Patrulhas cidadãs em Mianmar para impedir prisões da junta militar

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Em Yangun, as patrulhas cidadãs não deixam de desafiar o toque de recolher, percorrer as ruas desertas e levantar barricadas para impedir as detenções da junta militar, que tomou o poder em 1o de fevereiro com um golpe de Estado.

"Obviamente temos medo porque os soldados estão armados", sussurra Myo Ko Ko, de 39 anos. "Mas continuamos observando. Ninguém deve ser detido".

Há várias noites, ela percorre a enorme cúpula dourada do famoso Shwedagon, no centro da capital econômica, colocando barricadas em algumas ruas de seu bairro. Não muito longe, seus vizinhos batem em panelas para alertar sobre a presença de intrusos.

A implantação de veículos blindados no domingo não diminuiu sua motivação.

De qualquer modo, "devemos garantir a segurança do nosso povo", afirma Myo Ko Ko, antes de se instalar em um posto de controle improvisado por sua patrulha.

"Verificamos todos os carros porque ouvimos que a polícia se esconde em veículos sem placa" para prender os opositores.

Cerca de 400 pessoas foram detidas desde o golpe de Estado em 1o de fevereiro que derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi, entre elas políticos, ativistas, médicos e membros da sociedade civil.

A junta liderada pelo general Min Aung Hlaing persegue particularmente aqueles que fomentam a desobediência civil. Muitos funcionários se juntaram aos protestos fazendo greve.

- Perseguição -

Eles também organizam operações para localizar possíveis suspeitos.

Os moradores temem que a libertação em massa de mais de 23.000 prisioneiros por parte do exército na semana passada seja um pretexto para implantar sabotadores.

"Perseguimos um homem e o prendemos, mas quando o interrogamos não conseguimos nada concreto. Tudo o que sabemos é que ele acabou de sair da prisão", disse Myo Ko Ko, explicando que o entregou à polícia.

Em outro bairro da cidade, os residentes também estão de guarda e as imagens divulgadas nas redes sociais mostram alguns deles armados com paus e barras de ferro.

"Colocamos sacos de areia para bloquear a estrada durante o toque de recolher" decretado das 20h00 às 04h00 locais, disse Ko Ko Naing, um comerciante de 45 anos.

A tensão continua aumentando desde o golpe de Estado.

No sábado, Min Aung Hlaing concedeu poderes excepcionais à polícia, que pode realizar buscas sem ordem judicial ou prender pessoas durante um breve período sem autorização de um juiz.

O exército também publicou uma lista de sete ativistas procurados.

Publicaram também ordens de prisão, pedindo às pessoas que ajudem a polícia a encontrar a esses "fugitivos". A junta alertou que qualquer um que fornecer ajuda ou refúgio para eles será alvo de represálias.

"Não dormimos bem, há muitos rumores", disse Tun Tun, um taxista que, apesar da possível violência, defende a ideia das patrulhas cidadãs.

"Não temos escolha. Temos que estar do lado certo" contra os militares, acrescenta.

O medo está na mente de todos, porque as duas últimas revoltas populares de 1988 e 2007 foram reprimidas com sangue pelo exército.

bur-lpm-del-sde/avz/pc/me/aa