PCC ordenou morte de delegado-geral e outros dois policiais civis

Marcola, apontado como líder máximo do PCC, durante depoimento em 2017 | Foto: reprodução

Por Josmar Jozino

A facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) planejou matar o delegado-geral da Polícia Civil, Ruy Ferraz Fontes, um investigador de São Bernardo do Campo e outro do Deic (Departamento de Investigações Criminais).

O plano foi descoberto por policiais do próprio Deic durante investigação de uma célula do PCC chamada Bonde dos 14, sediada em Cidade Tiradentes, na zona leste da cidade de São Paulo.

Leia a íntegra da denúncia do Ministério Público sobre o Bonde dos 14

Nos anos de 2001 e 2002, os delegados Ruy Ferraz Fontes e Alberto Pereira Matheus Junior, à época na Delegacia de Repressão a Roubo a Bancos, do Deic, foram os primeiros a investigar e a indiciar por formação de quadrilha os fundadores e principais líderes do PCC. Por causa da investigação, a liderança da facção criminosa foi transferida para a “tranca-dura” do RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), no CRP (Centro de Readaptação Penitenciária) de Presidente Bernardes. Desde então, Fontes passou a ser inimigo declarado do PCC.

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As ameaças de morte e os detalhes da ação estavam anotados em um caderno apreendido com Sandro de Cássio Souza, 40 anos, conhecido como Carioca e Gardenal. Ele foi preso em 12 de junho deste ano, em companhia de Alexandre Souza Franco, 33 anos, no Itaim Paulista, também na zona leste. Com a dupla foram apreendidos ainda um revólver calibre 38, drogas, R$ 1.100,00 e outros cadernos contendo planilhas e contabilidade do crime organizado.

Segundo a Polícia Civil, Sandro era uma espécie de “auditor” da célula Bonde dos 14 e fiscalizava os 36 pontos de venda de drogas do PCC na região leste de São Paulo. Os documentos encontrados com os criminosos indicam que o Bonde dos 14 faturava a média mensal de R$ 3 milhões apenas com o tráfico de drogas.

Policiais do Deic apuraram que a ordem para matar Ruy Ferraz Fontes e os outros dois investigadores partiu de Décio Gouveia Luiz, o Décio Português. Apontado pela Polícia Civil como homem de confiança de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o líder máximo do PCC, Décio Português foi preso em 14 de agosto deste ano, em uma luxuosa mansão em Arraial do Cabo, Búzios, no Rio de Janeiro.

Braço direito de Décio, Nailton Vasconcelos Martins, o Molejão, organizou uma reunião com as lideranças do Bonde dos 14, na Cidade Tiradentes, em 10 de março deste ano.

Na ocasião, policiais do Deic monitoravam os criminosos, mas acabaram descobertos e foram recebidos a tiros por Cleberson Paulo dos Santos, o Irmão Mimo. Os investigadores escaparam ilesos. Irmão Mimo acabou preso em julho deste ano.

As investigações continuaram e os policiais do Deic chegaram a filmar integrantes do Bonde dos 14 durante um jogo de futebol entre as equipes Sedex, de Cidade Tiradentes, e Ratatá, da Favela Heliópolis, zona sul.

A Polícia Civil afirma que o nome do time da zona leste é uma homenagem a Guilherme Augusto Novaes, conhecido como Sedex, e apontado como o responsável pela arrecadação e contabilidade final dos pontos de drogas na zona leste.

O Deic apurou, ainda, que Nailton era quem arregimentava os “soldados” do PCC para pôr em prática os ataques contra os três policiais civis jurados de morte pela facção.

As anotações apreendidas com Sandro trazem uma séria advertência aos “soldados” do PCC escolhidos por Nailton: “Quem não cumprir a missão [de matar os policiais civis] pagará à altura com a própria vida”.

Irmão Mimo e os parceiros Fernando Henrique dos Santos, o Koringa; Jhonatan Alexandre Rodrigues, o Barata; Alan Donizete dos Santos, o Tererê; e Marcos Ferreira de Souza, o Corintiano, receberam do PCC a missão de matar o delegado-geral.

A Polícia Civil garante que a célula Bonde dos 14 é subordinada à cúpula máxima do PCC. Os chefões da facção foram transferidos para presídios federais em fevereiro deste ano.

A liderança principal do Bonde dos 1” era exercida por Décio Português, transferido em 28 de agosto para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, no oeste paulista, unidade onde estão recolhidas as demais lideranças da organização criminosa.

Em 30 de agosto deste ano, o Ministério Público do Estado de São Paulo indiciou os integrantes da célula Bonde dos 14 por associação ao tráfico de drogas e associação à organização criminosa. Na lista dos denunciados estão Décio Português, Nailton, Sandro, Irmão Mimo, Sedex, Koringa, Barata, Tererê, Corintiano, entre outros.

‘Big brother’

A transferência da cúpula do PCC para o CRP de Presidente Bernardes, fruto das investigações feitas pelos delegados Ruy Ferraz Fontes e Alberto Pereira Matheus Junior em 2001 e 2002, foi considerada na época um golpe para o PCC. A unidade prisional ficou conhecida como “Big Brother” por causa do sofisticado sistema de câmeras de vigilância. Foi inaugurada em 2 de abril de 2002, na gestão do então secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, com a finalidade de abrigar líderes de facções criminosas.

Naquele ano foram transferidos para o CRP os presos José Márcio Felício, o Geleião, e César Augusto Roriz Silva, o Cesinha, fundadores do PCC, mas expulsos do grupo sob as acusações de traição.

Também foram transferidos à época Marcola, atual líder máximo, Júlio César Guedes de Moraes, o Junho Carambola, número 2 do PCC, Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, condenado a mais de 800 anos, entre outros homens da cúpula da facção.

No RDD, o preso fica isolado em cela individual 22 horas, todos os dias, e só tem direito a banho de sol de duas horas diárias.Não há visita íntima. Parentes e detentos ficam separados por um vidro blindado no parlatório. Os presos também não têm direito a assistir televisão nem a ouvir rádio ou ler jornais e revistas.

Mesmo assim, a tranca-dura não impediu o CRP de Presidente Bernardes de se transformar num quartel-general do PCC, de onde partiam as principais orientações da organização criminosa para os seus membros em todo o país, situação que durou até o início deste ano, com a transferência da cúpula para presídios federais.

A descoberta do plano para matar os três policiais, contudo, revela que os líderes do PCC continuam a comandar a facção mesmo de dentro do sistema penitenciário federal.

Outro lado

A Ponte questionou, por e-mail, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo e o Ministério da Justiça sobre as ameaças da facção. Quando houver resposta, publicaremos seu posicionamento.