Paulinho Boca de Cantor lança disco após 10 anos e lembra quando Novos Baianos eram perseguidos por 'joaninha' da polícia

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Sempre que os Novos Baianos cruzavam o antigo túnel Dois Irmãos vindo do mítico sítio de Jacarepaguá rumo à Zona Sul carioca era batata: o JK azul com documento atrasado e aquele bando de cabeludos socados lá dentro era perseguido por uma "joaninha" da polícia militar. Ela ficava estacionada num posto de gasolina, na Lagoa, só esperando a hora certa de dar o bote. Cansado de "tomar dura", Paulinho Boca de Cantor, pediu ajuda a um rezador, que lhe ensinou um truque para passar "despercebido" quando os guardas surgissem em seu caminho.

A simpatia consistia em colocar a língua para fora, direcionar o olhar para a ponta dela e, sobretudo, acreditar no poder de convencimento de que não, ali não estava mais uma pessoa. Ela havia "virado moita". A mandinga não só funcionava, garante Boca (apelido pelo qual é conhecido entre os amigos), como acabou se inspirando o refrão de uma de suas composições mais famosas, "Swing de campo grande" ("eu não marco toca/ eu viro toca, eu viro moita"). O episódio também gerou outra canção, "Dê um role" (Luiz Galvão e Moraes Moreira), inspirada nas voltas de carro dadas em torno do espelho d'água para despistar os PMs.

Apesar do talento para compor — é parceiro de Adoniran Barbosa em "Minha nega", além de autor de "Rock Mary", "Vestido de prata", "Estrela manhã", entre outras —, o artista de 75 anos, que encorpou o gogó como crooner em bailes de orquestra, ficou mais conhecido como "a voz de veludo" dos Novos Baianos. Eternizou clássicos como "Mistério do planeta" e, junto com o parceiro Moraes Moreira, morto no ano passado, é considerado o primeiro cantor de trio elétrico. O primeiro trio dos Novos Baianos, aliás, foi construído (e 1976) dentro de uma garagem e não passou pela porta na hora de ganhar as ruas. O jeito foi derrubar o muro a marretadas.

Mas Paulinho seguiu compondo suas músicas. Muitas delas, retratos do nosso tempo, como ele mostra agora em "Além da boca", disco de estúdio que lançou sexta-feira passada (20), após um jejum de 10 anos.

Um dos destaques do álbum é o samba "Ah, Eugênio", parceria com Zeca Baleiro e Zélia Duncan. Conta a história de um cara viciado em celular. Trecho: "Eugênio, conheço o seu gênio/ Seu remédio é controlado/ Cuidado, seu passado pode ir parar no Face /E essa sua pose, já viu, vai pro space.../ Larga esse iPhone, meu filho, apaga essa selfie".

— Tenho amigos que deixaram de lado a amizade por causa dessa tecnologia louca. Ficam só no celular, tirando selfie o tempo todo — lamenta Boca, que também canta a correria da vida atual em "Ligeiro demais". —As pessoas não têm tempo nem para escutar uma música inteira.

Uma realidade contra a qual ele e o parceiro Zeca Baleiro não desistem de lutar. O compositor maranhense exalta a importância de Boca para a cultura brasileira.

— É um personagem incrível da nossa música popular, uma voz que está no nosso imaginário, um cara muito amoroso, um crooner que tem uma bossa no cantar, uma coisa muito particular.

Embora tenha permanecido atrás dos holofotes que projetaram Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Baby do Brasil ("após os Novos Baianos, fiquei em São Paulo, segui para Nova York e voltei para a Bahia, enquanto eles estavam no Rio, onde dava visibilidade"), Boca talvez tenha sido um dos "baianos" que mais buscou renovação em seu trabalho.

Nos últimos anos, fez shows ao lado de Curumin e Lucas Santtana. O novo disco conta com participação de jovens como Tim Bernardes e Biel Basile, da banda O Terno (em "Ligeiro demais"), Anelis Assumpção ("Vou deixar essa canção no ar"), Marcelo Jeneci, entre outros artistas, que celebram o convite.

— É uma honra, porque a gente é muito fã. Ficamos empolgadíssimos com o convite. Aprendemos a tocar ouvindo o Paulinho cantar. Então já chegamos saltitando, com vontade de tocar e a música é super legal, deu pra pirar no arranjo — , conta Tim Bernardes.

Ponte fundamental em direção a essa juventude foi Betão Aguiar, filho de Boca ("a única pessoa que manda em mim", brinca) e grande aglutinador do meio musical. Pesquisador, documentarista, produtor de discos de Arnaldo Antunes ("Ao vivo no estúdio", de 2007, e "Ao vivo lá em casa", de 2010) e da trilha sonora do filme "Ó pai ó", Betão assina a produção musical do novo disco. Ele, que aparece criança abraçado ao pai na capa do clássico álbum "Valeu" (1981), também incentivou o projeto ao perceber que Boca estava com o repertório pronto.

— Como dono de gravadora não faz música, mas vive dela, a gente achava que eles tinham obrigação de botar o disco na rua (risos). Mas como não é mais assim, resolvemos fazer. Essa juventude fantástica trouxe frescor. Foi uma festa em que todos criamos juntos — define Boca. — Há um tempo, fui a um show do Terno em Salvador. O teatro estava lotadíssimo de adolescentes e todo mundo levantou para me ver. Me senti jovem. Na retomada dos Novos Baianos, a gente percebeu que a maioria do público era dos anos 2000. É bonito a gente ver que não tem nada perdido — afirma ele, que pretende registrar uma parceria inédita com Moraes Moreira num próximo disco.

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