Pen drive de Eduardo Bolsonaro mostrou verdade sobre Brasil: somos o paraíso do meme

Brazilian politician and lawyer Eduardo Bolsonaro, son of Brazilian President Jair Bolsonaro, speaks during the Conservative Political Action Conference (CPAC) in Mexico City, Mexico November 18, 2022. REUTERS/Henry Romero
O deputado Eduardo Bolsonaro. Foto: Henry Romero/Reuters

Imagine a situação.

Um integrante da Fifa está sentado numa arquibancada do estádio onde jogam Brasil e Suíça quando aparece um sujeito estranho com um pen drive na mão e um convite: “o senhor tem cinco minutos para ouvir a palavra do golpe de Estado no Brasil?”.

Não sei vocês, mas eu correria para o dicionário inglês-português para aprender em nossa língua como se diz "sai daqui".

Foi mais ou menos isso o que diz ter feito o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) ao ser flagrado em dia de expediente em plena semana curtindo o jogo da seleção de Tite.

Até onde se sabe, a viagem ao Qatar rendeu ao ex-futuro embaixador brasileiro um contato diplomático, com direito a foto e tietagem, apenas com o homem que se veste de Taça Copa do Mundo durante as partidas.

O filho 03 do presidente desaparecido Jair Bolsonaro (PL) jura que foi ao país-sede do Mundial com um dispositivo de armazenamento de dados na mão e uma ideia na cabeça.

A ideia: “nesses pen drives aqui tem videos em inglês explicando a situação do Brasil. Eu espero que vocês não creiam que aqui só se fala em Copa do Mundo. Só para lembrar para vocês que a Fifa tem mais membros que as próprias Nações Unidas. A imprensa inteira está aqui”.

Eduardo Bolsonaro era criticado por ter viajado enquanto os apoiadores de seu pai sofrem com a chuva, o frio e os banheiros químicos montados em frente a quartéis do Exército onde pedem golpe militar e outros delírios.

Vendo que o passeio pegou mal, o parlamentar preferiu aparecer em público para se autoincriminar.

Como resumiu o jornalista Josias de Freitas, no UOL, “se formos levar Eduardo Bolsonaro a sério, seria necessário que uma autoridade judiciária expedisse um mandado para aguardar o deputado no seu desembarque no Brasil para prendê-lo em flagrante, porque ele está patrocinando uma conspiração internacional contra a democracia brasileira”.

Um fato mais grave, portanto, do que simplesmente trair a boa fé dos compatriotas encharcados.

A chance de a fala resultar em algum problema, porém, é baixa. Na lista de infrações cometidas pela turma ainda tem uma fila onde uma colega de bancada é vista perseguindo armada um eleitor pelas ruas de São Paulo sem que nada acontecesse a ela no dia seguinte.

Mais fácil pensar que parte dos manifestantes dispostos a seguir acampados por mais 72 horas, renováveis por mais 72 horas, e mais de 72 horas, e assim por diante, já engoliu a conversa do pen drive e já dorme tranquila sob o relento golpista.

É para isso que foram produzidas tantas balelas nos últimos anos: testar a aderência das teses mais estapafúrdias que a razão ainda desconhece.

Quem acredita em terra plana, Ratanabá e fraude nas urnas — que ninguém levado a sério conseguiu provar — pode acreditar também que o regabofe do filho do presidente foi movido apenas por fins patrióticos e que o espírito golpista está guardado a salvo, como um gênio da lâmpada, num pen drive da bagagem.

Para quem já tentou parar um caminhão de peito aberto e ganhou de graça uma viagem segurando-se no parabrisa, não vai ser uma história mal contada sobre pen drive e viagem ao deserto que vai frear a convicção de que está fazendo a coisa certa pelo país (spoiler: não está).

Por enquanto, tudo o que Eduardo Bolsonaro conseguiu botar pra trabalhar foi a fábrica de memes em seu país.

Em um desses memes, um patriota com a camisa amarela pega viagem pendurado no parachoque de um imenso pen drive em direção ao espaço. Ou seria o lugar nenhum?