Pela primeira vez desde 2015, BC sobe juros e Selic vai a 2,75%

Gabriel Shinohara
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BRASÍLIA — Depois de seis anos sem subir os juros, o Banco Central (BC) voltou a subir a taxa básica Selic, de 2% para 2,75%. A decisão foi tomada em reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) encerrada nesta quarta-feira.

Com a mudança, a Selic sai do menor patamar histórico em que estava desde agosto do ano passado, considerada extraordinariamente estimulativa pela autoridade monetária.

A alta deve ser o primeiro passo de um processo que deve fazer com que a taxa chegue a 4,5% ao ano, de acordo com as projeções de analistas do mercado financeiro.

A elevação de juros ocorre em meio a preocupações com a alta da inflação registrada nos últimos meses e das projeções para o restante do ano.

Na avaliação do Banco Central, ess alta recente da inflação no curto prazo foi "mais forte e persistente" do que o esperado, mas o diagnóstico, assim como nas reuniões anteriores do Copom, é de que ela é "temporária'.

"A continuidade da recente elevação no preço de commodities internacionais em moeda local tem afetado a inflação corrente e causou elevação adicional das projeções para os próximos meses, especialmente através de seus efeitos sobre os preços dos combustíveis" — diz o comunicado do Copom.

Nas últimas semanas, o mercado tem aumentado seguidamente suas expectativas para a inflação de 2021 por causa das incertezas fiscais e aumento dos preços da gasolina e de alimentos.

Nesta quarta, o Ministério da Economia elevou a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2,9% para 4,4%, principalmente por causa da pressão dos alimentos.

Há um mês, o boletim Focus, que reúne as expectativas do mercado, projetava que a inflação em 2021 ficaria em 3,6%. Já na última segunda-feira, a expectativa já era de 4,6%, acima da meta de 3,75%. Há um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Risco de estagflação: preços altos com recessão

Como o objetivo das alterações na Selic é de guiar a inflação para a meta, a decisão do BC foi de voltar a subir os juros. Com a taxa mais alta, os empréstimos e financiamentos tendem a ficar mais caros, o que desestimula a atividade econômica, e o consumo, diminuindo a inflação.

Essa política, no entanto, é uma faca de dois gumes e pode também contribuir para frear a retomada econômica. Analistas já apontam que o Brasil pode viver um quadro conhecido como estagflação — combinação entre estagnação da atividade econômica e inflação elevada.

Após uma queda de 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, a expectativa do mercado financeiro é de retração no primeiro trimestre, com projeções que chegam a queda de 0,6%, como mostrou o GLOBO.

Com essas projeções, o esperado é que a atividade tenha desempenho negativo no primeiro semestre, que seria seguido de uma retomada na última metade de 2021. De acordo com o boletim Focus, a expectativa é que o PIB cresça 3,23% neste ano, em linha com a projeção do governo.