Peça de teatro na rua traz guerrilha que usa natureza como arma

Gustavo Cunha
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Ao fim da sessão de “Amazona”, que a companhia Teatro Caminho reestreia hoje, o público é convocado a plantar sementes de abóbora em fendas no concreto da escadaria da Câmara dos Vereadores, no Centro do Rio. O elenco auxilia os espectadores com sacos de terra e regadores para que o solo, ironicamente da base política carioca, seja fertilizado. Há três anos, quando a peça ganhou temporada em outro local ali perto — nos arredores da Igreja da Candelária —, a cena rendeu frutos.

— Voltei lá, após algum tempo, e percebi que algumas mudas haviam crescido e resistido — conta o autor e diretor Ricardo Cabral.

Especialmente pensada para ocupar vias e espaços públicos, a montagem ganha novo fôlego neste período de pandemia em que espetáculos em salas fechadas ainda geram dúvida e receio para grande parcela da população.

Derivação de uma pesquisa vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ, “Amazona” conduz plateias — agora restritas a grupos de apenas oito pessoas — por ruas próximas à Cinelândia. Apesar de ser encenada em ambiente externo, a obra segue protocolos adequados aos tempos atuais: o uso da máscara é obrigatório entre atores e espectadores; o público tem a temperatura medida antes da sessão; e os ingressos só podem ser adquiridos mediante agendamento.

— A peça acabou se tornando um experimento sobre as possibilidades de se ocupar a rua com o teatro. Acho que quem trabalha com teatro de rua tem muito a oferecer neste momento — sugere Cabral, ressaltando que as sessões acontecem mesmo debaixo de d’água , e sempre com segurança. — É claro que, se chover torrencialmente, não rola. Mas normalmente distribuímos capas descartáveis. A rua é uma caixinha de surpresa, e lidamos com esse fato a todo instante. Nos ensaios que fizemos na última semana, alguns moradores de rua nos interrompiam para nos pedir máscaras. Tudo nos atravessa nesse espaço. Não há um momento em que as coisas se estabilizam, diferentemente do que acontece em salas convencionais.

Guerrilha feminina

A dramaturgia acompanha quatro mulheres que lideram uma espécie de vingança da natureza sobre a cidade — daí o plantio de sementes em qualquer nesga de terra por calçadas e pistas de asfalto. Em local informado durante a reserva dos ingressos, o público é recebido pelos atores Anna Clara Carvalho, Camila Costa, Chris Igreja, Marcéli Torquato e Victor Seixas como se fosse parte do tal grupo de guerrilheiras retratado em cena. Ao longo do espetáculo — que também é transmitido ao vivo no YouTube —, por meio de um percurso itinerante que passeia por locais como a Rua Senador Dantas e a Travessa dos Poetas de Calçada, desenrolam-se conflitos entre os personagens. A chegada de um homem que quer se juntar ao bando feminino é um dos pontapés para a trama.

Escrito por Cabral, o roteiro em ritmo de thriller é resultado de uma série de performances experimentais realizadas em lugares movimentados do Rio em 2018. À época, durante sete meses, atores do grupo Teatro Caminho se dedicaram a “aventuras estranhas” pela cidade, como eles mesmos dizem: Cabral regou, por alguns dias, canteiros na Praça Mauá e na Praça Tiradentes; outro artista cruzou a Avenida Rio Branco costurando à sua roupa o lixo que encontrava no chão.

— A ideia era pensar como construir um espetáculo junto com a rua, e não simplesmente colocar uma peça na rua — conta Cabral. — Quando eu regava os canteiros, ouvia muito das pessoas: “Mas por que você está fazendo isso? Não vai nascer nada daí”. E tudo isso se incorporou ao texto, que surgiu dessa interação.

Centro: Praça Floriano s/nº, Cinelândia, em local informado no momento da reserva do ingresso. Ter a sex, às 20h. Sáb e dom, às 18h e às 20h. Gratuito, mediante reservas pelo telefone (98091-4194). 70 minutos. Livre. Até 14 de fevereiro. As sessões são realizadas apenas oito espectadores, e também são .