Guedes tinha razão para celebrar dólar a R$ 5 com 'muita besteira'

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Brazil's President Jair Bolsonaro looks on near Brazil's Economy Minister Paulo Guedes during an inauguration ceremony of the new Brazilian National Development Bank (BNDES) President at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil July 16, 2019. REUTERS/Adriano Machado     TPX IMAGES OF THE DAY
Paulo Guedes e Jair Bolsonaro durante cerimônia em Brasília. Foto: Adriano Machado/Reuters

Paulo Guedes afirmou, no início da pandemia, que se fizesse “muita besteira” à frente do Ministério da Economia, o dólar poderia passar dos R$ 5 no futuro próximo. Um ano e meio se passou, e a cotação nesta segunda-feira 4 era de R$ 5,437.

Pouco antes, o superministro de Jair Bolsonaro havia festejado a tendência de alta da moeda americana. Com o câmbio dos governos anteriores a R$ 1,80, “todo mundo ia para a Disneylândia”. Até a empregada. “Uma festa danada”, classificou o ministro, antes de desenhar um roteiro de passeios turísticos domésticos pelo país.

Paulo Guedes tentava convencer os brasileiros de que dólar alto era “bom para todo mundo”. Todo mundo quem?

À época, pouca gente sabia que o titular da Economia era titular também de uma conta offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. A conta possuía US$ 9,55 milhões em setembro de 2014, o equivalente a R$ 23 milhões. Graças a “muita besteira” de seu ministério, com o câmbio atual o valor corresponde hoje a R$ 51 milhões.

Embora não seja ilegal manter dinheiro em paraísos fiscais, desde que declarado ao Banco Central e à Receita Federal, quando ela envolve integrantes do alto escalão do governo a situação muda de figura. A existência dessa conta, revelada pelos repórteres Allan de Abreu e Ana Clara Costa, da revista “piauí”, tem tudo para se tornar uma grande fonte de estresse para o governo federal.

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Em seu perfil no Twitter, o líder da oposição na Câmara, deputado Alessandro Molon (PSB-RJ), informou que deu entrada em uma representação ao Ministério Público contra Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto —que também detém uma conta em paraíso fiscal, segundo as revelações da Pandora Papers, como foi batizado o consórcio de investigação jornalística.

Segundo Molon, “é ilegal de que funcionários públicos de alto escalão, com acesso a informações privilegiadas, mantenham offshores em paraíso fiscal”.

Guedes, que antes de assumir o ministério atuava e fez fortuna no mercado financeiro, poderia escapar do constrangimento se a informação tivesse vindo à tona antes, quando foi apontado como fiador da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018. Bastava dizer que não tinha intenção de movimentar as contas enquanto estivesse no posto. O conflito ao menos estaria escancarado antes de o eleitor tomar a sua decisão.

O resto do trabalho ficaria com o câmbio — e mesmo para o padrão bolsonarista seria impensável imaginar que a turma ferraria todo o andar de baixo com o dólar a R$ 5, pressionando a inflação, enquanto o titular da Economia via seu patrimônio se multiplicar sem sair do lugar.

Mas ao menos um ponto joga suspeita de atuação em causa própria do ministro: a remoção da proposta de taxar anualmente recursos em paraísos fiscais no projeto de reforma do Imposto de Renda. Embora tenha partido do próprio governo, a ideia caiu em julho após uma conversa entre Guedes e o relator, Celso Sabino (PSDB-PA).

Ainda no tempo da campanha, Guedes foi apontado como o Posto Ipiranga do futuro governo Bolsonaro, que admitia saber muito pouco ou quase nada de economia. A cada dia que passa o Posto Ipiranga parece ser apenas o homem errado na hora errada.

Ele seria mais um dos muitos integrantes da elite brasileira a manter seus lucros em dólar longe dos conterrâneos não fosse ele o responsável pela política econômica.

Nos protestos miados do fim de semana, marcados pela ausência de Luiz Inácio Lula da Silva, a quem o impeachment —a única pauta que parecia unir os militantes Brasil afora —não interessa, uma tentativa de associar o governo ao preço exorbitante de itens básicos de sobrevivência, como o botijão de gás, representada como um boneco gigante, foi ensaiada e ganhou tração nas redes.

As revelações da Pandora Papers chegaram com dois dias de atraso. Caso contrário, certamente o boneco do ministro que lucra com a própria besteira seria uma das atrações principais.

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