Paulo Guedes já não cozinha em banho-maria. É fritado em fogo alto

Matheus Pichonelli
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Brazil's Economy Minister Paulo Guedes listens to Brazil's President Jair Bolsonaro, while leaving Alvorada Palace in Brasilia, Brazil April 27, 2020. REUTERS/Ueslei Marcelino
Jair Bolsonaro e o (ainda) ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Eleito presidente, Jair Bolsonaro ainda não havia tomado posse quando seu futuro superministro mostrou as solas da chuteira a uma repórter do jornal Clarín, da Argentina, em outubro de 2018. “O Mercosul não é prioridade. Não, não é prioridade. Tá certo? É isso que você quer ouvir? Queria ouvir isso? Você tá vendo que tem um estilo que combina com o do presidente, né? Porque a gente fala a verdade, a gente não tá preocupado em te agradar”, disse Paulo Guedes, na ocasião.

O Posto Ipiranga mostrou brio quando um deputado disse em uma audiência que o ministro agia como “tigrão” em relação a aposentados, idosos e pessoas com deficiências, mas como um “tchutchuca” com a “turma mais privilegiada do nosso país”. Sobrou para a mãe e a avó do parlamentar.

Em novembro de 2019, ele mostrou o muque ao falar de possíveis manifestações de rua no país. “Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez?

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Na famosa reunião de 22 de abril, o ministro desfilou sua autoestima dizendo que conversa com todo mundo do establishment mesmo sabendo que “nós somos diferentes”. Também mostrou língua afiada para defender que o governo tinha de “vender essa porra logo” do Banco do Brasil.

Ninguém precisa fazer referências novamente ao Bonde do Tigrão, mas não corre o risco de errar quem supor que esta versão ferina do ministro parece ter sido domada no óleo da frigideira para onde foi lançado com sua equipe econômica pelo presidente Jair Bolsonaro.

Dias atrás, Bolsonaro jogou um galão de água no chope do “big bang day” do ministro que anunciaria uma série de reformas para a construção de um novo dia de um novo tempo que começou no país.

Na ocasião, Guedes reclamou do carrinho e disse que seria pênalti se fosse dentro da área. Seja lá o que isso signifique em Chicago, meca do liberalismo onde se formou.

O chefe e seu Posto Ipiranga não haviam chegado ainda a um acordo sobre o valor do auxílio emergencial, um dos pontos que seguraram a aprovação de Bolsonaro com uma fatia da população que só tem atravessado a pandemia graças aos R$ 600. Se dependesse de Guedes, vale lembrar, o valor seria de R$ 200. Coube ao Congresso triplicar a cartada -- e consequentemente vitaminar a moral do presidente captada nas últimas pesquisas de opinião.

De lá pra cá, coube ao ministro da Economia explicar o rombo do PIB no segundo trimestre e pressionar o presidente a vetar o perdão da dívida estimada em R$ 1 bilhão das igrejas. Bolsonaro vetou, mas desmoralizou a própria equipe dizendo nas redes que o Congresso deveria derrubar a própria decisão.

Pouco antes, Guedes teve de engolir a seco o papelão do presidente que achou uma boa ideia pedir aos varejistas do Brasil que abrissem mão do lucro, e da consequente flutuação do livre mercado, em nome do patriotismo.

Com o óleo fervendo até a tampa, Guedes vê agora o chefe desmoronar, em um vídeo curto, todo o alicerce do trabalho da equipe econômica para manter o programa Renda Brasil de pé. O presidente mostrou irritação ao saber, pela imprensa, que o próprio governo estudava desvincular benefícios previdenciários, como aposentadorias e pensões, do salário mínimo para tornar permanente o auxílio emergencial.

Bolsonaro dizia antes mesmo da eleição que não entendia nada de economia, mas podia escalar quem entendia. A carta branca parece ter durado até a segunda página de uma lição básica dos fundamentos econômicos sobre recursos finitos.

Querendo ou não, o presidente lançou um novo lema ao dizer (e repetir) que não vai tirar dinheiro dos pobres para dar aos paupérrimos. Faltou combinar com Waldery Rodrigues, secretário especial de Fazenda e um dos principais assessores de Guedes, que foi categórico em entrevista ao G1 sobre os planos do governo para abrir espaço no Orçamento e financiar o Renda Brasil. A ideia era que aposentadorias e pensões ficassem sem reajuste por dois anos para pagar o benefício.

Balão de ensaio ou não, a proposta, a exemplo da “nova CPMF”, não pegou bem e levou o presidente do “e daí, não sou coveiro” a dizer que quem propõe uma coisa assim não tinha coração. Ele prometeu ainda dar “cartão vermelho” para quem insistisse na conversa.

O antigo Tigrão correu a público para dizer que o cartão não foi para ele. Parece jogador que no meio do quiproquó sabe que será substituído e se nega a olhar para o treinador berrando à beira do campo para ganhar alguns minutos no gramado.

Se não foi para ele, o cartão foi aplicado a um conselheiro de sua equipe jogado na estrada em rede nacional. Ele, no entanto, preferiu culpar a mídia.

Como Sergio Moro, que decidiu sair do governo após ser humilhado em sequência, Guedes foi desautorizado em público e preferiu desconversar, como se o brio de sua resposta sobre o Mercosul, quando era ainda um projeto de superministro, tivesse se diluído com os anos na fritura.

Na dúvida, Bolsonaro mostrou todo o planejamento da superequipe proibindo que se fale a palavra “Renda Brasil” até segunda ordem. Prefere não mexer, por ora, no Bolsa Família, herança dos governos anteriores que ele sempre adorou desmerecer.

Se ouviu bem o grito de alerta, Guedes uma hora dessas se rasga, engasga, engole, reflete e estende a mão para quem o azucrina, como na música de Gonzaguinha. Se algum amor próprio ainda habitar debaixo daquele terno, ele certamente percebe o rio secando e as pedras cortando enquanto se pergunta: até quando?