PDT e Martha Rocha confirmam neutralidade no segundo turno no Rio

Alice Cravo
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Pedro Teixeira / Agência O Globo
Pedro Teixeira / Agência O Globo

RIO — No dia seguinte ao resultado do primeiro turno na disputa pela prefeitura do Rio, o PDT anunciou, ao lado da candidata da sigla Martha Rocha, que não dará apoio às candidaturas de Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos), que chegaram no segundo turno em primeiro e segundo lugar, respectivamente. O partido também não deixará que nenhum militante use a sigla para apoiar uma das candidaturas e não dará autorização para negociações de cargo na próxima gestão.

— Vou propor ao partido que a gente não apoie ninguém. O partido não deixará que nenhum militante seu use a sigla, bandeira, história do partido para apoiar qualquer candidatura. Ninguém do PDT pode negociar cargo e terá autorização do partido para qualquer cargo. Quem o fizer, fará por conta própria a escolha do caminho, porque o nosso caminho é estar ao lado da nossa causa. Reconhecemos o resultado e desejamos boa sorte pro povo brasileiro, para o carioca principalmente, que tenha lucidez no voto. Mas nenhum dos dois merecem que estejamos no palanque — anunciou Carlos Lupi, presidente nacional do PDT.

Martha Rocha também confirmou que "em hipótese alguma" fará campanha para algum candidato no segundo turno e que não se surpreende com a postura do seu partido. A candidata terminou em terceiro lugar, com 11,30% dos votos.

— Já havia antecipado para o Lupi ontem que em hipótese alguma eu estaria fazendo campanha para qualquer um dos dois candidatos. Em hipótese nenhuma me surpreende a postura do presidente Lupi, essa postura é o retrato do PDT. E eu em hipótese nenhuma irei fazer essa campanha.

Presidente estadual do PSB, partido que compôs a chapa de Martha de Rocha, Alessandro Molon afirmou que será “impossível” um apoio da legenda à candidatura de Marcelo Crivella. O deputado federal, no entanto, não antecipou uma provável decisão do legenda, mas que afirmou que a declaração não significava um apoio a Eduardo Paes.

— O PSB não se reuniu para decidir o que será feito sobre o segundo turno. Não vejo nenhuma possibilidade, hipótese, do partido apoiar o candidato do Bolsonaro. Isso é impossível. Não posso antecipar o que o partido vai decidir, mas o Crivella com certeza não apoiará. Isso não quer dizer uma decisão de apoio ao outro candidato — declarou Molon.

Nas eleições de 2018, após o resultado que a disputa do segundo turno presidencial seria entre os então candidatos do PT, Fernando Haddad, e o do PSL, Jair Bolsonaro, o presidenciável do PDT, Ciro Gomes, que terminou a corrida em terceiro lugar, manteve a neutralidade e viajou para Paris. A atitude foi fortemente criticada por aqueles que consideravam importante um movimento para evitar a eleição de Jair Bolsonaro.

No Rio, lideranças dos partidos de esquerda já sinalizaram um apoio ao candidato do DEM. Washington Quaquá, vice-presidente nacional do PT, ainda neste domingo, declarou que há uma "enorme probabilidade de apoiarmos Eduardo Paes". No Rio, o partido tem um histórico de proximidade com Paes, que chegou a convidar o petista Adilson Pires para compor sua chapa na aliança firmada em 2012.

O PSOL não deverá declarar apoio explícito ao ex-prefeito, mas poderá liberar filiados que queiram pedir votos para Paes, assim como no segundo turno de 2018, quando o ex-prefeito enfrentou Wilson Witzel (PSC) na disputa pelo governo estadual.

Pesquisa teria atrapalhado voto útil

A pesquisa Ibope divulgada na noite de sábado, véspera do pleito, é apontada como um dos principais fatores que contribuíram para a derrota de Martha Rocha. No levantamento, a candidata do PDT aparecia em quarto lugar, com 11% das intenções de voto, atrás de Benedita da Silva (PT), com 13%. A avaliação é que a pesquisa atrapalhou o movimento do "voto útil", que vinha sendo pregado pela campanha da pedetista na reta final da disputa.

— Durante toda a campanha Martha e Quack foram os únicos com chances reais de tirar Crivella do segundo turno. Todas as pesquisas mostraram isso o tempo inteiro. Exceto a última, uma pesquisa que se mostrou errada, e que infelizmente, nas últimas 24h, serviu para tirar muito voto útil que viria pra gente ou até reverter voto útil que já estava determinado a vir para Martha e Quack. Conheço muitas pessoas que disseram que na última hora mudaram o voto porque acreditaram que a pesquisa da véspera estava correta — declarou Molon — Essa pesquisa circulou muito e se tornou a única verdade. A pesquisa Datafolha, que mostrava o contrário, foi simplesmente esquecida aqui no Rio de Janeiro.

Martha Rocha foi na mesma linha:

— Eu não tenho dúvida que essa pesquisa errada sinalizou para algumas pessoas a desistência do voto útil. Ou a inversão do voto útil. Tenho convicção pelo número de mensagens que circulam na minha rede que eu só recebi aplausos pela nossa caminhada.

Martha também afirmou que teve uma vitória política e reafirmou que a sua candidatura era a mais viável para tirar o atual prefeito do segundo turno.

— Eu não tive a vitória eleitoral mas eu tive a vitória política. As urnas confirmaram que a nossa candidatura era a única capaz de tirar Marcelo Crivella.

Procurado, o Ibope ainda não se manifestou.

União da esquerda

O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, afirmou que uma união da esquerda não seria possível por uma resistência do PT em abrir mão de um projeto próprio, declarando que “a principal característica” da legenda “ é olhar para o próprio umbigo”. A discussão sobre a importância da união das siglas voltou a ocorrer após o resultado das urnas deste domingo, que apontou que juntas as candidaturas de Martha (11,30%) e Benedita (11,27%) poderiam numericamente ter tirado Marcelo Crivella (21,90%) do segundo turno.

— Eu parto sempre do princípio que união só existe quando duas partes querem. Se você encontrar algum território nacional, algum lugar em que o PT abra mão do seu projeto para apoiar o de um parceiro, de um aliado, é muito difícil pela característica que o PT tem de hegemonia, de achar que é sempre dono das verdades. A característica principal do PT é olhar para o próprio umbigo. Quando eles tiverem humildade, eu sempre estou disposto ao diálogo, fui visitar o Lula na prisão, saio e dou entrevista, Nada compromete a gente na nossa história. Mas eles precisam ter a humildade de reconhecer a candidatura que tem mais viabilidade, menor rejeição, mais chance de vitória, e nunca tiveram. Torço para ter um dia, mas até agora não assistimos.

Na reta final da disputa, embasada nos números das pesquisas, a campanha de Martha Rocha tentou concentrar o apoio da esquerda em um discurso de “voto útil” para superar o prefeito Marcelo Crivella. Apesar de um empate técnico com Benedita da Silva (PT), Martha aparecia numericamente à frente nas pesquisas divulgadas ao longo da campanha. No domingo, após a apuração dos resultados, eleitores do PT e do PDT trocaram uma série de acusações em busca de um culpado pela derrota das duas candidatas nas urnas.