Paulinho, Ubirany, Aldir: Covid deixou um país em silêncio

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Paulo César Santos, o Paulinho, vocalista do Roupa Nova, morto na segunda-feira (14) de Covid-19. Foto: Divulgação/Roupa Nova/Redes Sociais
Paulo César Santos, o Paulinho, vocalista do Roupa Nova, morto na segunda-feira (14) de Covid-19. Foto: Divulgação/Roupa Nova/Redes Sociais

Quando a Organização Mundial da Saúde decretou, em março, a pandemia do coronavírus, um amigo perguntou se o coronavírus seria capaz de repetir os estragos da gripe espanhola no começo do século 20. Ele tinha acabado de ler, em uma reportagem do New York Times, uma descrição que deixou todo mundo em nosso grupo de WhatsApp perturbado: nem todo foi contaminado pelo vírus na época, mas todo mundo conhecia ao menos uma pessoa que morreu infectada.

Nove meses depois, gestamos um país em luto permanente e interrompido. Sim, todo mundo a essa altura perdeu um conhecido na pandemia. Uns mais próximos. Outros, pessoas próximas de pessoas queridas.

Não tem dia que não vemos alguém se despedir de alguém nas redes sociais. Ou pedir orações e pensamentos positivos por alguém que está na pior.

Acompanhamos com angústia a angústia de quem acompanha as notícias de parentes e amigos.

Os que não gostam de sequer tocar no assunto preferem ver o copo meio cheio. Sim, é verdade que tem mais gente se recuperando do que morrendo nos hospitais.

Exemplo disso está no futebol, campo em que lamentamos o desfalque por algumas semanas de algum jogador contaminado; quase todos se recuperam e voltam a atuar dali a alguns dias. A sensação é que aprendemos a lidar com a doença, mas alto lá.

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Na segunda-feira, a morte bateu literalmente à beira do campo. A covid-19 levou o ex-lateral e atual técnico do São Bernardo Marcelo Veiga.

Na hora compartilhei a notícia com um amigo criado na cidade do ABC e torcedor do clube. Ele estava arrasado.

“É estranho ficar tão triste por alguém que eu nem conhecia”, disse uma amiga, dias atrás, ao lamentar a morte do ator Eduardo Galvão. “Ele marcou minha infância. Para mim vai ser sempre o pai do Menino Maluquinho, meu programa favorito por anos”, completou.

Nos últimos dias, as notícias envolvendo personalidades que conhecemos da TV parecem ter se acelerado.

Fazia poucas horas que havia lamentando pelo Marcelo Veiga e, pelo celular, chegou a notificação sobre o cantor e instrumentista Paulo César Santos, o Paulinho do Roupa Nova, havia morrido em decorrência da covid-19. Tinha 68 anos e muita vida pela frente após um transplante de medula. A infecção complicou o quadro.

Costumo dizer que Roupa Nova é a banda com o maior número de fãs ocultos do país. A comoção com a morte de um de seus integrantes mais representativos confirmou a impressão. Nas redes, confirmamos quase sempre aquela norma de que sucesso no Brasil é ofensa. Preferimos falar das bandas independentes, que gostamos de dizer que só nós e meia dúzia de iniciados conhecem. E Roupa Nova sempre foi a imagem do sucesso. Dessas que não se elogiam em público para evitar a patrulha da erudição.

Mas quando tudo se normalizar, se é que um dia vai se normalizar, faça o teste e as contas de quantas pessoas ficam paradas nas cadeiras numa festa de casamento quando toca “Whisky a Go-Go” --cumpre reparar nos pezinhos de quem tenta reprimir a vontade de sair dançando embaixo do palco.

Da mesma forma, é preciso estar morto por dentro ao ouvir “Volta pra mim” e não se derramar em lágrimas lembrando da pessoa que amamos na época daquela novela. O mesmo com as versões de “Dona”, “A viagem”, “Começo, meio e fim”, esta última a obra maior do imenso (e hoje quase esquecido) Tavito.

Mas não é da banda e dos nossos recalques musicais que eu quero falar. O que eu queria falar é que, depois da Covid, não vai ter alma que não vai ouvir algum sucesso do grupo e não vai se lembrar dessa maldita época em que mal tínhamos tempo de lamentar a morte de um conhecido, seja alguém do nosso ciclo de relacionamento, seja algum famoso que marcou nossa vida de alguma forma. Pela música, pela cena da novela, pelo esporte.

Nesta terça-feira 15, mal acordamos do porre ao som dos sucessos cantados por Paulinho, já saudoso, e pela manhã vem a notícia da morte de Orlando Duarte, referência monstruosa do jornalismo esportivo que cobriu dez (DEZ) Copas do Mundo. Também foi levado pela Covid.

Não faz muito e lamentávamos a partida de Ubirany, do Fundo de Quintal. E nos perguntávamos: como ouvir as músicas do grupo sem sentir agora uma pontada de tristeza?

A eles se somam uma multidão de referências que nos despedimos quase diariamente ao longo do ano: Aldir Blanc, Sérgio Sant’Anna, Daniel Azulay, Daisy Lucidi, Rodrigo Rodrigues...Este último, jornalista amigo de amigos, fez um tio chorar de tristeza por dias. “Nunca fique tão sentido por alguém de quem nunca cheguei perto”, ele dizia.

Cada uma dessas pessoas que perdemos é uma clareira em um país que se desertifica na indiferença dos números. “As luzes do palco se apagaram”, escreveram os sobreviventes do Roupa Nova em sua página oficial.

A pior tragédia é que se acostuma. É também a que se resigna sabendo que a última má notícia está longe de ser a última.

Seguimos. Mas como?

Em anos comuns, contávamos nos dedos as referências perdidas ao longo de 12 meses por causas diversas. Sentíamos, pensávamos na família, enviávamos condolências, desejávamos força e coragem aos que ficavam. Neste ano a lista é imensa, e a chance de deixar alguém de fora das justas homenagens é alta.

A sensação é que acordamos como os personagens de “Vingadores - Ultimato” em um planeta onde metade da população foi dizimada numa batalha final. Deles sobraram apenas os nomes em memoriais e o vazio dos que não sabiam lidar com a perda e adoeceram, de tristeza ou cansaço. Sobreviver é também um desafio à sanidade.

É assim que chegamos à reta final de dezembro, ainda sem saber o quanto tantas notícias de tantas perdas já impactam também nossa saúde mental, de quem até o tempo de elaboração do luto e da despedida foi sequestrado.

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