De Pedro a Neymar: Entenda o que os desfalques da França na Copa representariam na seleção brasileira

Pense em um cenário — hipotético, felizmente — no qual a seleção brasileira perdesse seu jogador mais experiente e renomado, um zagueiro de confiança do treinador, meio-campistas com relevância defensiva e na saída de jogo, e um atacante goleador em ascensão. O fato de que até os pentacampeões mundiais sentiriam o peso dessas circunstâncias indica o tamanho do problema que a França tem para resolver a partir desta terça-feira, quando estreia contra a Austrália, às 16h (horário de Brasília). Vista por muitos como o principal celeiro de talentos desta Copa do Mundo no Catar, a seleção francesa começa a defender seu título sem três titulares, além de reservas cruciais.

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A espinha dorsal construída ao longo de uma década pelo treinador Didier Deschamps, que se mostrou sólida no título do Mundial de 2018 na Rússia, terá um teste de fogo no Catar diante das ausências de nomes como o atacante Benzema, o volante Kanté e o zagueiro Kimpembe. Guardadas as proporções e as particularidades técnicas e táticas, seria como se o Brasil do técnico Tite se visse sem Neymar, Casemiro e Thiago Silva: todos titulares recorrentes que formaram a base da equipe ao longo do ciclo desta Copa.

Deschamps, que optou por não convocar um substituto para Benzema — cortado por lesão muscular no último sábado —, tem procurado sinalizar confiança na força de seu elenco:

— Com os jogadores que estão aqui, temos tudo o que precisamos. A ausência de Karim (Benzema) não mudará nada — disse o treinador, nesta segunda-feira, em entrevista coletiva. — O grupo tem jogadores mais experientes, outros menos. Não há apreensão alguma.

As respostas de Deschamps, em que pese o claro objetivo de serem reconfortantes, evidenciam uma série de questões levantadas pela imprensa francesa e de outros países sobre a capacidade da espinha remanescente de aguentar o peso dos desfalques sem quebrar.

O corte de Benzema, recém-premiado com a Bola de Ouro após uma temporada em que conquistou a Liga dos Campeões pelo Real Madrid, foi o mais recente, e talvez o mais simbólico, de uma sequência de baques. Benzema, titular na Copa de 2014 sob o comando de Deschamps, havia ficado fora do título de 2018 em meio a acusações de ter sido cúmplice de uma extorsão contra o ex-colega de seleção Mathieu Valbuena. Voltou à seleção no ano passado em sua melhor forma, mas se apresentou no início deste mês com dores na coxa esquerda e no joelho.

De todos os cortes franceses, o de Benzema foi o que mais se aproximou de repetir turbulências antes comuns na França. Segundo o jornal francês L’Équipe, o departamento médico da seleção questionou internamente a “transparência” do atacante sobre seu estado físico — ele vinha numa preparação à parte e se machucou em seu primeiro treino completo com os companheiros.

Dias antes, o atacante reserva Christopher Nkunku saiu machucado de um treino após uma dividida com o volante Camavinga. Nkunku, que só estreou pela França em 2022, teve um ano com 51 participações em gols em 58 jogos por clube e seleção, números que lhe haviam garantido um lugar na Copa, e despertava expectativas mais ou menos semelhantes à de Pedro na seleção brasileira, apesar de ser um jogador com características distintas, de maior mobilidade.

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Deschamps, que já vinha indicando mudanças para abandonar o esquema com três zagueiros dos últimos anos e retomar uma linha com quatro defensores, tende a escalar seu time com uma disposição semelhante à usada na Rússia. Além de Kanté, outro titular da dupla de volantes na ocasião, o mais ofensivo Paul Pogba se lesionou antes da convocação. Em seus lugares, Deschamps deve lançar Tchouameni, revelação de 22 anos do Real Madrid, e Rabiot, de 27, que recebeu uma segunda chance após atritos com o treinador em 2018. Na zaga, sem Kimpembe, a França deve estrear sem outro titular, Varane, recém-recuperado de problemas físicos e que, por isso, pode iniciar a Copa no banco.

Com a volta de Giroud, titular contestado na conquista de 2018, no lugar do lesionado Benzema, Deschamps deve escalar um trio ofensivo com mobilidade à sua volta, repetindo duas peças-chave da última Copa: Griezmann, menos agudo no ataque, mas ainda eficiente na seleção, e Kylian Mbappé. O camisa 10 da seleção, que estourou em 2018 como um prodígio sem muita pressão, agora é visto como o nome para chamar a responsabilidade.

— (Mbappé) Cumpriu todas as esperanças depositadas nele nos últimos anos. É difícil definir seus limites. Ele será fundamental para o desempenho do time — afirmou, na véspera da estreia contra a Austrália, o goleiro e capitão Lloris.

O caso de Mbappé, novamente guardando-se as devidas proporções, permite outro paralelo com o Brasil, último bicampeão em Copas, em 1958 e 1962. O segundo título foi um degrau na consagração de Pelé — embora o Rei tenha se machucado no segundo jogo —, à época com 21 anos, e que depois disputaria as Copas de 1966 e de 1970, nesta última como estrela do tri. Mbappé, hoje com 23 anos, tornou-se em 2018 o segundo mais jovem da história a marcar numa final de Copa, atrás de Pelé.

Em 1962, com Garrincha, Didi e companhia, a seleção brasileira mostrou que nem o desfalque do maior jogador de todos os tempos poderia pará-la. A França de 2022 testará se está ou não em outro patamar em Copas.

Ficha do jogo

França: Lloris, Pavard, Konaté, Upamecano e Lucas Hernandez; Tchouameni, Rabiot, Dembélé, Griezmann e Mbappé; Giroud.

Austrália: Ryan, Atkinson, Souttar, Rowles e Behich; Mooy, Irvine, Leckie, Hrustic e Mabil; MacLaren (Cummings).

Local: Estádio Al Janoub (Al Wakrah). Horário: 16h (de Brasília). Árbitro: Victor Gomes (AFS). Transmissão: TV Globo, SporTV, Globoplay, Fifa+ e Twitch (@casimito)