Paulistanos não poderão escolher cemitério onde enterrar parentes com agravamento da crise

Cleide Carvalho

SÃO PAULO.Famílias que moram na capital paulistana não poderão mais escolher o cemitério onde seus mortos serão enterrados quando o número de sepultamentos superar 400 por dia na cidade - exceto se tiver jazigo privado ou já tiver túmulo sob concessão da prefeitura. Apenas três cemitérios da cidade receberão os mortos: Vila Formosa (zona leste), São Luiz (zona sul) e Vila Nova Cachoeirinha (zona norte). Só depois de um ano os parentes poderão pedir exumação e transferir para outro cemitério. A medida é válida também para falecidos em outros municípios da Grande São Paulo que venham a ser enterrados na capital.

Na última sexta-feira, dia 23, a cidade registrou 115 mortes apenas pela Covid-19. Um dia antes haviam sido 119 mortes causadas pelo coronavírus.

A decisão pelo fim da escolha de cemitério por parte do paulistano foi tomada pelo prefeito Bruno Covas dentro do plano de contingenciamento feito para enfrentar a pandemia, em decreto assinado por ele. A determinação valerá enquanto durar o estado de calamidade pública no município, decretado justamente em função da Covid-19.

Com o decreto de sábado, a prefeitura deixará de ter monopólis sobre serviços funerários e permitirá a atuação de empresas privadas como agência de sepultamento. Elas serão cadastradas pelo Serviço Funerário do Município de São Paulo e os preços (de caixões e outros serviços) serão livres, Os valores das agências privadas deverão ser divulgados em plataformas digitais e nos locais de venda dos serviços. Empresas privadas também poderão atuar na cremação de corpos. As regras ainda vão ser divulgadas.

O decreto de Covas ainda liberou sepultamentos durante à noite e madrugada. Os cemitérios costumavam fazer enterros até 18 horas, nos casos dos cemitérios públicos, e no máximo até 20 horas, em espaços privados. Também serão alugadas oito câmaras frigoríficas, cada uma com capacidade para oito caixões, para manter os corpos que eventualmente ficarem à espera de sepultamento.

O estado de São Paulo fabrica quase a metade das urnas funerárias usadas em todo o país. O maior polo de produção fica em de Cabrália Paulista (SP), que abriga quatro fabricantes e fazendas de madeira para fabricação de caixões.

Há duas semanas, as empresas filiadas à Associação dos Fabricantes de Urnas do Brasil (Afub) decidiram aumentar a produção em até 30%, concentrando a fabricação no modelo básico - uma forma de padronizar os custos e agilizar a produção.

Antonio Marinho, presidente da Afub, afirma que, em tempos normais, o Brasil registra pouco mais de 3 mil óbitos por dia, cerca de 100 mil por mês.

- As empresas conseguirão atender a demanda mesmo se houver um aumento de 50% nas mortes. Se passar disso, não está descartada a possibilidade de os corpos serem enterrados envoltos apenas em sacos plásticos - disse ele.

Empresários do setor, porém, não acreditam nas previsões mais alarmistas de mortos pela Covid-19 e apostam nos efeitos do isolamento social para conter a pandemia.

Thiago Bignotto, dono de uma fábrica de caixões em Cordeirópolis, interior paulista, diz que a empersa aumentou seu expediente uma hora e meia por dia, além dos sábados.  Está fabricando 15% a mais e tem estoque de cerca de 6 mil urnas - equivalente a 15 dias de produção.

- Estocar é dificil, porque, vazia, a urna se torna frágil e não aguenta muito peso em cima, tornando difícil o empilhamento. Não faz sentido fabricar mais caixões do que morre gente - diz ele.

O empresário tem conversas semanais com funerárias dos principais mercados onde atua. Segundo ele, em algumas cidades o número de mortes chegou a cair devido ao isolamento social, que reduz, por exemplo, acidentes de trânsito.

A Afub acredita que a encomenda da Prefeitura de São Paulo deverá ser atendida por mais de uma empresa. Com o decreto de calamidade pública, as prefeituras podem comprar sem licitação de preços.

CAIXÕES ENVIADOS A MANAUS

Cerca de 900 caixões fabricados no estado de São Paulo devem chegar a Manaus até a próxima terça-feira. A carga está sendo levada por três caminhões, que vão percorrer 2.800 quilômetros de estradas até Porto Velho, em Rondônia, onde serão descarregados e seguirão de balsa até a capital manauara. A viagem demora sete dias. Dois caminhões já estão nas estradas e o último deles sai parte nesta terça-feira de Dois Córregos, no interior paulista, para atender encomendas de emergência feitas por funerárias de Manaus.

- É um modelo padrão de urna, básico. Nosso maior problema para atender o mercado do Amazonas é a logística. Se a carga fosse enviada por Belém, no Pará, o tempo de entrega aumentaria de sete para dez dias - explica Antonio Marinho, presidente da Associação dos Fabricantes de Urnas do Brasil (Afub).

Os três caminhões levam o primeiro lote de encomendas. Com o colapso do sistema de saúde e nos cemitérios de Manaus, as fabricantes de caixões pediram a ajuda do Exército para enviar urnas a Manaus com mais rapidez. A ideia é que seja fornecido um avião cargueiro da Força Aérea Brasileira. Não há, porém, um acordo fechado. As empresas de urna não sabem, também, quantos caixões poderiam ser enviados num único voo.

Em Manaus, as mortes saltaram de 30 para cerca de 140 por dia, causando colapso também nos sepultamentos.

A Afub afirma que, além de Manaus, o setor vê com preocupação o crescimento de casos da Covid-19 também na Baixada Fluminense, no Rio, e no Amapá.