Pauta de costumes e gênero motiva 'guerra' e incendeia discussões na Câmara de SP

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um conjunto de ativistas vestidas de aias, personagem da série "The Handmaid's Tale", uma distopia sobre um país tomado pelo ultraconservadorismo, protesta na frente da Câmara Municipal de São Paulo contra um projeto que sugere abstinência sexual a adolescentes.

Do lado de dentro da Casa, vereadores conservadores acusam esquerdistas de tentarem acabar com a família e ensinar modalidades sexuais a crianças.

No dia a dia da Câmara, a polarização e as discussões sobre costumes e gênero têm ficado cada vez mais inflamadas. Tudo isso é amplificado nas redes sociais, garantindo engajamento da militância independentemente do resultado dos pleitos.

Enquanto esquerdistas e direitistas acusam uns aos outros de radicalismo, alguns vereadores mais antigos veem esse tipo de debate como algo desvinculado das prioridades da cidade, em meio à pandemia e com projetos vitais para votação.

O clima começou a esquentar devido à renovação da Casa, com vereadores novatos do PSOL e outros com afinidades a ideias bolsonaristas.

Os embates começaram logo no início do ano, com o primeiro discurso da vereadora bolsonarista Sonaira Fernandes (Republicanos), afirmando que que há uma agenda que "pretende feminilizar o homem e masculinizar as mulheres". Erika Hilton (PSOL), vereadora transexual, se ofendeu e afirmou que se tratava de "ataque tão vexatório e desequilibrado".

Mas o tom subiu mesmo nas últimas semanas, com a tentativa de votação do Programa Escolhi Esperar, do vereador Rinaldi Digilio (PSL), que sugere abstinência sexual como método contraceptivo.

Até o momento, por falta de acordo, o projeto não foi a votação, mas tem pautado a Casa. O assunto chegou, inclusive, a invadir discussões de outros projetos não relacionados.

"Na Legislatura passada, eu estava na Câmara e sempre conseguia debater ideias e política. Com essa nova Legislatura, adentraram radicais da esquerda que não deixam nem sequer pautas importantes para a família", diz Digilio.

Para ele, o projeto não cita a abstinência sexual e foi "maculado" pelo radicalismo. "Se o PSOL quer guerra, vai ter guerra. Porque eu vou defender os meus valores, que foram plantados pelos meus pais, avós", disse.

A declaração de Digilio remonta à questão da chamada guerra cultural, parte do ideário de conservadores mundo afora, sobre disputa entre valores considerados tradicionais e progressistas.

Outros de autoria de Digilio também prometem gerar embates. Ele já propôs projeto vetando discussões de gênero nas escolas e outro estabelecendo "o sexo biológico como um único critério definidor do gênero dos competidores em partidas esportivas oficiais".

A discussão sobre gênero se avolumou com a aprovação de um projeto do vereador Eduardo Suplicy (PT), de economia solidária.

Grupos conservadores passaram a pressionar o prefeito Ricardo Nunes (MDB) a vetar o projeto, acusando Suplicy de ter incluído um jabuti (item não relacionado ao tema do projeto) que liberaria a discussão de gênero nas escolas.

Digilio postou um vídeo, ao lado de Nunes, com outros vereadores religiosos, em que diz que o prefeito atendeu o pleito e que "ideologia de gênero não será ensinada nas escolas".

No vídeo, Nunes diz que os vereadores da bancada cristã ajudam e não "ficam lá na Câmara fazendo discurso para atrapalhar a cidade". "Nas escolas municipais, nós teremos o que tem que ser feito como está no plano de educação, que é ensinar as crianças a parte didática, pedagógica", disse Nunes, que, na Câmara, fazia parte do grupo que lutava contra a chamada ideologia de gênero.

Apesar do aceno positivo ao grupo, a declaração de Nunes não cita diretamente o projeto de Suplicy. Mesmo tendo um perfil mais conservador, o prefeito tem bom diálogo com petistas, que já votaram em favor de projetos importantes do governo neste ano.

Suplicy escreveu uma carta fazendo um apelo a Nunes a não cair nas fake news. "Não há qualquer autorização de ensino da ideologia de gênero nas escolas no projeto de lei Paul Singer", escreveu o vereador.

De acordo com a carta, a tese surgiu da descontextualização de dois artigos. Um deles, citando a economia solidária, prevê a "garantia de direitos e promoção dos direitos humanos nas relações, notadamente com equidade de direitos de gênero, geração, raça, etnia, orientação sexual e identidade de gênero". Outro artigo diz que a economia solidária deve ser tratadas nas escolas.

O vereador acabou envolvido em uma guerra que, segundo admitem os próprios vereadores conservadores, geralmente não inclui os petistas, que adotam uma postura mais pragmática e polarizam menos nas redes sociais.

A direita na Câmara deverá se mobilizar para barrar outros projetos, tendo como alvo principalmente os novatos do PSOL.

Um deles é da líder do partido na Casa, Luana Alves, que prevê a substituição de "monumentos, estátuas, placas e quaisquer homenagens que façam menções a escravocratas e higienistas". Os monumentos seriam trocados por personalidades históricas negras e indígenas.

Para Luana, a chegada de pessoas negras e LGBT à Câmara coloca medo nos conservadores. "Existem uns grupos fundamentalistas que estão tentando radicalizar. Em especial porque pessoas negras, LGBT, entraram via voto. Isso coloca medo. Coloca necessidade de grupos religiosos se colocarem", disse. "A gente está vendo que esses grupos estão ganhando muita força aqui, imagino, por conta do novo prefeito."

Ela diz que até coisas que consideraria senso comum, como os relacionados a violência contra mulher, encontram resistência. O plano, diz ela, é barrar projetos que sigam "contra os interesses das mulheres, da juventude periférica", entre outros grupos.

Um dos vereadores que foi contrário ao projeto relacionado aos monumentos é Rubinho Nunes (PSL), ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre), um tradicional antagonista do PSOL. "Não tem como olhar com os olhos de 2021 para o que aconteceu nos anos de 1880", diz.

"O próprio Palácio Anchieta, sede da Câmara, teria que ser renomeado e ou destruído", diz ele, para quem placas explicativas resolveriam a questão.

Rubinho afirma também que há outras prioridades na cidade neste momento. "Isso trata de uma distopia de prioridades, tem o PL das antenas, operações urbanas... Infelizmente insistem em votar pautas ideológicas, impor a agenda esquerdista na cidade de São Paulo."

O argumento de que esse tipo de debate tira o foco de questões consideradas mais urgentes encontra eco entre vereadores mais antigos na Casa. Um dos veteranos da Câmara, Adilson Amadeu (DEM), com base formada pelos taxistas, sente um certo desgaste.

"Nada contra qualquer vereador. Mas nós temos uma cidade com tanta coisa mais importante para discutir, na área da saúde, educação, que está faltando tanta coisa para as crianças, 32 mil pessoas na rua, sem condições de sobrevivência, sem moradia", diz.

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