Patrulha ideológica, prova roubada e vazamento de conteúdo: Relembre as principais polêmicas da história do Enem

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RIO - Desde a eleição de Jair Bolsonaro, o conteúdo do Enem passou a ser alvo constante de críticas de membros do governo, e as polêmicas relacionadas a acusações de patrulha ideológica chegaram ao ápice neste ano, quando 37 servidores do Inep pediram exoneração alegando questões políticas. Desde 2009, porém, quando o exame foi reformulado, alguns problemas marcantes já foram registrados, como o furto das provas logo na primeira edição do Novo Enem.

Em 2018, logo após sua eleição, Bolsonaro anunciou que faria mudanças, ao afirmar que "tomaria conhecimento da prova antes que ela fosse impressa". No ano seguinte, então ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que o exame, daquela vez, "não teria foco em questões ideológicas". Até que, na semana passada, o presidente afirmou, durante viagem a Dubai, que o Enem começou a ter a "a cara do governo".

Na semana passada, servidores que se exoneraram disseram, ao "Fantástico", da TV Globo, que cerca de 20 questões haviam sido alteradas no Enem de 2021 para não desagradar a Bolsonaro. Segundo os relatos, as novas versões das provas tiveram que ser feitas para atender aos pedidos de natureza ideológica. No entanto, eles não revelaram quais foram as modificações feitas porque a fim de não comprometerem o concurso. Um pedido do presidente que foi revelado era que a expressão ditadura militar fosse substituída por revolução de 64.

Antes da gestão Bolsonaro, as principais polêmicas envolvendo o Enem eram basicamente relacionadas a falhas de logística e de organização das provas. Relembre os principais acontecimentos ao longo da história da prova, desde a sua mudança, em 2009.

O novo Enem, iniciado em 2009, gerava muitas expectativas pela reformulação no acesso a universidades, já que agora o exame seria o vestibular direto para várias universidades federais. Mas o primeiro ato, que ficou para história, foi o seu adiamento, por causa do furto das provas, reportado apenas dois dias antes do exame. O evento resultou numa comoção nacional e os 4, 1 milhões de estudantes inscritos foram pegos de surpresa. Mesmo anterior ao tempo dos memes, a internet foi recheada de vídeos e piadas sobre o assunto. Um vídeo de um estudante cantando que, por causa do adiamento, assistiria o Fla x Flu naquele domingo, por exemplo, viralizou, mas, apesar do humor, o resultado foi um transtorno imenso, com o Enem precisando ser remarcado para dezembro, o que atrasou o processo de seleção em várias universidades. Ao final, o então diretor do Inep, Reynaldo Fernandes, foi demitido.

As investigações do roubo levaram a um funcionário de uma empresa de segurança que trabalhava na gráfica que imprimia as provas. Ele teria furtado uma cópia da prova para tentar vendê-la, com ajuda de comparsas. No seu depoimento, um dos acusados chegou a afirmar que a segurança do Enem era "uma festa" e, em 2011, quatro acusados foram condenados a uma pena de 2 a 5 anos, mas, desde então, o processo judicial foi atravancado por recursos, e os envolvidos não chegaram a ir para a prisão.

Em 2010, 21 mil cadernos da prova amarela do Enem foram aplicados com erros de impressão, o que trouxe dificuldades para os candidatos. O problema, ocorrido em um dos lotes do exame, na gráfica, apresentou falhas, gerou questões duplicadas, cabeçalho invertido e paginação fora de ordem. Segundo o MEC, a situação afetou apenas 1% do total das provas amarelas, mas os estudantes afetados puderam refazer o Enem.

Na edição de 2011, foi constatado que 639 alunos de um colégio particular de Fortaleza tiveram acesso antecipado a 14 questões do Enem. Isso teria acontecido em um pré-teste realizado na escola, uma espécie de simulado do Enem muitas vezes realizado pelo próprio Inep. As provas daqueles alunos foram canceladas e precisaram, depois, ser refeitas.

A mobilização estudantil no país em 2016, com milhares de escolas ocupadas por alunos em protesto contra a reforma do ensino médio e a PEC do teto de gastos, afetou o Enem daquele ano. Por conta das ocupações, a prova deixou de ser aplicada em 405 locais, e o Enem precisou ser reaplicado para cerca de 200 mil alunos.

Em novembro, na edição de 2018 do Enem, o presidente Jair Bolsonaro tinha acabado de ser eleito e se manifestou com críticas a uma das questões da prova de Linguagens, Códigos e Suas Tecnologias. A pergunta partia de um texto que citava o pajubá, espécie de dialeto secreto, de origem africana, usada por gays e travestis. O presidente se incomodou com a questão e disse que, na sua gestão, o Enem teria que tratar de "conhecimentos úteis".

Pouco depois, Bolsonaro afirmou que "tomaria conhecimento da prova antes que ela fosse impressa", nas edições seguintes do Enem. Era o início da institucionalização da patrulha ideológica do governo sobre o Enem.

inda na edição de 2018, uma questão de Matemática e Suas Tecnologias foi alvo de uma denúncia de um grupo de professores. Eles disseram que a questão, que pedia o cálculo de duração de uma pena para crimes como tráfico ilícito e produção não autorizada de drogas, fez parte, com mesmo texto, do vestibular de 2014 da Universidade Federal do Paraná. O caso motivou a abertura de uma sindicância interna no Inep.

Em 2019, segundo a linha pedida por Jair Bolsonaro, o então ministro da Educaçã Abraham Weintraub afirmou que o Enem não teria mais questões que desagradem o governo.

— Não vai cair ideologia, a gente quer saber de conhecimento científico, técnico, de capacidade de leitura, de fazer contas, de conhecimentos objetivos — afirmou em entrevista.

Em 2019, primeiro exame feito sob comando de Bolsonaro, as questões do Banco Nacional de Itens, que compõem a prova, foram alvo da inspeção de uma comissão ideológica. Como O GLOBO revelou na época, o grupo "desaconselhou" o uso de 66 itens no exame e sugeriu a troca do termo "ditadura" por "regime militar".

Na edição de 2019, minutos antes do início da prova, uma foto com o tema da redação ganhou a internet. O então ministro Abraham Weintraub, confirmou o vazamento, mas disse que, pelo curto intervalo, não seria suficiente para afetar a prova. Posteriormente, a Polícia Federal investigou o caso.
Erro na divulgação de resultados

Ainda sobre a edição de 2019, uma nova falha: após alunos se revoltarem com suspeita de erros nas correções da segunda prova, o próprio MEC criou um e-mail para que as queixas fossem reportadas. Em janeiro de 2020, o ministro Abraham Weintraub afirmou que incongruências nas correções teriam afetado cerca de 6 mil alunos, e justificou o erro por um problema na impressão da gráfica.

Em função da pandemia da Covid-19, o Enem 2020 teve sua data original alterada de novembro em janeiro. Mas a aplicação da prova foi questionada por diversas pessoas e entidades, seja por questões médicas e sanitárias, mas também por causa do prejuízo a milhões de alunos pobres do país, que sofreram com as escolas fechadas no ano e a dificuldade em acompanhar aulas remotamente.

No Amazonas, que vivia surto de covid na época, o exame foi adiado, por decisão judicial. As circunstâncias da pandemia ainda resultaram na aplicação do modelo digital da prova, além da prova tradicional, para 93 mil candidatos no país.O resultado, com todas dificuldades, com uma abstenção recorde. O segundo dia de provas teve mais de 3 milhões de faltosos, o que correspondia a 55,3% dos inscritos.

Na edição 2020, o presidente Jair Bolsonaro voltou a se manifestar publicamente sobre o conteúdo da prova. No caso, ele criticou a questão que comparava o salário de Marta e Neymar, os jogadores referência da seleção brasileira feminina e masculina, respectivamente. Bolsonaro chegou a falar que o Enem tem questões "ridículas", e creditou o problema a governos anteriores.

— Você vê as provas do Enem. O banco de questões do Enem, não é do meu governo, é de governos anteriores. Tem questões ali ridículas ainda, ridículas, tratando de assuntos...Comparando mulher jogando futebol e homem. Por que a Marta ganha menos que o Neymar. Não tem que ter comparação. O futebol feminino ainda não é uma realidade no Brasil — disse Bolsonaro

No primeiro gabarito oficial do Enem 2020, o Inep colocou como certas respostas racistas. Em uma questão, dizia que a mulher negra que não quer alisar seu cabelo tem argumentos "imaturos"; na segunda, dizia que o Google associava nomes de pessoas negras a fichas criminais por causa da "linguagem", não do "preconceito". Após a repercussão negativa, o Inep alterou o gabarito, e admitiu que aquelas respostas não eram as corretas.

Na atual edição do Enem, a prova foi precedida por uma profunda crise no Inep. Alegando questões políticas e assédio moral do presidente do Instituto, Danilo Dupas, 37 servidores pediram exoneração, duas semanas antes da prova. Em reportagem da TV Globo, os funcionários afirmaram terem presenciado interferências do governo no conteúdo da prova. O afastamento de Dupas foi pedido na justiça, bem como ao TCU - que negou o pleito - por deputados federais.

O ministro da educação, Milton Ribeiro, negou interferência política na prova. Entretanto, o próprio presidente Jair Bolsonaro afirmou, na semana passada, que o Enem começa a ter "a cara do governo".

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