Pedro Sánchez caminha para reeleição no Congresso espanhol

O presidente do governo espanhol em exercício, Pedro Sánchez, cumprimenta o líder do Podemos, Pablo Iglesias, em 30 de dezembro de 2019, em Madri

O dirigente socialista espanhol Pedro Sánchez (PSOE) defenderá, neste sábado (4), sua candidatura para ser empossado na próxima semana pelo Congresso espanhol como presidente de um governo de coalizão de esquerdas, amparado por parte do separatismo catalão.

Depois de oito meses de paralisia política e de uma nova eleição nesse meio tempo, Sánchez dispõe dos votos, após uma série de pactos que acenderam os alertas da oposição de direita.

Ganhador das eleições de novembro, mas sem maioria absoluta, Sánchez fechou um acordo com a esquerda radical do Podemos para formar um governo de coalizão. Também precisava do aval de várias siglas regionais.

A mais árdua discussão foi a do partido separatista catalão Esquerda Republicana da Catalunha (ERC). Na quinta-feira, a legenda anunciou que seus 13 deputados vão-se abster em troca de uma "mesa de negociação" entre os governos central e regional para solucionar a longa crise política na Catalunha.

- Coalizão inédita -

O debate começará no sábado, às 9h (5h no horário de Brasília), e vai durar até terça, com uma pausa na segunda-feira para a festa da Epifania. Na Espanha, nesta data, as crianças recebem seus presentes de Natal.

Em sua intervenção na abertura das discussões, Sánchez deve tratar do programa firmado com o Podemos para o primeiro governo central de coalizão na Espanha desde o fim da ditadura de Francisco Franco em 1975.

Em julho passado, após as eleições de abril vencidas por Sánchez, as divergências entre ambos os partidos impediram este pacto e levaram a uma nova rodada nas urnas.

Entre as medidas combinadas, estão o aumento de salários e impostos, a regulação dos aluguéis diante da forte alta do setor em Madri, ou em Barcelona, e a revogação parcial de uma reforma aprovada pelos conservadores em 2012 para liberalizar o mercado de trabalho.

O programa foi recebido com "profunda preocupação" pela principal instituição patronal, a CEOE, que denunciou medidas "mais próximas do populismo do que da ortodoxia econômica".

- A questão catalã -

As críticas mais duras se dirigiram ao pacto com a ERC, cujo líder Oriol Junqueras cumpre 13 anos de prisão por sedição e malversação por seu papel na tentativa frustrada de secessão da Catalunha, em outubro de 2017.

A sentença de prisão contra ele e outros oito líderes da Suprema Corte em meados de outubro gerou fortes protestos nessa região de 7,5 milhões de pessoas divididas pela independência.

O líder do PP, Pablo Casado, garantiu que o acordo "liquida a soberania nacional", enquanto o Vox, de extrema direita, referiu-se ao que chamou de "traição".

O pacto contempla a criação em duas semanas de "uma mesa de diálogo", cujos futuros acordos serão submetidos "à consulta da população da Catalunha", apesar dos socialistas descartam que seja um referendo de autodeterminação.

Parte do movimento separatista considerou o pacto insuficiente, entre eles o partido do ex-presidente catalão Carles Puigdemont e seu sucessor Quim Torra, Juntos pela Catalunha, que deveriam participar das negociações ao governar a região com a ERC.

A pressão sobre essa formação foi aumentada por uma decisão na tarde de sexta-feira da autoridade eleitoral espanhola que pode privar Torra de seu cargo presidencial.

A ERC anunciou para sábado uma reunião extraordinária de seu executivo para "analisar a decisão do Conselho Eleitoral (...) e avaliar as consequências no calendário político imediato".

Após a posse, na terça, o PSOE prevê formar o governo nesta mesma semana e encerrar com o bloqueio político.

Outra coisa é esclarecer a instabilidade causada pela fragmentação do cenário político, com quatro eleições em quatro anos.

Socialistas e Podemos terão apenas 155 deputados entre 350 no Congresso e devem negociar com vários grupos para aplicar seu programa.

"O cenário político continua complicado. O novo governo estará em minoria e as tensões na Catalunha poderão ser revividas novamente", disse Steven Trypsteen, analista do think tank do banco ING.