Partido Novo muda processo de seleção de candidatos, um ano após crise em São Paulo

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***ARQUIVO***SAO PAULO, SP, BRASIL, 13-09-2017, Filipe Sabará no coquetel de abertura da campanha 'Nos', idealizada pela ARCAH, no Mirante Nove de Julho. (Foto: Ze Carlos Barretta/Folhapress)
***ARQUIVO***SAO PAULO, SP, BRASIL, 13-09-2017, Filipe Sabará no coquetel de abertura da campanha 'Nos', idealizada pela ARCAH, no Mirante Nove de Julho. (Foto: Ze Carlos Barretta/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Defensor da aplicação de métodos de gestão empresarial na política, o Partido Novo mudou a forma de selecionar candidatos para a disputa de 2022.

A principal medida é o fim do uso de empresas de "headhunter", que participavam do processo de escolha dos nomes lançados pelo partido em eleições.

Uma das principais crises vividas pela jovem legenda, fundada em 2011, ocorreu no ano passado, envolvendo o então candidato do Novo à Prefeitura de São Paulo, Filipe Sabará.

Selecionado com auxílio da consultoria Exec, Sabará entrou em atrito com a direção partidária em razão de suas visões favoráveis ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A isso somaram-se acusações de inconsistência em seu currículo, negadas por Sabará, mas que acabaram contribuindo para sua expulsão da legenda.

Segundo o presidente nacional do Novo, Eduardo Ribeiro, o partido não desistiu de contar com a participação de empresas na seleção de candidatos, mas agora o foco é outro. "Estamos migrando de um processo de seleção para um de formação", afirma.

Na prática, isso significa que a escolha dos candidatos ficará inteiramente a cargo das instâncias partidárias, e que o setor privado entrará numa etapa complementar, que Ribeiro chama de "background check", ou seja, checagem de antecedentes.

Para isso, a legenda contratou a empresa especializada em compliance ICTS, representante no Brasil da israelense Protiviti, que faz um pente-fino na biografia do candidato, para detectar possíveis questões de ordem criminal ou ética.

Desde o início do ano, os candidatos a cargos no Legislativo passam por um curso de formação na Fundação Brasil Novo, ligada ao partido.

Com duração de cerca de quatro meses, oferece palestras sobre assuntos como ciência política, economia e teoria do Estado, sempre com o viés liberal que é a característica da legenda.

Até agora, já houve sete turmas, com cerca de 50 pessoas cada, que pagam R$ 700 pelo curso.

De acordo com Ribeiro, o diploma do curso dará direito a que o filiado se candidate a qualquer eleição futuramente, desde que aprovado pelas instâncias partidárias.

Não será mais necessário submeter-se antes de toda campanha a um processo de seleção interno, como ocorria anteriormente, que envolvia etapas como entrevista e teste de vídeo.

Essa modificação, diz o presidente, foi uma decorrência natural do crescimento do Novo.

"Estamos indo para nossa quarta eleição. No começo, tínhamos muitas pessoas que nunca tinham sido filiadas a nenhum partido político, então o processo interno era responsável por um primeiro filtro. Mas fazer isso agora iria se tornar repetitivo, a pessoa precisaria toda hora fazer seleção", afirma.

Para concorrentes a cargos executivos, a exigência do curso não se aplica. Assim, o cientista político Luiz Felipe D'Avila, que deve ser anunciado na semana que vem como candidato a presidente, foi dispensado, assim como os nomes que o partido deverá lançar aos governos estaduais.

Segundo Ribeiro, o imbróglio envolvendo Sabará no ano passado não foi determinante para a mudança de metodologia, embora tenha de certa forma afetado o processo.

"Faríamos melhorias de qualquer jeito, independente do que ocorreu. É lógico que o caso Sabará mostrou que não existe processo seletivo perfeito", afirma o presidente.

Ele, contudo, isenta a Exec de responsabilidade no episódio. "Não teve nada a ver com o trabalho da empresa em si", diz.

Hoje dedicado à vida empresarial e a projetos no terceiro setor, Sabará afirma que o conflito em sua campanha se deveu a questões ideológicas, e não ao trabalho da consultoria.

"O problema foi político, o trabalho da consultoria foi ainda mais exigente do que deveria", afirma. Segundo Sabará, a empresa produziu desde uma análise de seu perfil a perguntas específicas sobre planos de governo.

Na época, o então candidato entrou em atrito com o fundador da legenda, João Amoêdo, o que acabou inviabilizando sua permanência no Novo.

A Exec sempre teve relações próximas com o partido. Nos primeiros anos da sigla, foi contratada para ajudar em diversos processos seletivos de candidatos.

A ligação umbilical tem rendido dores de cabeça para a empresa em Minas Gerais, onde é investigada pela CPI da Cemig (Companhia Energética de MG), na Assembleia Legislativa.

A comissão apura possíveis irregularidades em contratos da estatal, entre eles um firmado sem licitação com a Exec para seleção do presidente da companhia energética, Reynaldo Passanezi Filho.

Segundo apuração da CPI, a intermediação para a contratação da Exec nesse processo foi feita por um dirigente do Novo sem cargo no governo.

"Há um conflito de interesses nítido para nós. Quando um agente partidário assume interlocução para contratar uma empresa, passar a ser um operador. Isso é usurpação de função política", diz o deputado estadual Professor Cleiton (PSB), vice-presidente da CPI.

Segundo o deputado, seis sócios da Exec são filiados ao Novo, e outros, apoiados declarados da legenda.

Antes, a consultoria também havia participado da seleção de secretários para o governo de Romeu Zema (Novo).

Procurada, a Exec não quis se manifestar, dizendo que não faz comentários públicos sobre processos seletivos, por serem informações confidenciais.

De acordo com o presidente nacional do Novo, o partido tem acompanhado o caso.

"A gente está acompanhando, mas também entendemos que o mérito nesse caso é correto. A intenção foi tirar a indicação política e trazer o aval técnico. O desenrolar da história vai demonstrar que a escolha foi certa", disse Ribeiro.

Em nota, a Cemig afirma que a contratação da Exec ocorreu "com a integral observância da legislação em vigor". A dispensa de licitação foi feita com base na lei n°13.303/2016, diz a empresa.

"Não há e nem houve qualquer conflito de interesse na contratação do atual presidente da Cemig, porque este não mantinha e nem mantém qualquer tipo de vínculo com o Partido Novo", diz a companhia energética.

A empresa diz que ainda que o uso da empresa de headhunters "é, por si só, a demonstração que o objetivo da atual gestão é o de qualificar e profissionalizar o quadro de dirigentes da Cemig".

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