Paulo Guedes ainda é intocável?

O ministro Paulo Guedes durante sua caminhada diária perto do Palácio do Alvorada. Foto: Adriano Machado/Reuters

No longo perfil publicado na revista “piauí” em setembro de 2018, a repórter Malu Gaspar conta que, até pouco tempo, Paulo Guedes se gabava de ser “o único único economista que ficou conhecido sem nunca ter passado pelo governo”. “Fiquei rico, fui muito feliz”, dizia ele sobre sua carreira na iniciativa privada.

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No perfil, Guedes tentava a todo custo contestar a conversa de que era ressentido por não ser exatamente uma figura admirada pela chamada turma da PUC do Rio, de onde foi expulso por iniciativa da ex-aluna e hoje economista Elena Landau -- segundo ela, o hoje superministro era “péssimo professor”, “faltava às aulas, não corrigia os exercícios e depois queria aplicar as provas com o conteúdo dos exercícios que ele não tinha corrigido”. 

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“Aquilo é uma patota. Eles se movem juntos, vão para o governo juntos. É um modo de viver que deu certo, porque estão todos bem e ricos”, acusou Guedes, irritado com uma pergunta sobre se sua ida para o governo Bolsonaro seria uma forma de tirar a prova dos nove com a turma da PUC. “Não tenho nada que provar, eles é que vieram para onde eu estava! Eu não estou indo à forra, eles é que estão levantando esse troço!”.

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A não ser que de fato houvesse na decisão um desafio pessoal, consciente ou não, de triunfar onde a turma rival já circulou, era nítido que Paulo Guedes precisava muito menos de Jair Bolsonaro do que o contrário quando topou ser seu fiador econômico -- ou o Posto Ipiranga, para quem o presidente levaria todas as dúvidas sobre a área que ele admitia não entender bulhufas.

Guedes ofereceu um receituário liberal, prometeu entregar reformas, como a da Previdência, e virou uma espécie de bote salva-vida do bolsonarismo em caso de evacuação -- PSL, deputados eleitos e ex-ministros já bandearam, mas Bolsonaro segue recebendo agrados por parte do PIB, como mostra sua aproximação com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

A aposta é que, se ainda não teve tempo de apresentar números substanciosos de recuperação econômica, o governo orientado por Paulo Guedes em breve apresentará.

Falta combinar com a conjuntura.

Recentemente, o relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, mostrou que a expectativa de crescimento para este ano passou de 2,30% para 2,23%. O dólar acaba de bater em R$ 4,40 e o índice de desemprego, embora tenha caído, segue vergonhosamente alto (11%).

Segundo a “Folha de S.Paulo”, Bolsonaro teme que um cenário de estagnação leve parte do mercado financeiro e do setor produtivo a migrar para a barca de possíveis concorrentes em 2022, como João Doria (PSDB) e Luciano Huck.

Isso acontece no momento em que pegou feito Super Bonder a pecha de elitista sobre Paulo Guedes, que ganhou o apelido de Caco Antibes, o personagem de Miguel Falabella que não gostava de pobres. Guedes já afirmou que no Brasil o pobre desmata florestas para matar a fome, já reclamou que pobre não sabe poupar, já chamou funcionário público de “parasita” já e elogiou a alta do dólar porque antes até a empregada doméstica ia para a Disney.

Durante um tempo, Guedes foi apontado como um dos órgãos vitais para o funcionamento do governo Bolsonaro -- o outro seria Sergio Moro, fiador da aliança com os apoiadores da Lava Jato (na prática, são nomes como Tarcísio Gomes de Freitas, da Infraestrutura, e Tereza Cristina, da Agricultura, os ministros que dão menos dor de cabeça ao presidente).

Hoje, Guedes parece mais convertido ao bolsonarismo do que Bolsonaro à cartilha de Paulo Guedes. E isso pode não ser bom para nenhum dos dois — o mercado, afinal, precisa de um grau de previsibilidade para operar, e não dá para passar a vida segurando a respiração a cada nova agressão desnecessária promovida pelo ministro.

As declarações recentes, e a ausência de números mais vigorosos para entregar ao fim do primeiro ano de governo, parecem ter mudado o status do superministro. Bolsonaro já disse que o aliado, que recentemente teve de pedir desculpas pela declaração sobre as empregadas, tem problemas pontuais.

Publicamente, diz que o economista fica com ele até o último dia de governo.

Mas nos bastidores, segundo a “Folha”, Guedes foi cobrado a entregar ao fim do ano um crescimento de no mínimo 2%. O que parece um voto de confiança pode ser lido também como a perda dela.

Guedes pode ficar, mas cada vez menos “incriticável”, e com uma carta branca com data e hora para ser devolvida. Seguirá intocável até lá?