Pelé além do futebol: foto para Andy Wahrol, festa de Brooke Shields, filmes com Stallone e Trapalhões, Brunet, Xuxa e mais

Carol Marques
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“Em vez de 15 minutos de fama, ele terá 15 séculos”. A frase do artista plástico Andy Warhol sobre Pelé não deve ser encarada como profética. Afinal, quando os dois se tornaram amigos, o brasileiro já era uma figura mundialmente idolatrada pela genialidade com que fez do futebol a sua arte. Mas Andy, que retratou o craque em sua galeria de celebridades, que tem Marilyn Monroe e Elvis Presley, não estava errado sobre o quanto se perpetuará o mito.

O curioso é que o cara que posou com presidentes, reis e rainhas, artistas famosos, tabelou com grandes nomes da música, era recebido com tapete vermelho por xeiques árabes e capaz até de um cessar fogo entre guerrilheiros africanos, seja alguém descrito por amigos, e pessoas que conviveram de alguma forma com ele, como o “homem mais simples que já conheceram”. Um homem que durante um réveillon em Copacabana, com janelas debruçadas sobre o mar, por exemplo, só desejava comer uma coxinha de galinha.

“Encontrei com ele após a meia-noite num festão no Edifício Chopin, ali ao lado do Copa. Pelé estava numa mesa grande, rodeado de gente. Quando me viu disse: ‘Vamos ali na cozinha. Estou morto de fome’. Eu falei: ‘Mas Pelé, era só pedir ali para um garçom’. Ele sentou num desses banquinhos que parecem de bar, pegou uma coxinha e sorriu feliz”, conta Iata Anderson, ex-assessor, fã e amigo do Rei: “Ele jamais se perdeu de quem ele era. O Edson sempre foi maior que o Pelé”.

Um príncipe em Nova York

“Estava em NY para fazer um jogo pela rádio em que eu trabalhava e o irmão do Pelé me liga no hotel. ‘Olha, o Pelé mandou te chamar para uma festa hoje à noite. É aniversário de 15 anos da Brooke Shields’. Imagina, naquela época, a menina era uma estrela. Todo mundo ia estar lá. E o Pelé achava que tudo bem se eu fosse. Eu só tinha levado uma calça jeans! Não fui, né... Numa outra ocasião, também lá, encontro o motorista dele encostado numa ruazinha sem movimento, onde havia uma loja de departamentos. Perguntei por Pelé e o motorista pediu para não contar, mas ele estava fazendo compras com a Xuxa na lojinha. Entrei e o encontrei no último andar, comprando uma raquete de tênis, na maior tranquilidade. Na Arábia, uma vez, ele ganhou sete cavalos lá de um rei. Quando estávamos voltando para o Brasil, quis saber dos cavalos. Ele fala: ‘Te dou um! Quer?’. O mundo parava quando ele chegava, mas ele nunca perdeu sua essência”, elogia Iata.

Canta, atua e faz gol

Ao se tornar um fenômeno nos campos, Pelé virou um nome que todos queriam ter em seus projetos artísticos. E assim ele transitava entre cinema, TV e música como um aspirante que não precisava de currículo. Ele ousou gravar com Elis Regina, fez um filme com Sylvester Stallone (“Fuga para a Vitória”, de John Houston), atuou em novelas, compôs e cantou. A última incursão na música é um feature com a dupla mexicana vencedora do Grammy, Rodrigo Y Vitoria, que trabalharam em cima de “Acredita no Véio”, composição de Pelé, de 2005.

Luciano Nassyn, que fez parte do Trem da Alegria, se lembra da emoção que foi conhecer o Rei do futebol. Eles gravaram “ABC do bicho papão”. Pelé em Nova York, onde morava, e as crianças no Brasil. “Um dia, estou eu jogando bola na rua, e lá tinha um senhor que tomava conta dos carros que tinha apelido de Pelé. Minha mãe grita da janela: ‘Luciano, Pelé no telefone, quer falar com você’, e eu disse ‘não, mãe, o Pelé tá aqui na rua’. Aí ela diz que era o jogador, me telefonando, de Nova Yorque. Subi correndo e ele foi de uma gentileza, me agradecendo a gravação, que nem sei como pode. Chegamos a nos encontrar uma vez, numa festa numa boate. Estávamos com a Xuxa, só eu e a Patrícia (Marx) de crianças. E ele foi bem simpático. E para mim tinha um significado ainda maior, porque eu sou louco por futebol, sabia tudo sobre o Pelé”, relembra o cantor, hoje terapeuta holístico.

Lembranças boas também tem Solange Couto. Ela fazia Dona Jura, em “O clone”, de 2002, quando conheceu o maior craque de todos os tempos. “Ele foi o primeiro convidado ilustre do Bar da Dona Jura. Me lembro que ele pediu para a Gloria Perez para ir, porque queria lançar a música dele na novela, era ano de Copa e ele compôs uma canção. Eu tomei um susto quando cheguei na cidade cenográfica e dei de cara com o Pelé, quietinho, me esperando. Uma pessoa barbaramente educada, gentil, simpática. Se dizendo meu fã, lembrou de trabalhos meus, gravamos, nos divertimos e cantamos a música dele. Depois disso, Pelé pediu para tirar uma foto comigo e mandou essa foto emoldurada para minha casa, com um autógrafo. Isso eu guardo como um troféu. Está na parede”, se emociona a atriz.

O quinto trapalhão

De longa data é a amizade entre Renato Aragão e Pelé. As duas majestades se encontraram em muitos trabalhos e estreitaram a relação para além do esporte e humor. O primeiro filme do jogador foi “Os Trapalhões e o Rei do Futebol”, de 86, quando Pelé voltou a pisar no Maracanã. “A gente começou nossa amizade nesse filme. Um longa leva dois meses para ficar pronto, e eram muitas conversas, histórias e nos identificamos demais. Fizemos uma cena histórica no Maracanã lotado, Pelé era o goleiro do nosso time. Ele deu um chute direto, e fez o gol lá do outro lado. Impressionante. Depois, ficamos muito amigos e compartilhamos nossa vida para sempre. O Rei está no meu coração”, recorda Renato, com carinho.

Um homem cobiçado

Iata Anderson se lembra do frenesi que o amigo Pelé causava no público feminino. “Não tinha uma mulher que não quisesse ficar com ele”, arrisca-se. Mas teve. Luiza Brunet deu um fora no então jogador, na década de 1980. Ela era comprometida e não quis saber dos galanteios do monarca dos gramados. Nada que tenha ficado marcado de forma negativa na memória da atriz e modelo. “Pelé foi e será a maior representatividade de ídolo, em uma época que não existia o jogador metrosexual. Ele sempre foi originalmente uma pessoa exemplar. Desejo a este homem e ídolo, que está deixando um legado no esporte insuperável, um feliz 80 anos”, elogia a musa.

Com a negativa de Brunet, Pelé se encantou pela amiga dela, Xuxa. E ali deu liga. Os dois namoraram por seis anos e fizeram a festa das publicações que não se cansavam de estampá-los em suas capas. A diferença de idade entre eles, 33 anos, no entanto, pesou. Em seu livro, “Memórias”, Xuxa relembra, com alguma mágoa, da relação mais famosa do Rei: “Ele tinha mais de uma personalidade: o Pelé, para todo mundo, e o Dico, para mim. O Dico era aquele que jogava buraco com minha mãe, que era o meu namorado. E, às vezes, ele me falava: 'O Pelé precisa sair hoje'. E nessas eu era traída loucamente. Já aconteceu de, em festas, eu ver que ele estava com marcas de batom na boca que não era o meu. Para ele, aquilo era normal: 'As mulheres querem ficar com o Pelé'”, conta a apresentadora na obra. Há quatro anos, Pelé se casou com Maria Cibele Aoki, após dois casamentos e alguns casos extraconjugais, que lhe renderam filhos e netos.