Peixes ficam viciados com metanfetamina que chega aos rios, mostra estudo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Traços de remédios e drogas ilícitas usadas pelas pessoas e depois excretadas pelo corpo no banheiro conseguem superar os processos de tratamento de esgoto e surgir nos rios, mudando o comportamento dos bichos que ali vivem e afetando a saúde desses animais.

Agora, um estudo mostrou que porções de metanfetamina encontradas nos rios podem estar transformando os peixes em viciados na droga sintética. A pesquisa foi publicada no início deste mês na revista científica Journal of Experimental Biology.

Os autores, cientistas de instituições da República Checa, montaram um experimento para descobrir se os níveis de metanfetamina encontrados nos rios do país seriam suficientes para afetar o cérebro dos animais que dependem dessas águas.

Os pesquisadores deixaram alguns peixes da espécie Salmo trutta, um dos mais comuns nos rios europeus, por oito semanas em um tanque de água com uma concentração de 1 micrograma (0,001 miligrama) de metanfetamina por litro -uma quantidade semelhante à encontrada nas águas do país. Um outro grupo de peixes foi mantido pelo mesmo tempo em um tanque com água-doce limpa.

Após o período, os cientistas passaram a dar a escolha para os peixes entre água limpa e água com metanfetamina diariamente por dez dias. Os peixes que passaram as oito semanas anteriores no tanque com a metanfetamina repetidamente preferiram a água com a droga em detrimento da água limpa.

Além do comportamento alterado, os pesquisadores encontraram traços da droga no cérebro dos peixes viciados. "Nossa pesquisa mostrou que existe a transmissão de problemas da sociedade humana para os ecossistemas aquáticos", escrevem os pesquisadores.

Um outro estudo, publicado no final de 2020 na revista científica Chemosfere, identificou danos degenerativos nos rins e no coração de peixes que ficaram por 35 dias em água com concentração de 1 micrograma de metanfetamina por litro -prejuízos semelhantes aos que a droga pode causar em mamíferos.

Pesticidas usados na agricultura também são encontrados nessas águas e podem gerar danos aos seres aquáticos. Em junho deste ano, um grupo de pesquisadores de instituições do Brasil publicou uma revisão de dados de pesquisas feitas em 21 países sobre a concentração do composto em água doce.

"Todos os países investigados no trabalho apresentaram um médio ou alto risco para os organismos aquáticos ao considerar suas legislações para águas doces superficiais", diz a engenheira ambiental Emília Marques Brovini, uma das autoras do artigo publicado no periódico científico Environmental Science and Pollution Research.

"No entanto, mais estudos são necessários para melhorar nossa compreensão das lacunas de conhecimento remanescentes, especialmente daquelas relacionadas à sensibilidade das espécies endêmicas (que são encontradas em lugares específicos), efeitos crônicos e exposição à mistura de compostos", afirma Brovini.

Segundo a cientista, qualquer substância criada e vendida pode ser liberada no ambiente. Quando ela entra em contato com algum organismo terrestre ou aquático, pode representar algum perigo para os animais.

"Os estudos são essenciais para concluir o grau de toxicidade dos compostos, como também para fins de monitoramento e controle dessas substâncias em compartimentos ambientais", diz.

Para Brovini, a legislação e a fiscalização das regras precisam ser reforçadas com base nos dados que indicam o risco que essas substâncias representam para os animais.

Em 2020, um grupo de pesquisadores brasileiros assinou uma carta na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry com um alerta sobre os riscos do crescimento do despejo de remédios na natureza devido ao aumento da automedicação durante a pandemia.

"As estações de tratamento de esgoto e água ainda não têm tecnologia para retirada de todos esses poluentes -possivelmente, esse será sempre um desafio. Subprodutos novos, vindos dessas substâncias, entram no ambiente em quantidade colossal o tempo todo, e a tecnologia não consegue acompanhar esse movimento", afirmou à Folha o biólogo Davi Felipe Farias, professor na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e um dos autores da carta em fevereiro deste ano.

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