Passarela e redes sociais exaltam mulheres de diferentes formas, tamanhos e idades

Gilberto Júnior
Diversidade na moda

Seja na recepção de um hotel, seja no hospital, toda vez que a modelo Rita Carreira, de 25 anos, precisa informar sua profissão, recebe de volta olhares surpresos. “Quando digo que sou do segmento plus size, entendem e acham maravilhoso. As pessoas não estão acostumadas com essa realidade. Para elas, Gisele Bündchen ainda é a personificação da figura da manequim”, comenta a paulista, estrela da capa desta edição ao lado de Gabriela Caroli, Duda Miranda, Ana Patrocínio e Sheila O’Callaghan — todas lindas e confortáveis em seus próprios corpos, independentemente de peso, altura e idade.

Com uma década de carreira, Rita comemora o atual momento da indústria, que, enfim, abraça a diversidade. “Estamos desconstruindo a sociedade em que vivíamos. Num passado recente, tínhamos que nos encaixar no padrão vigente para não sermos descartadas”, conta ela.

Rita tem toda razão: se olharmos somente para o século passado, encontraremos exemplos explícitos de como as mulheres tiveram que se submeter a arquétipos estéticos ditatoriais. Na virada do século, o espartilho, que espremia as costelas das damas, era obrigatório para conferir curvas; nos anos 1920, usava-se uma faixa para achatar os seios, que saíram de moda. A cinturinha de pilão da década de 1950 e a magreza infantil da modelo Twiggy também foram ideais perseguidos. E o que falar dos anos 1980 e 1990, quando o corpo malhado e o silicone fizeram muitas suarem a camisa e adotar próteses incômodas? Tanto esforço, privação e cobrança começaram a ser questionados nos anos 2000. O boom das modelos brasileiras trouxe a reboque o fantasma da anorexia, colocada em xeque. A democratização da informação, graças à popularização da internet e ao surgimento das redes sociais, fez com que grupos, até então “marginalizados”, ganhassem voz. E aí o jogo começou a virar: grande parte das marcas que nasceu no Instagram ouviu esse público e tem a diversidade e a sustentabilidade como pilares.

A SPFW N48, em outubro, provou esta mudança de rota: Rita foi a sensação ao ser escalada para os desfiles das grifes Handred, Issac Silva e Cavalera. “Estava me sentindo uma diva. O sentimento era: ‘Gente, venci na vida’. Depois da temporada, trabalho todo santo dia. Todos me querem.” Os números começam a refletir essa transição. De acordo com uma pesquisa do Coresight, o setor de roupas de tamanhos grandes deve movimentar US$ 24 bilhões até 2020 nos Estados Unidos. No Brasil, segundo a Associação Brasileira do Vestuário, esse mercado gerou cerca de R$ 7 bilhões em 2018. Mas ainda é pouco. “Óbvio que a situação está melhor do que antes, mas estamos longe do ideal. Basta circular num shopping. De 200 lojas, vamos encontrar três ou quatro que oferecem modelagens grandes. O que é uma discrepância, pois mais da metade da população do país (55,7%, informa o Ministério da Saúde) tem excesso de peso”, analisa a modelo paulistana Gabriela Caroli, de 34 anos. De acordo com a empresa de pesquisa e inteligência de mercado IEMI, em 2018, a produção plus size no setor vestuário brasileiro representou 4,7% do total de peças confeccionadas.

Enquanto a indústria tenta acertar o passo, a passarela acelera. Na última edição da fashion week nova-iorquina, em setembro, os desfiles foram tomados por uma pluralidade nunca vista no evento. Jovens criadores e nomes estabelecidos apostaram em modelos altas, baixas, magras, gordas, jovens, maduras... “A diversidade sempre existiu, o que não existia era seu reconhecimento. Acredito ser um caminho sem volta e de uma importância enorme para os indivíduos e para os negócios, incluindo aqueles ligados à indústria têxtil”, aponta a pesquisadora Paula Acioli, coordenadora do curso de Formação Executiva em Moda da Fundação Getúlio Vargas.

Além da questão da balança, o mercado também ‘descobriu’ a beleza na maturidade, em contraponto à exigência da eterna juventude. Stephanie Seymour, Christy Turlington e Cindy Crawford, todas na faixa dos 50, seguem requisitadas por grifes importantes, como Marc Jacobs e Versace. A irlandesa Sheila O’Callaghan, de 49 anos, virou modelo há três meses, após ser descoberta num mercado, no Rio, onde mora com o marido e o cachorro. “Não imaginava que algo assim poderia me acontecer”, confessa.

Aos 23 anos e muito orgulhosa de suas raízes africanas, a paulistana Ana Patrocínio, que deixou de alisar os cabelos em 2015, ressalta: “Queremos nos reconhecer como somos, sermos bonitas da nossa maneira”.