Paulo Gustavo diz que hoje ‘apagaria’ cenas que fez no passado: ‘Fui preconceituoso’

Naiara Andrade
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A mãe destemperada, a socialite preconceituosa, a garota sexualmente liberal, a mulher que não segue o padrão de beleza, o playboy pegador, o sujeito que vive criando situações constrangedoras, a fumante sincerona, a famosa deslumbrada... Poderiam ser conhecidos seus, mas (também) são os personagens que Paulo Gustavo incorpora no “220 volts especial de fim de ano’’. Badalada no Multishow há anos, a atração chega à Globo e será exibida hoje, logo após “Roberto Carlos — Emoções em Jerusalém”. Dia 26, faz o caminho oposto e vai ao ar no canal por assinatura.

— O “220 volts” foi meu primeiro trabalho na TV, comigo escrevendo e atuando. Cheguei ao Multishow com uma pastinha debaixo do braço para apresentar o projeto, o canal comprou a ideia e virou um megassucesso — lembra Paulo Gustavo, que selecionou os personagens mais queridos por ele e pelo público para estarem nesse especial: Dona Hermínia, Senhora dos Absurdos, Bianca, Mulher Feia, Playboy, Sem Noção, Maria Enfisema e Famosa.

Inédito, o programa foi gravado em meio à pandemia da Covid-19, mas seguindo os protocolos de segurança.

— A gente ficou com medo de gravar. Tirando os atores, que entravam no estúdio caracterizados e sem máscara, parece que você está numa sala de cirurgia, todo mundo paramentado. Mas foi muito divertido. Como eu não sou da Globo, não conhecia a equipe. E me deixou orgulhoso e envaidecido perceber que todos estavam empolgados em trabalhar num produto que já curtiam. A energia da gravação foi o máximo!

O humor escrachado, ele garante, não foi filtrado ao chegar à TV aberta. Se houve censura, partiu dele próprio.

— Quando estou trabalhando no roteiro, já fico pensando: “Será que isso vai ofender alguém?”. Principalmente, nesta era do cancelamento. A galera da internet é raivosa, não está a fim de debater e aprender, só quer brigar. Eu fico muito atento, nem escrevo. E já aconteceu de eu escrever, gravar e pedir para tirar depois, como uma cena deste especial, em que achei uma fala do Playboy agressiva — revela o artista, afirmando que amadureceu: — Coisas que eu fazia no passado no “220 volts” não cabem mais hoje em dia. Houve um ganho de consciência, não tem mais graça. No humor, tem coisas que eu realmente gostaria de apagar para sempre. Seria uma forma de me desculpar, porque inevitavelmente fui preconceituoso numa piada ou outra.

Personagem de maior sucesso da carreira de Paulo Gustavo, Dona Hermínia surgiu no teatro, foi para a TV por assinatura, protagonizou dois filmes e, em 2021, vai estrelar um seriado na Globo.

— “Minha mãe é uma peça” terá 20 episódios, já gravados — adianta o ator, que se inspirou na própria mãe, Déa Lúcia, para a criação da dona de casa hilária, que ganhou vida própria: — Meu empresário já recebeu ligação para orçar campanha publicitária e não queriam Paulo Gustavo, e sim Dona Hermínia: “Tem como ligar pra ela?”. No camarim, quando eu boto a peruca, o vestido e o sapato, isso mexe comigo. São peças sagradas. Essa personagem mudou a minha vida para sempre.

Paulo Gustavo consegue transformar as situações mais complicadas em piada.

— Não é que eu nunca fique triste, mas é difícil. Não sei se é um dom meu, mas exercito transformar tristeza em gargalhada — diz ele, que, no entanto, se abalou durante este 2020: — Eu não podia ligar a TV, que chorava. Muita gente normalizou essas perdas todas pela Covid, não tem como!

Além de poder curtir os filhos Gael e Romeu, de 1 ano e 3 meses, de pertinho, Paulo conta que, por fazer análise há 15 anos, tem estado muito bem-resolvido consigo mesmo: — Não teve crise. Consegui ficar sozinho, olhar para o teto, escutar música... No início da carreira, a gente fica numa excitação de trabalho, trabalho, quer abraçar o mundo. Eu achava que não conseguiria sair de cena por três meses. Foi um ano todo! Então, dá.