Patrícia Kogut: Nicette Bruno tinha no olhar o brilho da mais pura emoção

Patrícia Kogut
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TV GLOBO / CEDOC / Agência O Globo

A última novela da Globo a ser concluída sem os tropeços impostos pela pandemia foi "Éramos seis", em março — ela marcou o último trabalho de Nicete Bruno na televisão brasileira. A atriz, que foi a Dona Lola da versão da trama de 1977, na Tupi, fez aquilo que se costuma chamar de "participação afetiva": interpretou uma freira.

Foram poucas aparições, mas, como sempre, quando ela entrava em cena, era aquela chuva de presença, de doçura, de luz. Sobretudo porque com uma história tão longa na TV, quando ela surgia, eram todas as Nicetes já vistas em tantas histórias que tocavam o coração do público.

Cito o exemplo de "Éramos seis" não só porque foi a despedida. Mas também porque ele é muito simbólico de tudo o que ela representava: uma atriz que foi primeiro a mocinha. Depois, a mãe ou a avó.

O último papel importante e que se estendeu por uma história inteira foi em "Órfãos da Terra". Na trama de Thelma Guedes e Duca Rachid, ela viveu Esther Blum, uma mãe judia hiperprotetora - com o perdão do pleonasmo.

Protagonizou sequências inesquecíveis numa dupla com Marcelo Medici, seu filho na ficção. Como fez com todos os seus personagens, conferiu a esse trabalho um calor de que só ela e outros poucos grandes são capazes.

As gerações de espectadores se lembrarão de sua presença na teledramaturgia de maneiras diversas. Ela chegou na Excelsior, em 1952, quando a televisão ainda engatinhava e não dava prestígio. Os bons, como ela, preferiam o teatro.

Mas nunca mais saiu da tela. Foi para a Tupi, e brilhou muito em "Meu pé de laranja lima", como a Cecília, em 1970. Na Globo, foram inúmeras tramas. Era uma profissional generosa, mas sua força tão grande que atraía inevitavelmente para si todas as atenções.

Era filha de uma atriz, casou-se com Paulo Goulart, com quem dividiu tanto a cena e encantou, e com ele teve três filhos que seguiram a profissão. Nicete nos deixa tanto: uma carreira longa, linda e plena. E uma família de talentos.

A última vez em que a encontrei, foi na maternidade. Eu estava esperando um sobrinho. Ela, com a filha Beth, emocionadas, aguardavam respectivamente a bisneta e a neta. O brilho no olhar dela era aquele que os brasileiros se acostumaram a ver por tantos anos: o da pura emoção.