De pastilha dental a ressonância magnética, conheça os produtos que prometem diminuir resíduos da saúde

Apesar do crescente interesse pelos temas ESG, o pilar ambiental é citado como uma prioridade só para 12% das indústrias farmacêuticas e de biociências desde janeiro de 2020, de acordo com a PwC Brasil, empresa de auditoria e consultoria.

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Melhores práticas e processos mais sustentáveis para diminuir os resíduos de poluição na saúde englobam mudanças produtivas e desenvolvimento de tecnologias específicas. Algumas delas foram mapeadas pelo Prática ESG.

Cápsulas de remédio veganas

Nos produtos manipulados e fitoterápicos, por exemplo, as cápsulas de origem vegetal (HPMC) ainda são minoria em processos produtivos e preferência dos consumidores, mas a curva de entrada de novas opções no mercado é contínua, assim como aconteceu no passado com produtos orgânicos. A Herbarium, indústria farmacêutica paranaense com foto em fitoterapia, presente há 37 anos no mercado, investiu na importação desse tipo de cápsula para seu novo suplemento alimentar.

- Muitas vezes o que vemos de ‘mais inovador’ não está, necessariamente, em uma tecnologia inédita, mas em usar ingredientes que são biocompatíveis ao nosso organismo, e que a sua manipulação/manufatura não gere tantos impactos negativos ao meio ambiente e a sociedade - explica Natana Martins, coordenadora de Marketing Institucional da Herbarium.

As cápsulas veganas não utilizam nenhum elemento derivado de origem animal em sua composição. As da Herbarium, por exemplo, são produzidas a partir de um material de celulose derivado de árvores de madeira macia, principalmente pinheiros e abetos, cultivados e colhidos em plantações na Europa Ocidental e na América do Norte.

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Segundo a executiva da companhia, a pasta desta madeira é obtida de fontes certificadas, assegurando que as árvores são originárias de uma silvicultura sustentável.

Apesar do custo até 13 vezes maior em relação às cápsulas de origem animal, o investimento para comprar o insumo importado compensa, na opinião de Carina Zampini, farmacêutica e CEO das farmácias de manipulação HMS Natural e da Vegan Pharma.

- A troca para as cápsulas importadas de celulose ou tapioca não atende apenas aos veganos e aos alérgicos. Elas evitam que toda uma indústria de fabricação de produtos de origem animal seja acionada para se ter acesso aos insumos. É menos resíduo indireto gerado pelas farmácias e mais ganho para todos - diz.

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Absorventes reutilizáveis

Em relação à saúde da mulher, as linhas de absorventes biodegradáveis ou reutilizáveis vem se popularizando. Estima-se que até 200 quilos de absorventes íntimos convencionais podem ser gerados ao longo da vida fértil da mulher, sendo 90% composto de plástico.

Para trazer ao mercado uma alternativa mais ‘amiga’ do meio ambiente, a Korui oferece, desde 2015, absorventes de tecido, feitos de poliéster e algodão para substituir os descartáveis. Os processos de fabricação priorizam geração menor de resíduos têxteis e fornecedores certificados e que atestam boas socioambientais. Com o produto mais barato e funcional do que as calcinhas de tecido, a empresa cresce a cada ano.

- Na pandemia, o faturamento triplicou. No isolamento, mais gente passou a olhar para sustentabilidade e encaixar pequenas ações no dia-a-dia. Agora, são as grandes empresas que precisam correr para superar a estrutura já estabelecida - diz Luisa Cardoso, sócia da Korui.

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A Korui tem selo de Empresa B, ou seja, é certificada por praticar altos padrões de impacto socioambientais. Entre as ações, contrata fornecedores locais, em especial mulheres, que buscam conquistar sua autonomia financeira.

Higiene pessoal

Há produtos de higiene pessoal e beleza que também buscam diminuir resíduos, consumo de água e trazer propriedades mais naturais ao consumidor. Xampus e condicionadores em barra e sem materiais pesados são alguns exemplos.

Outra opção são as maquiagens sólidas produzidas com menor quantidade de água e à base de pigmentos naturais e sem embalagens plásticas. Algumas, inclusive, são multifuncionais - servem como batom, blush e sombra. Há ainda as escovas de dente de bambu com cerdas vegetais.

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Recentemente, a Bhava Biocosméticos lançou em uma feira de tendências de produtos orgânicos certificados um protetor solar em barra 100% natural e vegano, embalado em papel semente, resistente à água. Segundo a fabricante, cada unidade equivale a quase três embalagens plásticas de 250 ml.

Saúde dos dentes

Já na linha da saúde bucal, a intenção do dentista Luciano Mazitelli é transformar o hábito estabelecido há mais de cem anos de escovar os dentes com pasta em tubo. Depois de dois anos de pesquisas e buscando inspiração até em grupos que praticam camping e que precisam de itens práticos, ele lançou a Sana Green, marca de pasta de dente sólida em pastilha.

Contando com fornecedores locais, para reduzir as emissões de carbono, e feita a partir de insumos 100% naturais, as pastilhas não levam água na composição e não são testadas em animais. É vendido em embalagem reutilizável e reciclável.

- Temos a preocupação de ler o rótulo dos alimentos e buscar shampoo sem parabenos, mas esquecemos dos químicos sintéticos que são usados na fabricação dos cremes dentais convencionais e da quantidade de lixo plástico que os tubos geram nos aterros. Criei essa pasta para provar que com 350 miligramas de produto dá para escovar os dentes cuidando do meio ambiente e da saúde - comenta o empresário.

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Outros produtos similares também já são vendidos no mercado hoje.

- O objetivo é incomodar os stakeholders desse mercado global que movimenta R$ 10 bilhões todos os anos. Se a Sana Green e os concorrentes mostrarem o quanto é preciso repensar o produto, estamos colaborando positivamente para o propósito de sustentabilidade e para a mudança de comportamento dos mercados produtor e consumidor - sustenta.

Parte dos lucros de cada compra feita pelo site da Sana Green é destinada à produção e distribuição de pastilhas dentais para comunidades ribeirinhas da Amazônia, em parceria com a Fundação Amazônia Sustentável.

Ressonância magnética

Até mesmo os serviços médicos de diagnóstico estão sendo desenvolvidos de modo a fazer uso eficiente de recursos naturais e poluir menos. É o caso por exemplo do equipamento de tomografia computadorizada e ressonância magnética desenvolvido pela Phillips. Ele usa 7 litros de gás hélio líquido para resfriamento, em vez dos 1.500 litros usados nos equipamentos convencionais.

Apesar de ser o segundo elemento químico mais abundante no universo, a diminuição das reservas do gás hélio gera alertas entre pesquisadores há mais de dez anos. Considerado um gás nobre em seu estado bruto, ele se transforma em um subproduto da indústria do gás e é fundamental na realização de exames de imagens.

O equipamento da Philips usa uma combinação de mecanismos orientados por inteligência artificial e incorpora a tecnologia BlueSeal, proprietária da empresa, para operações livres de hélio.

- A pequena quantidade de hélio usada no MR530 [o equipamento diagnóstico] minimiza a possibilidade de escapes para a atmosfera e reduz o impacto dessa substância no ambiente - comenta Felipe Basso, diretor geral de Health System da Philips no Brasil.

Ele acrescentou:

- Além disso, há redução de custos operacionais e mitigação de possíveis interrupções longas nos serviços de diagnóstico para a recarga do gás. Ou seja, a tecnologia fica disponível por mais tempo aos pacientes ao longo da vida útil do equipamento - explica ainda.

O equipamento também foi ferramenta para atendimento médico especializado a mais de 80 mães de Goiás, Maranhão e Ceará sem acesso a médicos especialistas, uma parceria com a ONG SAS Brasil.

Mudanças como estas não são impossíveis, mas desafiam as gigantes do mercado e suas complexas cadeias produtivas e de distribuição.

- A circularidade mais eficiente de embalagens, feitas sem plásticos e com materiais biodegradáveis já está mapeada. Há uma vontade genuína das grandes indústrias da beleza, saúde e bem-estar, mas não é só virar uma chave. Nos Estados Unidos estão sendo criadas consultorias de desenho de cadeia para atender a produção de novos formatos de produtos que atendam a todas as questões de compliance, sustentabilidade, qualidade, logística e segurança - comenta Bruno Porto, sócio da consultoria e auditoria PwC Brasil.