Partido de Netanyahu soma mais cadeiras, mas não garante maioria em Israel

·4 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os primeiros resultados de boca de urna sobre as eleições desta terça-feira (23) em Israel mostram o Likud, partido do atual premiê, Binyamin Netanyahu, conquistando entre 31 e 33 dos 120 assentos do Knesset, o Parlamento israelense, o que leva o bloco a seu favor a somar de 53 a 54 assentos. Já o Há Futuro, principal partido do bloco anti-Netanyahu, deve garantir entre 16 e 18 assentos, com o bloco contra o premiê totalizando 59 eleitos. Para conseguir governar, é preciso conseguir 61 cadeiras. Os dois lados, portanto, precisam formar alianças --e o partido Yemina, que deve ter de 7 a 8 assentos, ganha papel importante. Após as primeiras projeções, o seu líder, Naftali Bennett, se pronunciou por meio de porta-voz, afirmando que irá fazer o que é bom para o Estado de Israel. Mesmo sem maioria garantida, o atual primeiro-ministro reivindicou uma "enorme vitória" no pleito. Na quarta eleição em dois anos no país, o premiê tenta garantir seu sexto mandato. Para isso, precisa costurar apoios e conseguir maioria simples na Casa. Os resultados finais, porém, são esperados apenas para o fim da semana. Mais do que eleger os parlamentares, a eleição é um referendo pessoal do primeiro-ministro, que, há 12 anos no poder, é o mais longevo no cargo desde a criação do Estado de Israel, em 1948. Bibi, como é conhecido, enfrenta ainda na Justiça três acusações de corrupção. Pesa a seu favor seu envolvimento direto na compra antecipada de vacinas --o país já aplicou as duas doses do imunizante em 52% de sua população. Assim, Netanyahu é considerado o responsável pelo êxito, mesmo que, para alguns, ele tenha feito vista grossa para aliados políticos, como os ultraortodoxos, que demoraram para atender às instruções sanitárias. Ele também exibe como trunfo a assinatura dos chamados Acordos de Abraão de normalização diplomática com Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos, na prática uma aliança anti-Irã que contou com mediação do ex-presidente americano Donald Trump. Os analistas têm dividido os partidos em dois blocos: os pró-Bibi, com projeção de conquistar 51 cadeiras, e os anti-Bibi, com 56. Ambos precisariam dos assentos de duas siglas, Yemina e Lista Árabe Unida, que poderiam se unir a qualquer um dos lados, para chegar ao número-chave de 61 e formar governo. Chama a atenção que no bloco contra o premiê unem-se nomes da esquerda, como já era comum, e alguns da direita, que se cansaram do culto a Netanyahu por boa parte de seus apoiadores. Eles afirmam que o premiê só pensa em se livrar das acusações e que pode até mesmo causar danos à democracia para tal. Se ir às urnas parece ter se tornado algo mais frequente do que o habitual, os eleitores encontraram um cenário um pouco diferente da última vez que participaram do pleito, em março do ano passado. Ainda no início da pandemia de coronavírus, Hadas Vinograd-Haber, 27, contou à agência de notícias AFP ter depositado seu voto cercada pelo que chamou de extraterrestres em trajes especiais, em um circuito eleitoral especial para os primeiros israelenses colocados em quarentena. Ela havia acabado de voltar da Itália, então o epicentro europeu da crise sanitária, e as autoridades israelenses negaram que ela pudesse sair por 14 dias. A única coisa que foi autorizada a fazer fora de casa foi votar. "As pessoas se comportavam como doidas, a metros de distância das demais", relembra. "Como se fosse o fim do mundo, como se fosse inútil votar de qualquer maneira, já que não haveria amanhã." Um ano depois, a jovem advogada votou como uma cidadã comum e vacinada. Dirigiu-se a seu colégio eleitoral habitual, uma escola no centro de Jerusalém, onde mora, e apenas sua máscara azul clara em seu rosto revela a persistência da pandemia. Neste ano, cerca de 700 sessões eleitorais especiais foram instaladas em todo o país para pessoas em quarentena ou que provavelmente estiveram em contato com infectados ou voltaram do exterior e para os próprios infectados. A polícia esteve nesses locais para garantir que as medidas de prevenção da Covid-19 fossem respeitadas, inclusive no aeroporto Ben Gurion, destinado a eleitores em quarentena. O dia da votação também foi marcado pelo lançamento de um foguete da Faixa de Gaza em direção a Israel, anunciou o Exército israelense. À AFP, um porta-voz militar informou que o projétil caiu em um terreno baldio no sul do país. Pouco antes do disparo, não reivindicado até o momento, Netanyahu estava na cidade de Bersheeva, a cerca de 50 km da Faixa de Gaza, no deserto de Neguev, para pedir o voto da população local. O premiê viajou para a região fronteiriça com Gaza para tentar mobilizar a população beduína de Neguev, depois de falar com Mansur Abas, chefe de um partido árabe local. A aproximação de Netanyahu com essas lideranças foi uma surpresa. Por anos, ele havia assegurado que nunca faria alianças com essa minoria do país (21%). Durante a campanha, ele visitou aldeias árabes para pedir votos diretos para o Likud ou para a Lista Árabe Unida, partido que rachou após apoiar a agenda conservadora do primeiro-ministro.