Passageiros vivem expectativa de normalização do transporte um dia após paralisação total do BRT

André Coelho, Felipe Grinberg e Rafael Nascimento
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Passageiros do BRT devem esperar a normalização do serviço BRT, após um dia de caos devido à paralisação total do sistema. À noite, após negociações e até ameçadas do prefeito Eduardo Paes de suspensão do contrato de concessão, o consórcio BRT Rio afirmou, em nota emitida após as 22h, que estava em processo de normalização e esperava estar com 100% da frota operante na manhã de terça-feira.

Com apenas um mês de governo, Eduardo Paes enfrenta o caos num projeto que já foi a menina dos olhos de suas outras duas gestões. Às voltas com a pandemia e os riscos do avanço do coronavírus diante da superlotação dos transportes, o prefeito está sendo pressionado a socorrer o combalido sistema de BRTs, que ontem deixou 170 mil pessoas a pé. Sem transporte e sem dinheiro, trabalhadores passaram um sufoco pela manhã, e a cidade foi tomada por longos engarrafamentos. Todas as alternativas, como veículos de aplicativos, “frescões” e até vans — inclusive irregulares —, foram usadas para tentar chegar ao trabalho. Mas, mesmo pagando mais caro, muitos perderam o dia.

Depois de se reunir com empresários à tarde, Paes, que chegou a levantar no início do dia a suspeita de locaute — um acordo entre empregadores e trabalhadores para cruzar os braços e pressionar o governo, prática proibida pela legislação brasileira —, disse que esperava ainda ontem a imediata volta do serviço. Só à noite, o sistema voltou a operar. Um motorista do BRT afirmou que a redução de salário dos rodoviários foi cancelada pelo consórcio.

Os motivos da paralisação são nebulosos. Os motoristas alegam que não trabalharam ontem porque a empresa promete reduzir jornada e salários, alegando que amargam prejuízos de R$ 200 milhões desde o início do isolamento social. Em vídeo exibido sábado pelo RJ2 da TV Globo, o presidente-executivo do BRT, Luiz Martins, já avisava que não poderia garantir sequer o pagamento da segunda parte do salário de janeiro, prevista para a próxima sexta-feira. A empresa alegava ainda que não tinha como comprar combustível para a frota. Segundo o sistema, o movimento de passageiros é hoje 45% abaixo do normal nos três corredores, com 27 linhas, que atendem mais de 30 bairros.

Decadência

No meio disso tudo, quem sofre é o passageiro. Há muito, o sistema BRT impõe um sofrimento diário a seus usuários. Das 134 estações, 27 estão fechadas por vandalismo e outras 20 foram tomadas por bandidos. Em número menor, os ônibus trafegam superlotados. Até que ontem se chegou ao ápice do desrespeito, contrariando tudo que se espera do serviço de transporte: a população ficou a pé. O Transoeste, o Transolímpico e o Transcarioca pararam completamente.

As opções, como os ônibus conhecidos como “frescões”, custavam três vezes mais e os ônibus comuns não davam conta de todos os trajetos. Em Madureira, a empregada doméstica Lúcia Helena Costa, que estava com o pé imobilizado devido a uma fratura no tornozelo, procurou um aplicativo de transportes, que estava cobrando R$ 50 para levá-la ao Recreio.

— Eu sei que os funcionários estão sem salário, acho que está certo reclamar. Mas não é justo a gente pagar pelo erro dos outros — lamentou.

Pressionado pelos empresários que apontam um desequilíbrio econômico-financeiro no sistema, agravado pela pandemia, Paes disse ontem, depois de encontrá-los, que, se não houve locaute, houve ação orquestrada. Em tom irônico, Paes deixou claro que não acredita na versão de que o movimento foi exclusivamente de rodoviários:

— Nunca vi o sistema parar de forma tão eficiente — afirmou, acrescentando ainda que, ao pedir ajuda a outras empresas de ônibus, não foi atendido. — Apresentamos os planos de contingência (no fim de semana), mas disseram primeiro que não tinham condições de atender e depois ignoraram os apelos da prefeitura. Caso o problema permaneça amanhã (hoje) e este plano não seja seguido, o caminho das negociações não existirá mais. O que vai acontecer é o cancelamento da concessão.

Pela manhã, com os carros da frota nas garagens, a confusão foi grande, o que contribuiu para as tão indesejáveis aglomerações. Para completar, o trânsito deu um nó. Às 8h, havia 50 km de engarrafamentos, contra 13 km da média das últimas três segundas-feiras. O auxiliar de serviços gerais Romário Goulart perdeu o dia de trabalho. A chefe até tentou buscá-lo, na Estação Mato Alto, na Zona Oeste, mas o carro não pôde passar pelo congestionamento que tomou conta da região.

— Moro em Guaratiba, e o único jeito de chegar ao Rio 2, na Barra, onde trabalho, é com o BRT ou “frescão”. Todo dia a estação está lotada e com poucos ônibus. É uma luta diária — desabafou.

Suspeita de locaute

Paes, de manhã, disse que chegou a consultar, no fim de semana, a empresa responsável pelo BRT sobre uma possível paralisação.

— O consórcio BRT nos garantiu que não havia qualquer movimento. Inclusive, eles afirmam que têm um acordo com o sindicato, e eu quero crer, espero, que isso não seja o que a gente costuma chamar de locaute — disse o prefeito, que inaugurou o primeiro sistema em junho de 2012, e, ontem à noite, pediu desculpas à população pelos transtornos.

Procurado, o BRT negou: “Isso nunca existiu”. E Paulo Valente, porta-voz do RioÔnibus, sindicato das empresas de ônibus do Rio, acusou a prefeitura de não tomar medidas contra a crise do sistema:

— Posso comparar com Manaus, por exemplo. Todo mundo sabia o que acontece lá. O governo federal sabia que iria faltar oxigênio, o estado sabia que iria faltar oxigênio. A prefeitura também sabia, e ninguém tomou providências. A gente já vinha na UTI. As empresas vinham como se estivessem na UTI. Agora, acabou o oxigênio — disse em entrevista ao “Bom Dia Rio”, da TV Globo.

À noite, o BRT informou que “suspendeu temporariamente” a redução de jornada de trabalho dos funcionários, que, diante da crise, passariam a ficar uma semana em casa com a respectiva redução de salário. A medida também seria um ponto de conflito entre trabalhadores e a empresa.