A paz de Tom Cruise e o tormento de Brad Pitt na criação de 'Entrevista com o vampiro'

Ed Power / The Independent

Era um novembro sombrio em Londres e Brad Pitt estava cansado de ficar de cabeça para baixo. Ele então telefonou para o amigo, e patrão, David Geffen. Qual seria o preço para deixar esse compromisso de lado e pegar o próximo voo para casa? Geffen sorriu e respondeu: “Quarenta milhões”. O valor incluía o inevitável processo que viria caso ele abandonasse o papel. Pitt resmungou, e ficou.

“Entrevista com o Vampiro”, orçado em US$ 60 milhões, era uma das maiores produções da carreira do galã de 30 anos até então. No entanto, a adaptação de Neil Jordan para o sangrento best-seller de Anne Rice, que completa 25 anos nesta semana, foi mais desafiadora do que o ator poderia suspeitar. Pela primeira e última vez em sua carreira, ele estava prestes a desistir.

O tormento de Brad Pitt

Rice e Jordan haviam colaborado no roteiro e estavam determinados a fazer justiça à história de um vampiro sombrio (Pitt) desabafando com um repórter curioso (Christian Slater, substituto de última hora do falecido River Phoenix). E sim, é verdade: para garantir que Pitt e seu colega de elenco, Tom Cruise, parecessem repousar em caixões, eles eram obrigados a ficar de cabeça para baixo por 30 minutos a cada cena.

E esse não era o único problema. Como os vampiros não conseguem suportar a luz do sol, todas as filmagens aconteceram à noite. Enquanto a produção estava em Nova Orleans, tudo bem: o tristonho Brad percorria o Bairro Francês durante o dia em sua moto, absorvendo os raios pantanosos da Louisiana. Mas então veio o inverno em Londres.

“Seis meses no escuro”, lamentou o ator em entrevista à “Entertainment Weekly” na época. “Chegamos em Londres, e a cidade estava absurdamente sombria, morta de inverno. Filmamos no Pinewood (estúdio), que é uma instituição antiga, de todos os filmes de James Bond. Não havia janelas. Nenhuma reforma tinha sido feita em décadas. Você saía para trabalhar no escuro, entrava nesse caldeirão, esse mausoléu, e saía no escuro. Um dia isso me quebrou. Eu pensava ‘A vida é muito curta para isso’.”

A paz de Tom Cruise

Mas, enquanto Pitt se desesperava, para Tom Cruise tudo parecia ótimo. O maior astro de cinema do mundo ficou encantado ao perceber que filmar “Entrevista com o Vampiro” seria mais simples do que toda a histeria em torno da produção sugeria. É fácil esquecer o tamanho do fenômeno que foram os romances de Anne Rice nos anos 1980 e 1990. Ela era uma espécie de J.K. Rowling hiperssexual. Lestat tinha um papel coadjuvante no filme, mas era a verdadeira estrela daquele universo: um monstro europeu ao molde do ator holandês Rutger Hauer. E ninguém imaginava Tom Cruise como um degenerado da Riviera. Por isso, muitos fãs ficaram indignados quando o garotão americano foi escolhido para o papel.

A reação foi comandada pela própria Anne Rice, que se distanciou publicamente de Cruise nos meses antes das filmagens. Ela já havia se decepcionado com a negativa de Daniel Day-Lewis, sua primeira escolha para o papel (ele teria recusado por estar cansado de dramas de época). Mas o verdadeiro insulto foi a recusa do estúdio em procurar Jeremy Irons, substituído pelo astro de “Top Gun” e “Cocktail”.

Day-Lewis não foi o único a educamente descarta o filme. Ridley Scott e David Cronenberg foram abordados para o cargo de diretor, mas recusaram. Assim Geffen bateu à porta da terceira opção, Neil Jordan, cujo domínio da fluidez sexual em “Traídos pelo desejo” foi visto como a qualificação perfeita para retratar os vampiros de Rice.

Tudo isso foi relatado com fôlego pela imprensa, levando a muitos rumores de que o filme não daria certo. Então, quando Tom Cruise e Brad Pitt chegaram a Londres, o primeiro estava feliz por simplesmente estar trabalhando. No isolamento de Pinewood, ele não precisava mais lidar com os fãs que exigiam sua substituição. A reação negativa a sua escalação como Lestat foi um choque, como ele admitiu abertamente na época.

“Quando as críticas vieram, eu fiquei realmente magoado, para ser sincero”, disse à “Esquire”. “O veneno dela (Anne Rice) doeu ... Não é normal começar um um filme com alguém querendo que você não faça.”

David Geffen, que há anos tentava adaptar o livro para o cinema, liderou a contra-ofensiva: “Anne é uma mulher difícil, na melhor das hipóteses, e seus motivos permanecem um pouco obscuros para mim”, disse na época. “Mas ela atacar esse filme por ego, tendo recebido US$ 2 milhões (em direitos) e com a chance de ganhar muito mais com a venda dos livros, é puro capricho. Falta bondade. Falta discrição. E falta profissionalismo.”

Em defesa de Rice, a escalação de Tom Cruise para interpretar um vampiro europeu decadente foi considerada na época um dos equívocos do século. O tempo provou que todos nós estávamos errados.

“Entrevista com o Vampiro” tem um vigor indiscutível, em grande parte graças ao desempenho selvagem de Tom Cruise. Anne Rice reconheceu seu erro assim que viu Lestat na tela. E a escolha dos atores se provou acertada em outro aspecto.

O vampirismo costuma servir como metáfora para todo tipo de paixões proibidas, e no livro a autora apostou alto nesse subtexto. Mas ela também é uma mulher de negócios. Os direitos do romance foram comprados antes da publicação, mas ele levou década para chegar às telas. Ela suspeitava que o toque erótico da relação entre Lestat e Louis afastasse os produtores. Então, sugeriu mudar o gênero de um ou dos dois personagens. Cher e Anjelica Houston eram suas sugestões para o papel de Louis. Quando Geffen pediu que escrevesse o roteiro, ela decidiu dar uma esposa a Louis, para deixar clara sua heterossexualidade. As mudanças, no entanto, foram mal recebidas. Geffen e Jordan queriam ser mais fiéis ao romance, não menos. No final, Jordan reescreveu o roteiro de Rice, recolocando trechos do livro —especialmente, como o próprio disse, “a menininha, o sangue e o sexo”.

Ele não foi o único a entender, ainda mais do que a autora, onde estava o apelo de “Entrevista com o Vampiro”. Cruise compreendeu que, embora Lestat fosse sob muitos aspectos o vilão (diferentemente de Louis, cheio de culpa, ele matava sem piedade), o personagem não percebia suas ações nesses termos. Questionado sobre a sensação de interpretar um vilão pela primeira vez, Cruise discordava. Lestat se considerava o herói — salvador de Louis e protetor de sua “filha” Claudia (primeiro papel de Kirsten Dunst no cinema).

“Eu usei o livro como referência”, justifica. “Você tem que ler com muito cuidado para encontrar as pistas de quem Lestat é na verdade... sua solidão e sua luta pessoal. Ele reconhece que Louis é um ser único e dá a ele a escolha: é algo que me bateu muito fortemente. Ele realmente pergunta: ‘Você ainda quer morrer ...?’”

Fora da considerável base de fãs de Rice, ninguém sabia o que fazer com “Entrevista com o Vampiro” quando ele chegou aos cinemas em 11 de novembro de 1994 (no Brasil, 15 de dezembro). A era das franquias ainda estava a décadas de distância. O filme foi recebido como um objeto estranho, ainda que suntuoso, estrelado pelos dois maiores atores jovens de Hollywood.

Ainda assim, a reação no geral foi positiva. Era esquisito, mas esquisito do jeito certo. Rice também adorou. "Tive sorte de ter Neil Jordan, e o filme foi incrivelmente fiel ao livro."

A bilheteria também foi boa: US$ 224 milhões em todo o mundo, para um orçamento de US$ 60 milhões. Ainda assim, a percepção era de que todos os envolvidos desprezavam a obra. Brad Pitt logo fugiu de Londres para fazer “Seven”, com David Fincher. Tom Cruise buscou a reinvenção como um herói de ação em “Missão: Impossível”. Por um acordo tácito, nenhum dos dois voltou a mencionar o filme.

E, no entanto, um quarto de século depois, ele brilha nos dois currículos, como um prenúncio fantasmagórico da mania dos super-heróis. Aqui estão dois dos grandes ídolos da época se entregando totalmente, sem ironia, a um conto sobre esquisitos encapuzados que desafiam as leis do universo. Eles deveriam ter mais orgulho disso.