Partido de Tarcísio repassa R$ 625 mil a campanha de acusada de elo com PCC

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.08.2022 - Candidato do Republicanos ao Governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.08.2022 - Candidato do Republicanos ao Governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Republicanos, partido do ex-ministro Tarcísio de Freitas, repassou R$ 625 mil de sua verba pública para financiar uma candidata a deputada federal em São Paulo que é ré acusada de lavar dinheiro para a facção criminosa PCC.

A candidata Ely Santos, hoje suplente na Câmara dos Deputados, responde a uma acusação de integrar organização criminosa e também de lavagem na Justiça de São Paulo e chegou a ficar presa preventivamente por dois meses entre 2016 e 2017.

Ela é irmã do prefeito cassado de Embu das Artes (região metropolitana de São Paulo), Ney Santos, também réu no processo e suspeito de liderar organização criminosa ligada à facção.

Ney, também filiado ao Republicanos, gravou vídeo com Tarcísio em julho, ainda antes de ser afastado da prefeitura, e tem se dedicado à campanha da irmã e do candidato ao governo.

Na gravação, Tarcísio, indicado para a disputa ao governo paulista pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), falou que irá "trabalhar junto" com Ely na Câmara dos Deputados e parabenizou o prefeito pelo trabalho na cidade.

O candidato do Novo ao governo, Vinicius Poit, mencionou o episódio no primeiro debate dos postulantes ao cargo, no último dia 7.

Ely, 45, chegou a exercer o mandato de deputada por quatro meses a partir de novembro do ano passado. Em 2018, ela já havia recebido dos fundos eleitoral e partidário do Republicanos R$ 1,3 milhão, em valores não corrigidos. A candidata se apresenta como empresária e já teve cargo de secretária municipal.

Um dos elementos contra ela em denúncia apresentada pelo Ministério Público paulista é o fato de ter dois números ativos de CPF. Segundo a acusação, foi uma estratégia para confundir autoridades em relação à abertura de empresas.

A denúncia afirma que Ely à época participava de negócios usados por Ney para lavar dinheiro do tráfico e o liga à facção PCC. Diz que ela teve função de laranja, assim como outras pessoas acusadas, para contornar bloqueios judiciais de bens do irmão.

O processo, aberto em 2016, teve pouca movimentação desde então, em meio a discussões sobre em qual jurisdição deveria tramitar.

Ney foi cassado por abuso de poder econômico na eleição municipal de 2020. Deixou o cargo há duas semanas por causa da decisão da Justiça Eleitoral, e um vereador aliado assumiu interinamente a prefeitura. Em 2021, ele tinha sido declarado inelegível por financiamento irregular na campanha de 2016.

O PCC tem sido tema nesta eleição de ataques de bolsonaristas contra partidos de esquerda. O próprio presidente Bolsonaro já fez alusão irônica ao grupo criminoso durante entrevista do ex-presidente Lula ao Jornal Nacional na semana passada.

Procurado pela reportagem, Tarcísio disse, por meio de sua assessoria, que gravou o vídeo citado ao lado de um prefeito eleito "para se dirigir à população de Embu das Artes, que é quem deve ter suas demandas levadas em conta e atendidas".

"As questões criminais relativas à sua conduta devem ser analisadas e deliberadas no âmbito do Judiciário."

A reportagem também contatou o diretório estadual do Republicanos e enviou perguntas, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Ely Santos, por meio de sua defesa, afirmou que não há nenhuma condenação penal contra ela e que no processo em questão nem testemunhas foram ouvidas ainda. "Ao final certamente restará provada a inocência."

Também acrescentou: "Ser alvo de um processo penal, embora parte da mídia assim não entenda, não é o mesmo que ser culpada".

A defesa também disse que ela preenche todos os requisitos para ser candidata e que seu registro eleitoral foi deferido. Sobre o repasse do partido, diz que foi feito respeitando a legislação.

Ney Santos sempre negou todas as acusações sobre o suposto vínculo com a facção criminosa e tem afirmado que não há nenhuma prova de ligação com tráfico de drogas.