Paulo Vilhena revela gatilhos ao assistir a 'Império': 'É difícil para mim lidar com essas lembranças'

Naiara Andrade
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"A gente saía de casa com a certeza de que tinha ali uma obra de arte a ser feita", lembra Paulo Vilhena. O ator não se refere às telas pintadas por Domingos Salvador, seu personagem esquizofrênico em “Império”, e sim às cenas da novela das nove gravadas com atuação e sob enquadramentos fora do convencional.

— Por Salvador estar envolvido com artes plásticas, eu e os diretores fomos criando uma metalinguagem para contar essa história: posicionamentos de câmeras, olhares marcantes... A experiência foi tão forte, que lido com as sequelas dessa entrega até hoje — conta Vilhena.

Ao assistir à edição especial da novela de Aguinaldo Silva no horário nobre da Globo, o artista conta que “gatilhos foram ativados” em seu subconsciente.

— Os trejeitos de Salvador, as cenas mais difíceis, como o assassinato da namorada dele... Essa gravação, especialmente, foi muito intensa. Teve até uma questão de não poder ir ao ar por completo porque a gente construiu, de fato, uma situação muito violenta, com requintes de crueldade. Salvador começa a ouvir as vozes que o impulsionam a assassinar a parceira com uma faca. É difícil para mim lidar com essas lembranças, me trazem uma memória física e psicológica bem dura (ele se emociona).

O paulista, de 42 anos, diz que acabou herdando um tique do personagem que interpretou entre 2014 e 2015:

— Os movimentos repetitivos ficaram comigo durante um tempão. E, dependendo da situação em que estou, voltam com tudo. Se fico nervoso, me pego piscando bastante os olhos, como ele fazia.

O penteado moicano exibido na trama, Vilhena conta que foi uma sugestão dele mesmo, junto à equipe de caracterização da novela.

— Eu quis expor a cicatriz que tenho na cabeça, resultante de uma cirurgia de implante capilar. Nunca tinha mostrado essa minha marca, nem a colocado numa função artística. Curioso é que ela está justamente na cabeça, onde a patologia do personagem se instala — comenta: — Foi uma maneira de atribuir um visual mais dramático a ele, que também ostentava um bigode, numa homenagem a seu xará famoso, o pintor Salvador Dalí.

Um dos papéis mais desafiadores e difíceis de sua trajetória profissional, segundo o próprio Paulo Vilhena, Domingos Salvador lhe exigiu um mergulho profundo no mundo da esquizofrenia:

— Eu precisei estudar para entender essa patologia desconhecida por mim e por tantos. É de uma complexidade enorme, tem vários níveis e manifestações.

No laboratório para a novela, o ator conviveu com internos do Instituto Municipal Nise da Silveira, localizado no Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio, para entender como se comportavam:

— Foi intenso e essencial esse processo de observação dentro do hospital. Eu me encantei. Esquizofrênicos têm um nível muito além de sensibilidade, momentos de carinho e rompantes de raiva. Mas são pessoas muito puras, genuínas, apesar da doença.

O ator compreendeu que, além da carga dramática do papel, ele promoveria um importante debate social.

— Foi uma responsabilidade e tanto! Eu tinha um cuidado muito grande por entender que se tratava de uma questão de saúde pública — afirma Vilhena, que recebeu resposta imediata do público diretamente ligado ao tema: — Ao longo da novela, inúmeras pessoas vieram falar comigo de uma forma até envergonhada por ter parentes na mesma situação. Esse feedback das ruas, muito positivo, eu guardo com carinho.