'Pepeca gorda': youtuber levanta discussão sobre a beleza íntima da mulher

A youtuber Alexandra Gurgel decidiu falar sobre a sua "pepeca gorda" no Instagram (Foto: Alexandra Gurgel / Instagram)

"Amar o próprio corpo é um ato revolucionário", diz a bio de Alexandra Gurgel no Instagram. E, com uma mensagem tão forte quanto essa, era de se esperar que a youtuber usasse o seu perfil para trazer reflexões importantes sobre corpo e auto-estima. Não deu outra. Em seu perfil no Instagram, ela decidiu falar sobre o tema mais polêmico de todos: o tamanho da sua vulva.

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Com uma foto de biquíni verde neon com um efeito estrategicamente posicionado, Alexandra falou sobre a sua relação com a própria "pepeca gorda", e como ela sempre foi uma questão na sua autoimagem.

"Os meninos comentavam no colégio, tinham vários apelidos. E desde cedo comecei a escondê-la com casacos amarrados, blusas enormes… E era um outro grande motivo pra não ir à praia ou ambiente de piscina", escreveu na legenda.

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Desde cedo, a comparação com as outras meninas era comum, e a influenciadora acabou incluindo a região na sua cirurgia de lipoescultura, que teve resultados desastrosos: "A cirurgia foi muito complicada em muitos níveis, e ela literalmente 'empedrou' e ficou super dolorida, já que eu tinha que usar cinta e não existe cinta pra pepeca, pelo contrário: ela era esmagada pela cinta, já que era a única parte aberta, pra poder fazer xixi. Eu sentia muitas dores, cheguei a fazer vários tratamentos estéticos e fiquei muito tempo assim".

Não à toa, ela explica, uma tentativa de suicídio veio pouco tempo depois da operação, como consequência de uma série de fatores somados a um procedimento que mexeu - e muito - com a sua autoestima e a visão de si mesma.

Alexandra diz que tinha vergonha de falar sobre o assunto antes, mas percebeu que, assim como qualquer outra parte do corpo, a vulva não precisa seguir padrão algum e que ela, não necessariamente, precisa gostar dessa parte do corpo. "Não tem que ter padrão pra porcaria nenhuma, muito menos pra sua pepeca! Hoje eu fico pelada na frente dos outros, coloco meus bons biquínis, faço tudo, sem vergonha! Todo dia é uma oportunidade de se amar. Todo dia. E você pode nem achar bonito algo em você, mas meuamô: essa é a vida!"

Brasil e o padrão de beleza ~lá embaixo~

Tati Quebra-Barraco já abriu a discussão: qual o problema do mercado de moda praia brasileiro com mulheres que tem uma vulva maior? Biquínis minúsculos, que mal cobrem o próprio corpo, são comuns por aqui tanto por uma questão de padrão de beleza quanto cultural - temos a fama, lá fora, de mostrar muito o corpo sem pudores.

Mas essa exposição não vem sem algum sacrifício. Afinal, o Brasil é um dos campeões mundiais de cirurgias plásticas - quando se fala em adolescentes entre 13 e 18 anos, o número de cirurgias entre 2017 e 2018 já passou de 90 mil, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

E não para por aí. Também quando se fala de cirurgias íntimas, a exemplo do érbio fotona feito por Núbia Oliiver, o Brasil está batendo recordes. Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, o país está no topo do ranking para ninfoplastias, com 21 mil procedimentos por ano - 10 mil a mais que o segundo colocado, os Estados Unidos.

Muito desse crescimento acontece por dois motivos principais: o primeiro é a quebra de tabus a respeito de sexo e o maior acesso à informação, graças à internet. O segundo é puramente estético: um ideal de vulva perfeita e atraente que segue um padrão de beleza pré-determinado pela sociedade patriarcal.

O que relatos como o de Alexandra fazem, por outro lado, é trazer uma reflexão totalmente ligada à autoestima feminina: aceitar e sentir-se confortável no seu próprio corpo não significa cair de amores por cada pedacinho dele, mas reconhecê-lo como é e cuidar para que ele fique bem, a longo prazo. Afinal, não existe padrão para vagina, vulva.

Em um mundo onde apenas 4% das mulheres se sentem realmente bonitas (no Brasil o número é um pouco maior, 14%, de acordo com uma pesquisa feita pela Dove no último ano), pensar que existem padrões a serem alcançados até para a região íntima feminina limita e entristece - e falar sobre o assunto de forma aberta, compartilhando dificuldades e incertezas, é uma forma de encontrar um lugar comum de auto-aceitação, bem longe de padrões e mesmo com "pepecas gordas".