Paulo Betti x Weverton: um gol contra que deixou uma lição

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Soccer Football - Copa Libertadores - Final - Palmeiras v Flamengo - Estadio Centenario, Montevideo, Uruguay - November 27, 2021 Palmeiras' Weverton during the warm up before the match REUTERS/Mariana Greif
O goleiro Weverton, do Palmeiras e da seleção brasileira. Foto: Mariana Greif/Reuters

Pode ser até que exista, mas eu não conheço, entre os atletas em atividade no Brasil, jogador mais correto, seguro e confiável do que o goleiro Weverton.

Campeão olímpico com a seleção brasileira de 2016, ele vem enfileirando taças desde que trocou o Atlético-PR pelo Palmeiras —sim, o meu time de coração, antes que alguém acuse o suposto conflito da defesa.

No Alviverde, Weverton conquistou Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, um Paulista e duas Libertadores. Em todas essas ocasiões fez questão de desfilar, durante as comemorações, com a bandeira do Acre, seu estado-natal. Uma forma de se reconectar com as origens e lembrar, como forma de exaltação, de onde veio.

As atuações impecáveis renderam convocações frequentes para a seleção brasileira princiál. Weverton é presença certa na lista do técnico Tite para a Copa de 2022. Não falta quem clame por sua presença entre os titulares.

No último sábado de novembro, após a vitória por 2 a 1 de sua equipe contra o Flamengo na final do principal torneio sul-americano, o goleiro, com a bandeira acreana nas costas, correu para abraçar a companheira e telefonar para a filha. À distância, a família comemorava, em uma live improvisada, a nova conquista.

Como sempre, Weverton fez questão de agradecer a Deus em suas primeiras entrevistas como campeão. Membro de uma denominação da Igreja Batista, ele sempre agradece a Deus ao fim das partidas. Não só nas vitórias, embora as vitórias, naturalmente, repercutam sempre muito mais. Principalmente quando elas antecedem a um título como a Libertadores.

Declarações do tipo quase sempre geram confusão em quem, baseado num exercício racional, desencantado e desapaixonado de compreensão do mundo, se atenta para o fato que do outro lado também atuam filhos de Deus —muitos deles também fiéis e ligados fortemente a alguma religião.

Então quer dizer que, do alto, existe um torcedor que escolhe quem vai para o olimpo dos vencedores e quem vai para a masmorra dos derrotados? Deus, então, é um boleiro de ouvido atento que decide destinos a partir de uma gincana disputada por quem reza mais?

A pergunta de base retórica faz sentido, mas não explica tudo. Pelo contrário.

No futebol, como na vida, há uma série de provações que conecta a devoção ao esporte ao princípio religioso. A noção do triunfo após a caminhada exige, para personagens bíblicos e do esporte, noções de renúncia, distância dos excessos (a começar pelo álcool), observância, fé, entrega e, entre tantos outros pontos, a gratidão.

A conquista, para o goleiro convicto da fé, não é obra da escolha divina, mas de uma conexão criada a partir do trabalho, do esforço, da lealdade e da dedicação. A vitória é antes um prêmio a quem combateu o bom combate do que um embate de quem reza mais.

Mesmo o mais ateu dos torcedores sabe que a arrogância, a insolência, a vaidade, a ganância e o descompromisso levam quase sempre à perdição. Na vida e no campo. Essa é uma das muitas razões para que um atleta veja nas histórias bíblicas de provações e travessias no deserto a alegoria do próprio ofício.

Há quem veja nisso tudo apenas proselitismo religioso.

Paulo Betti, ator conhecido por sua militância e ligação com partidos à esquerda, se queixou publicamente, na semana passada, da postura de Weverton ao fim da partida. “O discurso do goleiro do Palmeiras depois do jogo, aquela falação sobre Deus quando devia estar comemorando, aquela cena dele rezando antes de começar o jogo, me fez lembrar do goleiro Bruno, que rezava no Maraca e depois ia matar a moça e jogar para os cães. Explica muito o Brasil”, escreveu o ator em seu Twitter.

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Betti mostrou ali uma visão turva tanto política quanto religiosa. Que, isso sim, explica muito o Brasil.

O atavismo político se expressa porque a declaração deu corda para que aproveitadores reais da fé alheia corressem para usá-lo como exemplo de intolerância religiosa. O alvo do revide não era o ator, mas o movimento que ele defende. A esquerda.

A fala demonstrava também uma visão limitada e limitante sobre religiosidade e profissão de fé. Como se “aquela falação sobre Deus” disfarçasse em palavras e pitadas de hipocrisia as mãos que conduzem ao pecado quando a luz apaga.

A ilação com o goleiro Bruno, condenado pelo assassinato da mãe de seu filho, é a comparação mais esdrúxila com quem sempre se mostrou, antes de tudo, um pai atencioso e profissional exemplar.

Para o bem de todos, o próprio ator percebeu a bobagem e correu para pedir desculpas. E o próprio goleiro correu para dizer que perdoava quem o ofendia.

Jogo jogado, a história, mesmo encerrada, repercutiu e mostrou como parte do país e da opinião pública não conhece, não sabe, não quer saber e não quer entender nem se aproximar de representantes de um dos mais importante fenômeno social brasileiro desde a virada do último século.

Em 1991, os evangélicos representavam 9% da população. No fim dos anos 2010, segundo o último Censo, já eram quase 25% dos brasileiros. São mais de 40 milhões de pessoas que consomem, votam, opinam, julgam, são julgadas e ajudam a definir os rumos e a identidade do país. Um resultado, entre tantos, de projetos sociais capitaneados em territórios periféricos por lideranças religiosas no vácuo das instituições do Estado, inclusive partidos políticos.

Na mesma semana, parte da opinião pública que ainda não entendeu o fenômeno e suas implicações parecia andar como barata tonta ao se manifestar sobre a aprovação, pelo Senado, de um pastor indicado por Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal.

Parte da confusão foi criada pelo próprio presidente, que antes da indicação de André Mendonça dizia querer ver na Corta um ministro “terrivelmente evangélico”.

Os primeiros atos do agora ministro do STF após a sessão não são nada promissores —por exemplo, celebrar, como uma conquista de título, sua aprovação com as mesmas pessoas que o indicaram.

Mendonça passou oito horas da sabatina tentando mostrar aos inquisidores que sua atuação religiosa não competiria com sua atuação como juíz. Há pontos, afinal, em que direitos constitucionais e valores religiosos não dialogam, embora estes sejam garantidos por lei. Casamento igualitário, aborto e direito de não ser ofendido, nem pelo papa, por conta da orientação sexual são apenas alguns desses nós, que não poucos grupos religiosos progressistas tentam desatar.

Há uma área cinzenta ali que nem o fanatismo nem o ranço político parecem entender. Essa cratera que separa mundos aparentemente opostos é o que permitiu que grupos religiosos com interesses políticos se organizem e avancem por jardas em direção a postos-chave da administração convencendo os fieis de que há uma perseguição em curso e é preciso ir à guerra para sobreviver. Como em toda discussão, desatar esse nó exige a separação honesta do joio e do trigo para ninguém cair na vala comum da intolerância.

O próprio ex-presidente Lula, hoje favorito para 2022, demonstrou saber disso ao afirmar que não podem ser tratados como “gado”. Ninguém hoje se elege sem manter um diálogo honesto com as mais diversas correntes religiosas, parte delas assombradas, com ou sem razão, por um mundo em mudanças constantes relacionadas a comportamento, valores, ofícios e interações sociais.

Insisto: abordar esse fenômeno sem cair nas armadilhas fáceis do maniqueísmo exige uma compreensão profunda do fenômeno. Quem se arriscar a isso vai perceber logo que o goleiro que agradece a Deus ao fim de uma partida não quer guerra com ninguém.

O campo em disputa é outro.

Mendonça assumiu o seu compromisso com a Constituição e o Estado democrático de Direito e jurou que as crenças pessoais estarão sempre reservadas ao ambiente privado. A forma como julgará será a medida de como será julgado. Ele sabe, ou deveria saber, que não pode usar o santo nome em vão ou promover falso testemunho.

Se amanhã ele se mostrar um ministro terrivelmente bolsonarista, embaralhando a lei divina de que não é possível servir a dois senhores, ele precisará prestar contas com seus juízes humanos e divinos. Não será tarefa fácil, nem para as consciências mais despreocupadas.

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