como os liberais, que ganharam mais 150 cadeiras --algumas das quais analistas previam que iriam em peso para os trabalhistas.

A BBC, com base nos resultados iniciais, estimou o que aconteceria se todo o país estivesse votando nas eleições desta quinta. Nesse cenário, 30% dos votos iriam para os conservadores, 35% para os trabalhistas e 19% para os liberais. O restante seria dividido entre siglas menores.

A vantagem de cinco pontos dos trabalhistas sobre os conservadores é a maior desde as eleições regionais de 2012. Em compensação, com a fatia de 30%, os conservadores caíram cinco pontos percentuais em relação a 2018 e seis pontos em relação ao ano passado --quando também foram realizadas regionais, mas em menor escala.

Em comentários após os primeiros números serem divulgados, Boris relativizou a perda para sua sigla. "Tivemos uma noite difícil em algumas partes do país, mas, por outro lado, em outras vemos os conservadores avançando e obtendo ganhos notáveis em lugares que não votam no partido há muito tempo", disse o premiê.

Acrescentou, então, as lições que pensa ter tirado do que chama de "mensagem dos eleitores": "Querem que foquemos as grandes questões que importam a eles, como a recuperação [econômica] pós-Covid, os problemas de abastecimento de energia e o pico inflacionário, e que continuemos nossa agenda de mais empregos e altos salários".

Embora as eleições regionais em geral se distanciem dos grandes temas políticos nacionais, a série de escândalos que envolveu o premiê levou seus próprios correligionários a buscarem distanciamento. Alguns dos candidatos que, em circunstâncias normais, poderiam tentar capitalizar o fato de estarem no mesmo partido do chefe de governo fizeram o oposto: se apresentaram como "conservadores locais".

E a cobrança veio tão logo surgiram os primeiros resultados, com conservadores dizendo que Boris terá de provar sua integridade perante os britânicos e responder aos questionamentos das urnas. "Claramente o premiê tem perguntas difíceis para responder; as pessoas estavam muito esperançosas com as políticas do governo, mas agora não estão felizes com o que ouviram sobre o partygate", afirmou David Simmonds, parlamentar conservador, ao Guardian.

Reveses também para os trabalhistas

O líder trabalhista Keir Starmer descreveu os resultados parciais como "absolutamente fantásticos". "Acreditem em mim: este é um grande ponto de virada para nós", ele afirmou ainda pela manhã.

Pouco depois, porém, viu-se envolvido em caso similar ao que respingou na gestão de seu rival político, Boris Johnson. A polícia britânica anunciou que investigará Starmer por uma possível violação das regras de isolamento para conter a disseminação do coronavírus no ano passado. O caso foi apelidado de "beergate".

Em abril daquele ano, o político trabalhista foi visto bebendo cerveja com colegas de trabalho durante uma reunião em Hartlepool, no nordeste da Inglaterra. A polícia local havia dito que concluíra que nenhum crime havia sido realizado, mas, nesta sexta, afirmou que, após o recebimento de novas informações, abriu uma investigação.

PROVÁVEIS MUDANÇAS NA IRLANDA DO NORTE

A votação na Irlanda do Norte, país de aproximadamente 1,9 milhão de habitantes, também tem peso significativo, mas por outras razões. Pesquisas de intenção de voto sugerem que o partido republicano Sinn Fein, ex-braço político do Exército Republicano Irlandês (IRA), deve se tornar a principal força política e, assim, eleger o premiê.

Elaborada pelo Instituto de Estudos Irlandeses da Universidade de Liverpool, a última sondagem sobre a escolha dos 90 deputados da assembleia regional, publicada na terça (3), atribui 26,6% dos votos ao Sinn Fein e 18,2% ao Partido Unionista Democrático (DUP).

Caso as projeções se confirmem --os resultados serão divulgados entre sexta e sábado (7)--, a legenda se tornaria o primeiro partido nacionalista a comandar o maior número de cadeiras da assembleia regional em 101 anos, desde a criação da Irlanda do Norte em 1921.

Ainda que a sigla não tenha mobilizado sua histórica pauta de reunificação com a República da Irlanda na campanha eleitoral, focando questões como a inflação e o custo de vida, este é o pano de fundo simbólico que se desenha caso o partido ganhe maioria.

Partidos pró-Reino Unido, apoiados predominantemente pela população protestante, dominam a nação há um século, mas as tendências há muito indicam que eles acabariam eclipsados por partidos nacionalistas, predominantemente católicos, que hasteiam a bandeira da união irlandesa. Na última eleição, em 2017, o DUP, unionista, conquistou 28 assentos, pouco à frente dos 27 do Sinn Fein.

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