Pastor Bertucci, o 'outsider' contra Maduro que distribui sopa aos pobres

Por Esteban ROJAS
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O candidato opositor à Presidência da Venezuela, Javier Bertucci, em Valencia, 16 de maio de 2018

Praticamente desconhecido há alguns meses, o pastor evangélico Javier Bertucci se tornou o 'outsider' das eleições presidenciais na Venezuela, distribuindo sopa em comunidades pobres e apresentando-se como "a esperança da mudança".

Líder da igreja Maranatha ("Cristo vem", em aramaico), Bertucci escalou de forma surpreendente nas pesquisas e até se atreveu a pedir a Henri Falcón, o maior adversário do presidente Nicolás Maduro nas eleições de domingo (20), que retirasse sua candidatura.

Corpulento, bem vestido e com os cabelos engomados, este empresário de 48 anos aparece colado em Falcón com cerca de 20% das intenções de voto, segundo as pesquisas.

Seus comícios se caracterizam pelas longas filas de pessoas que esperam um prato de sopa, um trabalho que desempenhava como pastor antes de se aventurar na política.

"É a pedra que Falcón não esperava no caminho", afirma Félix Seijas, diretor do instituto de pesquisas Delphos.

A Bíblia que Bertucci leva desde que começou a pregar na década de 1990 fica na gaveta. Deixou temporariamente sua condição de pastor, pois a lei venezuelana exige que os candidatos sejam seculares.

"Sinto uma dor no coração por esta decisão, mas é a correta", disse em entrevista à AFP em um luxuoso hotel de Caracas.

Os fiéis da Maranatha - culto fundado em 1974 em Chicago com presença em uma dezena de países - gritam fervorosamente durante seus discursos, nos quais promete liberalizar a economia.

"Há um tremor (...) Chama-se Esperança pela Mudança (partido de Bertucci). Deus está dando um sinal à Venezuela", expressou em um vídeo o fundador desta Igreja, o porto-riquenho Nahum Rosario, após um sismo registrado em abril no norte do país.

- Luz... E trevas -

Nascido em uma família de camponeses em Guanare, estado Portuguesa (oeste), Bertucci é um 'sel-made man'.

Embora negue ser rico, foi habilidoso nos negócios, fez aumentar seu número de fiéis e criar uma plataforma política, da qual critica o boicote dos principais partidos opositores contra as eleições.

Eloquente, define-se como "a luz" neste momento em que os venezuelanos estão mergulhados na hiperinflação e na escassez de alimentos e medicamentos.

"Se eu sou a luz, alguém tem que ser as trevas", declarou à AFP, referindo-se a Maduro.

No entanto, em seu passado há sombras.

Setores opositores o acusam de ter feito negócios com o chavismo em sua faceta empresarial, e em 2010 passou seis meses sob prisão domiciliar por contrabando de combustível para a República Dominicana.

Também foi vinculado aos 'Panama Papers', documentos que vazaram na Internet e revelaram sociedades obscuras em todo o mundo, muitas usadas para lavar dinheiro.

Os apontamentos aludem a uma questionada empresa de importação de carne que tentava presidir. "A negociação não chegou a bom termo e não se fez nada", garante Bertucci.

Sua campanha tampouco esteve isenta de tropeços. Dois colaboradores foram feridos a tiros durante ataques, enquanto um tuíte desatou uma chuva de críticas.

"Vejam que boa mão eu tenho! Se com 25 anos de casado, minha esposa, Rebecca Bertucci, permanece tão bela, imaginem a Venezuela quando eu governá-la", escreveu.

Ele acompanhou a mensagem com uma foto sua abraçado à esposa, elegante e longos cabelos pintados de loiro, com que tem três filhos.

Acusado de machismo, apagou a mensagem, como fez com as piadas de quem não levou a sério sua aspiração presidencial.