Pau-de-arara? Discurso anticorrupção de Bolsonaro revela apenas delírio autoritário

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Dilma Rousseff demitiu sete ministros em seu primeiro ano de mandato. Seis deles caíram por suspeitas de corrupção, entre eles Antonio Palocci (Casa Civil), que não soube explicar como multiplicou seu patrimônio por 20 em cinco anos, Alfredo Nascimento (Transportes), cujo partido, o PR, era acusado de comandar um esquema de cobrança de propinas em estatais, e os peemedebistas Wagner Rossi (Agricultura), que teria oferecido propina em troca de silêncio sobre casos de fraude e corrupção na pasta, e Pedro Novais (Turismo), que teria usado recursos públicos para pagar uma empregada pessoal.

A “faxina”, como ficou conhecida a lista de demissões, alavancou a popularidade da presidenta em 2011. Pesquisa Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou em setembro daquele ano que o governo da petista era aprovado por 71% dos eleitores.

O tema corrupção era o assunto mais lembrado pelos entrevistados.

Anos depois, os expurgados PR e PMDB, hoje MDB, seriam decisivos no impeachment da petista, mas essa é outra história. 

Ou não.

Ao fim do primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro, 30% de aprovação, o combate à corrupção não é exatamente a tarefa mais lembrada pelos eleitores quando avaliam o trabalho do capitão. Pelo contrário: segundo o Datafolha, 50% dos brasileiros consideram ruins ou péssimas as iniciativas do governo em uma de suas principais bandeiras de campanha. 

Sergio Moro, símbolo da aliança de Bolsonaro com a Lava Jato, atribui essa sensação ao Supremo Tribunal Federal, que considerou inconstitucional o cumprimento de pena antes da ação transitar em julgado - uma maneira de apontar o dedo para a Corte e fingir que o governo é composto apenas por querubins de mãos engessadas.

Acusado de usar candidatas-laranja na campanha, quando concorreu a deputado pelo PSL em Minas Gerais, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, ainda divide a mesa com Moro nas reuniões ministeriais. Em outubro, ele foi denunciado pelo Ministério Público Federal.

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Ricardo Salles (Meio Ambiente), que já foi condenado por improbidade administrativa, é suspeito de pressionar policiais, delegados e juízes para direcionar inquéritos, influenciar investigações na Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, comandar um esquema de falsificação de documentos em processos e defender interesses de uma construtora enquanto era secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, conformou revelou o portal UOL. 

Do time bolsonarista ainda é possível citar o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que assumiu ter recebido recursos de caixa dois da JBS. “Já me resolvi com Deus”, disse ele, ao ser questionado sobre o “descuido”. 

Diante dos números e dos fatos, Bolsonaro resolveu contra-atacar. Não com ações efetivas relacionadas à transparência e ao fortalecimento institucional dos órgãos que recentemente tiveram os trabalhos suspensos a pedido do filho, o senador também investigado Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), mas com sua metralhadora verbal.

Em discurso no Tocantins, na quinta-feira, dia 12, ele prometeu botar no “pau de arara” o ministro que estiver envolvido em corrupção. “Se ele tiver responsabilidade, obviamente. Que, às vezes, lá na ponta da linha está um assessor fazendo besteira, sem a gente saber. Mas isso é obrigação nossa. É dever. Isso aí não é algo meritório, que tem que ser aplaudido. É obrigação, é dever.”

A fala soa como uma resposta aos índices apurados na pesquisa Datafolha, numa tentativa de acenar aos movimentos anticorrupção que apoiaram em peso o ex-deputado desde o início da campanha.

O aceno ao instrumento de tortura do regime militar, que se soma a outros significantes do léxico bolsonarista em defesa da ditadura, lança uma cortina de fumaça a qualquer exercício de memória dos 12 primeiros meses  de governo. 

Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira, dia 13, mostra que a continuidade dos trabalhos da Lava Jato tem o apoio de 80% dos entrevistados. Em um ano marcado por revelações de abuso nas investigações, em que até mesmo um procurador de Curitiba chegou a ser citado por um doleiro como beneficiário de propina, os números mostram que a força-tarefa é ainda a instituição mais popular do país -- superando o presidente e seu ministro da Justiça.

Não deixa de ser um impasse para o próprio Bolsonaro.

Em julho, o site The Intercept Brasil revelou uma troca de mensagens entre Deltan Dallagnol e outros procuradores num chat privado sobre as suspeitas envolvendo o filho do presidente. Ele manifestou preocupação com a forma como o ministro da Justiça conduziria o caso: “É óbvio o q aconteceu… E agora, José?”

Dallagnol previa que o presidente não se afastaria do filho e que Moro teria problemas “antes de aparecer vaga no Supremo”. “Agora, o quanto ele vai bancar a pauta Moro Anticorrupcao se o filho dele vai sentir a pauta na pele?”, questionou.

A pergunta vale quantos cheques de R$ 2 mil?

Fato é que, nas palavras do também procurador Eduardo El Hage, coordenador da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro, Bolsonaro, “que foi eleito com uma bandeira de combate à corrupção e à impunidade, muito pouco fez nesse primeiro ano de governo nessa pauta”.

“Ele poderia estar fazendo movimentações no Congresso pela prisão [após condenação] em segunda instância. Houve também uma interferência na troca de superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, quando isso não é geralmente pauta de presidente da República”, disse o procurador em entrevista à Folha, em novembro.

Para ele, a ida de Moro ao governo criou uma associação entre a Lava Jato e Bolsonaro, o que foi prejudicial para a imagem da operação.

É essa imagem arranhada que Bolsonaro tenta agora se apropriar pelo grito. Alguém precisa avisar que ele não precisa de instrumento de tortura para dar o exemplo. Para isso tem a caneta presidencial.