'Pequenas vinganças': novo livro de Edney Silvestre expõe violência enraizada na sociedade brasileira

A violência do Brasil se reflete em cada gesto, reação e pensamentos dos personagens de “Pequenas vinganças” (Globo Livros), novo livro de Edney Silvestre. É o que explica o jornalista e escritor, em entrevista por e-mail ao GLOBO. Os contos reúnem vinganças, em alguns casos inconscientes, como uma reação a toda essa opressão. Da carnificina do século XIX à hipocrisia de pretensas correntes anticorrupção do século XXI, Edney desenterra a brutalidade enraizada da sociedade brasileira. O lançamento com sessão de autógrafos acontece hoje, às 19h, na Travessa do Leblon.

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— Insistir em viver a própria vida, à sua própria maneira, resistir à morte numa sociedade hostil àqueles que não se conformam, não se moldam à maioria, são bravas demonstrações dessas pequenas vinganças do título — diz o escritor.

Para Edney, o Brasil atravessa os tempos mais “cruéis, desumanos e bárbaros” da sua história. Ao mesmo tempo, acredita ele, nunca foi diferente. O conto “Piedad, Señor”, inspirado na história de seu bisavô, remete às promessas de amparo negadas pelo império brasileiro aos pobres e escravizados que combateram na Guerra do Paraguai.

Os contos e novelas reunidos mostram como essas estruturas se mantém através das décadas, seja no poder das oligarquias formadas na ditadura militar, ou no preconceito aos recém-chegados nas altas esferas. Reduzidas a objetos de decoração ou a meras reprodutoras, duas esposas humilhadas da alta sociedade dão o troco em seus maridos com artimanhas distintas (uma envolve até o ditador Getúlio Vargas). Um jovem médico imita o James Stewart de “Um corpo que cai” em seu fascínio desmedido pela mulher de um paciente em estado terminal. Um tiroteio abrevia a inocência de uma criança em um sábado como tantos outros na Avenida Brasil.

— Conforme “Pequenas vinganças” tomava forma, mais consciente eu me tornava da extrema violência a que somos submetidos, das humilhações que levam pessoas a brigarem por ossos no meio do lixo, a se exporem nas calçadas pedindo não “uma esmola pelo amor de Deus”, como em piedosas histórias do passado, mas implorando que lhes compremos fraldas geriátricas, lata de leite em pó, remédios para suas quimioterapias — diz Edney. — Quando vi o presidente rindo das vítimas da Covid e imitando alguém morrendo por falta de ar, senti raiva, vergonha e náusea. Essa raiva, essa vergonha, essa náusea envolvem todo o meu livro.

Se a vingança é sintoma, a hipocrisia aparece entre as causas das nossas mazelas. Flertando com a sátira social, Edney expõe corruptos que abraçam movimentos anticorrupção, moralistas com passados obscuros ou simples jovens alienados que atravessam de olhos fechados a tragédia cotidiana. Desprezado pela mãe, um atleta acumula encontros sexuais alheio à grande pandemia que se desenha no horizonte.

— O sexo como vingança é a forma de Diego, do conto “Vênus em trânsito”, não jogar a moto de um despenhadeiro, embora ele não saiba disso — explica Edney. — Ele e outros milhões como ele, metidos em camisetas amarelas da Seleção Nacional, não sabem, nunca ouviram falar em coronel Ustra, guerrilha no Araguaia, ou em Cadeira do Dragão, nada da recente História que moldou o Brasil onde estamos hoje. Diego é incapaz de empatia ou real conexão. Diego é como uma bomba ambulante, prestes a explodir. Formado pela poderosa hipocrisia dessas oligarquias aferradas ao poder, perpetuadas no poder.

Brasil como personagem

Vencedor do Prêmio Jabuti em 2010, Edney é hoje um dos autores nacionais mais traduzidos no exterior. O interesse por seus livros surpreende o próprio escritor. Ele só foi entendê-lo quando a experiente editora franco-alemã, Eléonore Delair, lhe deu a luz: “Pela primeira vez lendo um romance braseiro”, disse ela, referindo-se a “Se eu fechar os olhos agora”, “pude entender a complexidade e s contradições da formação do seu país”. Um crítico do The Guardian escreveu: “O personagem onipresente nos livros de Edney Silvestre é o Brasil”.

E como o leitor de fora vai reagir a esse Brasil desesperador de “Pequenas vinganças”? Correspondente internacional da TV GLOBO por mais de uma década nos EUA, Edney conhece o olhar estrangeiro sobre o nosso país.

— Os editores estrangeiros, particularmente alemães, ingleses e franceses, corriam em busca de livros sobre o Brasil, um país pujante a brotar dos destroços da ditadura militar. Mas se desinteressaram da literatura produzida aqui ao constatarem as atrocidades pós-2018 cometidas contra os povos originários, o crescimento dos crimes de ódio e racismo, a destruição das florestas, das políticas educacionais e culturais.

Ele cita algumas “esplêndidas exceções” de reconhecimento internacional, como “Torto arado”, de Itamar Vieira, e “Cabeça de Santo”, da Socorro Accioli, que em 2023 sairá na Itália.

— Chegamos a um tempo de reconstruir — afirma. — Nossa forma de escrever sobre o Brasil, inclusive. Não podemos perder essa chance. Pode ser a nossa última.

Curiosamente, a coletânea se encerra com uma novela de exílio, que recupera os personagens Paulo e Bárbara, de “Vidas provisórias”, romance que Edney lançou em 2013. Só há felicidade na fuga?

— Ninguém se exila para ser feliz. É um último recurso. É a boia salvadora do náufrago. Paulo foi torturado e expulso pela ditadura militar brasileira, acabou na Suécia depois de fugir do golpe de Pinochet no Chile, não suportava aquela “Vida provisória” e tentou matar-se. Acabou salvo pelo médico filho de um exilado cubano. E ganhou nova vida ao encontrar uma mulher mais velha, que vivera como expatriada na França. Anna, marcada pelo sofrimento íntimo, foi capaz de reconhecer naquele rapaz negro brasileiro o homem que, igualmente, poderia salvá-la e lhe dar uma nova vida. Daí renascem ambos.