Em crise, Paulo Guedes acena para donos do dinheiro com promessas recicladas

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
O presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Economia,  Paulo Guedes, em fevereiro de 2020. Foto: Andressa Anholete/Getty Images
O presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Economia, Paulo Guedes, em fevereiro de 2020. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Exatos três anos atrás, o presidente Michel Temer sancionava na íntegra a reforma trabalhista aprovada pelo Congresso. Entre outros pontos, a nova lei colocou acima da lei acordos entre empresas e empregados, aumentou o rigor para quem quisesse mover ações trabalhistas na Justiça e ampliou ainda mais as vias da terceirização.

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“Modernizar a legislação trabalhista era uma dessas demandas sobre as quais ninguém tinha dúvida. Sobre ela muito se falava, mas ninguém tinha a ousadia e a coragem de realizá-la”, disse o presidente na cerimônia de assinatura.

Na ocasião, chegou a dizer que, em 14 meses de governo, medidas como aquela estavam “revolucionando o país”.

O mesmo país encerrou aquele ano com 12,7% de sua população desempregada.

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Pouco antes da pandemia do coronavírus, o índice de desemprego seguia vergonhosamente alta. Caiu menos de 1% (para para 11,9%) em 2019, mas a taxa de informalidade explodiu e chegou a 41% dos brasileiros, a maior proporção desde 2016, segundo o IBGE.

No geral, e apesar de todas as expectativas e capital político do governo recém-eleito, a economia seguia seu voo de galinha até se esborrachar na crise do coronavírus.

Dados divulgados na terça-feira 14 pelo Banco Central apontam que a economia brasileira registrou em maio um pequeno sinal de vitalidade. Considerado uma prévia do PIB, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) apresentou crescimento de 1,31% em maio em relação a abril.

Só que, na comparação com maio do ano passado, a queda foi de 14,24%. Um verdadeiro tombo.

“Se a economia afundar, acaba o governo”, vaticinou Jair Bolsonaro em 17 de março, uma semana após a Organização Mundial da Saúde anunciar a pandemia do coronavírus.

Em 22 de abril, uma reunião foi realizada no Planalto para a divulgação do chamado Plano Pró-Brasil, conduzido pela ala militar do governo.

Do plano pouco ou nada se sabe ainda hoje, mas foi naquela reunião que Paulo Guedes, o ministro da Economia que chama funcionário público de “parasita”, manifestou divergências em relação ao excesso de intervenção estatal contida na proposta e colocou como alternativas mandar 1 milhão de jovens aos quartéis para servir de mão de obra na construção de estradas e cantar o hino nacional por R$ 300. Foi lá também que ele propôs também a legalização de cassinos para deixar maiores de idade, vacinados e bilionários “se foderem em paz”.

De lá pra cá o ministro submergiu, os militares avançaram mais alguns postos no governo, os mortos na pandemia dispararam, a polifonia de ordens em relação ao isolamento social só prorrogou a quarentena, a reabertura do comércio não produziu os resultados esperados e, sem as atenções devidas, a boiada passou pela Amazônia em forma de devastação recorde e levou investidores estrangeiros a ameaçarem um boicote a compras de produtos brasileiros. O cenário em tempos de vacas magras é de menos dinheiro no caixa, portanto.

Como dinheiro não dá em árvore desmatada, a sobrevivência do governo, apoiada hoje num auxílio emergencial que só engordado por insistência do Congresso, ficou atrelada ao desempenho da economia pós-covid, embora ninguém saiba exatamente quando a situação estará de fato controlada por aqui.

Para evitar o desembarque de quem fez vistas grossas às grosserias do então candidato a presidente em troca de ganhos econômicos prometidos pelo seu Posto Ipiranga, Paulo Guedes tem dado sinais de que haverá biscoitos para quem seguir no barco até o fim da travessia.

Segundo o repórter Antonio Timóteo, do UOL, o ministro prepara um novo programa de reformas trabalhistas e tributárias após a pandemia. A notícia chega um dia após o governo Bolsonaro liberar empresas para recontratar imediatamente — com salário menor, claro — funcionários demitidos na pandemia sem que se configure fraude trabalhista. Foi ampliada também a permissão para redução de jornada e salário por mais um mês.

Os planos do ministro envolvem agora a retomada das discussões sobre a capitalização da Previdência (em que o trabalhador é quem cuida da própria aposentadoria e que já foi descartada há cerca de um ano) e a criação de um imposto sobre transações digitais que parecem, tem cheiro, cor e gosto de CPMF, mas não leva nome para evitar ruídos com o chefe.

Guedes, segundo a apuração, também quer substituir salários mensais por pagamentos por hora trabalhada, sob a justificativa de que assim poderão ser incluídos no mercado de trabalho os 38 milhões de informais que fazem bicos e são hoje “invisíveis socialmente”. A proposta de extinguir a contribuição previdenciária patronal de 20% sobre a folha de salários dos futuros contratados é música para os ouvidos dos empregadores.

Ele defende ainda a unificação do Bolsa Família com outros benefícios para criar o programa Renda Brasil, que pode chegar a 2022 como a grande cartada de Bolsonaro para a reeleição.

Quem não perdeu a memória na pandemia vai se lembrar da “revolução” prometida por Michel Temer ao assinar a reforma trabalhista em 13 de julho de 2017.

Na versão Posto Ipiranga, a promessa chega agora sombreada pela dúvida.

Paulo Guedes é o mesmo ministro que, em abril, dizia negociar com um amigo inglês a disponibilização de 40 milhões de testes para o coronavírus no Brasil.

Foi ele também que prometia zerar o déficit orçamentário ainda em 2019 apenas com reforma da Previdência, as concessões de petróleo e as privatizações. O déficit primário diminuiu, mas fechou o ano em R$ 95 bilhões.

O mesmo ministro promete agora corrigir “excessos” e “erros” na questão ambiental para não afugentar investidores que já olham pra cá com desalento.

De déficit de promessa ninguém morre no Brasil.