'Pequeno grupo' que Bolsonaro atacou pode ser maior do que presidente imagina

Gustavo Alves
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Para defender a decisão de trocar o presidente da Petrobras e manter-se na ofensiva, o presidente Jair Bolsonaro fez uma pergunta que ecoou um antigo slogan e resumiu o problema de demitir Roberto Castello Branco a uma escolha entre dua alternativas: "O petróleo é nosso ou é de um pequeno grupo?". O problema é que o 'pequeno grupo' talvez não seja mais tão diminuto, se ele estiver falando de investidores da Bolsa.

O presidente tenta fixar na cabeça do público a imagem de um clube fechado de banqueiros que seriam os únicos interessados na gestão eficiente da Petrobras, em contraponto aos caminhoneiros e outros trabalhadores penalizados com a alta do combustível. Mas entre um lado e outro, há as pessoas que têm algum dinheiro guardado e procuram protegê-lo por investimentos no mercado financeiro.

Esse grupo aumentou com a queda dos juros no Brasil, que levou à procura de meios mais rentáveis do que CDI e caderneta de poupança como forma de preservar o que sobra no fim do mês. E investimentos em renda variável, como as ações da Petrobras, foi um caminho quase inevitável. São pessoas da classe média ou mesmo de menor renda: se mercado financeiro fosse assunto apenas de banqueiros, não haveria o fenômeno Nath Finanças, a blogueira que dá dicas econômicas para quem ganha pouco.

Se os chamados novos CPFs e "sardinhas" da Bolsa, apelido dos pequenos investidores, têm algum peso político para esboçar alguma reação, é o que se verá caso a cotação dos papeis da Petrobras continuar acumulando perdas e o neoinvertencionismo que Bolsonaro adotou contaminar as expectativas do mercado a ponto de ferir as economias deste grupo que, por ser diverso, não tem como fazer greve, como os caminhoneiros. Mas pode espalhar seu descontentamento de forma difusa na sociedade.

Se Bolsonaro recorreu à lembrança histórica para defender a demissão de Roberto Castello Branco, seria bom recordar de outra frase de uma personagem histórica: Teddy Roosevelt. O presidente dos Estados Unidos que ficou amigo do Marechal Rondon em uma viagem ao Brasil em que quase morreu seria objeto de alguma afeição de Bolsonaro, se ambos tivessem se conhecido. Afinal, Roosevelt era caçador, categoria que o presidente brasileiro diz querer prestigiar. E da experiência como caçador, o político que popularizou os chapéus panamá e os ursinhos de pelúcia tirou essa metáfora: "o homem que perde seu dinheiro é como um animal ferido".