PEC Kamikaze: Duas coisas que você precisa saber sobre a bomba fiscal

Todo ano eleitoral o brasileiro se acostuma a ver os arroubos de líderes que só pensam em reeleição. Mas nesse ano, com a PEC Kamikaze, o que vemos é o escárnio sendo elevado na décima potência. (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
Todo ano eleitoral o brasileiro se acostuma a ver os arroubos de líderes que só pensam em reeleição. Mas nesse ano, com a PEC Kamikaze, o que vemos é o escárnio sendo elevado na décima potência. (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

A primeira delas é que ela é um deboche do Congresso. Foi esse o recado do Senado para os brasileiros ontem (30) com a aprovação da PEC Kamikaze. Para quem tem político de estimação então...que soco no estômago.

Todo ano eleitoral o brasileiro se acostuma a ver os arroubos de líderes que só pensam em reeleição. Lula, num último ato derradeiro, em 2009, colocou em execução um pacote de bondades que incluía a revisão de valores de aposentadorias, reajuste no valor do Bolsa Família, além da coleta dos frutos do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida.

Mas nesse ano o que vemos é o escárnio sendo elevado na décima potência. O pior é que não é um último ato isolado do presidente. É um ato com apoio de todos os congressistas. Destaque-se que apenas o senador José Serra votou contra a medida populista que vai ocasionar a médio prazo alta do dólar, juros e pode até voltar com o aumento dos combustíveis.

Mas Serra foi voz isolada. E pensamento isolado. Ao ler a aprovação da proposta o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco disse: “parabéns pela demonstração de maturidade política na aprovação dessa matéria com medidas excepcionais mas extremamente necessárias”. Nem aí para o resto.

O Congresso é reflexo da nossa casa. Nós colocamos essas pessoas lá.

Votar nessa democracia é ruim? É.

Desanima? Desanima.

Somos o eterno país do futuro. As coisas nunca se ajeitam aqui. Somos o país onde ceder à coerção é a regra. Até a oposição votou com o governo favorecendo, em muito, o presidente Jair Bolsonaro. Faltou aos senadores coragem. Comprometeram, na noite de ontem, o futuro das contas públicas.

Essa votação é uma concepção vaidosa do poder onde os senadores fingem que acreditam que o voucher para os combustíveis resolverá os problemas, quando o que deveria ser feito é apresentar uma medida de política de preços que não deixe os caminhoneiros principalmente à mercê da oscilação do mercado internacional. Mas nesse ano só o que importa é a eleição.

Durante três meses você consegue respirar, consegue viver. E o parlamentar vai chegar dizendo na sua cidade: “olha como as coisas melhoraram, foi por causa da PEC que votamos”.

Depois disso? Depois a gente pensa.

Se Bolsonaro for reeleito ele segue flanando por mais quatro anos comprando o Congresso. Aliás, Arthur Lira está deixando esse caminho bem pavimentado. Se Lula voltar ao poder, no bom português, “bem feito”. Ele que lide com a bomba no colo dele. O importante não é governar. É vencer. Mas depois disso você vai sofrer. E o parlamentar estará em Brasília, bem distante do seu alcance.

Infelizmente os partidos políticos não constituem um significado capaz de operar lealdades. As lealdades nesse país precisam ser geradas a partir de outra matriz. As interações na política brasileira são impregnadas trocas estritamente personalizadas e baseadas em regras de reciprocidade. A medida eleitoreira vai liberar um dinheiro na mão de todos.

Eu gosto muito da nossa literatura. Ela não foi escrita à toa. Está impregnada de elementos das nossas raízes.

O Sergio Buarque de Hollanda, em Raízes do Brasil, ilustra muito bem a figura do ‘homem cordial’, apegado a vínculos afetivos, avesso aos procedimentos formais e anônimos do mercado capitalista e da burocracia moderna, buscando, no contato individual, na confiança e na fidelidade intransferíveis, a garantia para a obtenção de uma graça exclusiva, material ou simbólica.

Razão pela qual, num contexto aonde a frouxidão do sistema público de poder permite esses arroubos, essa moeda de troca de favores torna a política pessoal, clientelista.

O Brasil vai sofrer as consequências “como um cão”. Mas isso não importa. Importa eleger, reeleger e permanecer no poder. E, já ia me esquecendo...a segunda coisa que você precisa saber é: você pode não gostar de política mas vai ser governado por quem gosta. Se informe. Esse Congresso que está aí não pode ser o que você quer.

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