O manual antirracista de Djamila Ribeiro

Capa do novo livro de Djamila Ribeiro. Fotp: Divulgação/Companhia das Letras


“Olha a sua cor”, disse um torcedor do Atlético-MG ao ser contido por um segurança negro no clássico contra o Cruzeiro no Mineirão, no último domingo, dia 10.

Se você não sentiu raiva diante da injúria racial, é melhor buscar tratamento. Ou nascer de novo.

Se você sentiu, mas acha que não tem nada com isso porque, afinal, não ofendeu ninguém, tenho uma má notícia: a inação contribui para perpetuar a opressão. 

É o que afirma a filósofa e ativista Djamila Ribeiro em seu “Pequeno Manual Antirracista”, que ela acaba de publicar pela Companhia das Letras.

Comprei meu exemplar desafiado a identificar minha inação em um país onde 75% dos mais pobres são negros, e 70% dos mais ricos, brancos

Parte dessa tragédia tem bases na própria percepção do racismo, quase sempre negado por quem acusa seus militantes de dividirem o país: em 1995, o Datafolha apontou que 89% admitiam existir preconceito no Brasil, mas 90% negavam serem racistas.

Onde estava, então, o racismo?

As razões históricas para essa disparidade são o tema do pequeno livro de 135 páginas, que pode ser levado no bolso e sacado toda vez que nos almoços em família aquele primo branco e bem-sucedido bate no peito para dizer que não vê cor, vê humanidade - fazendo com que todos à mesa se calem e evitem fazer algumas pequenas perguntas sobre direitos e privilégios no país.

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Os meus estavam desenhados já na livraria de um shopping de Campinas, onde a maioria dos clientes e frequentadores era branca, como eu.

Mas o que pessoas não-negras podem fazer para combater o racismo no Brasil?

Não basta não repetir o que fez o torcedor do Atlético?

Não.

O primeiro passo, afirma a autora, é se informar sobre o racismo. E isso requer, sobretudo, fazer um debate estrutural. “É fundamental trazer a perspectiva histórica e começar pela relação entre escravidão e racismo, mapeando suas consequências”.

Esse racismo estrutural tem origens históricas. Em 1824, lembra Djamila, a Constituição do Império determinou que a educação era um direito de todos os cidadãos, menos das pessoas negras escravizadas. 

A cidadania era um direito condicionado a posses e rendimentos - justamente o que não tinham os escravos recém-libertos.

A Lei de Terras, de 1850, dava ao Estado o direito de distribui-las mediante a compra, o que inviabilizava a ocupação desses territórios por pessoas negras, enquanto imigrantes europeus recebiam concessões.

Outras iniciativas estão resumidas nos títulos de cada capítulo:

-Enxergue negritude;

-Reconheça os privilégios da branquitude;

-Perceba o racismo internalizado em você;

-Apoie políticas educacionais afirmativas;

-Transforme seu ambiente de trabalho;

-Leia autores negros.

-Questione a cultura que você consome;

-Conheça seus desejos e seus afetos;

-Combata a violência racial;

Levar em conta esses passos exige uma postura, e ela nem sempre é o caminho mais fácil: pode fazer com o que o leitor branco se indisponha com familiares, amigos e chefes. Mas é importante ser o chato desses encontros e lembrar que não, meu caro, minha cara, não adianta dizer que tem amigos e empregados negros e que prefere “não ver a cor” - “a cor não é o problema”, diz a autora, “mas seu uso como justificativa para segregar e oprimir”.

De novo: este não é um debate individual, mas estrutural.

Quantas pessoas negras, aliás, ocupam espaços de gerência em sua empresa?

E quantas vezes alguém repetiu que o sistema de cotas servia para roubar as vagas de seus filhos? (Como se esses espaços fossem um direito natural de pessoas brancas. Como se o convívio entre pessoas diversas não fosse salutar em um ambiente universitário. Como se cotistas não tivessem historicamente bom desempenho em sua vida acadêmica)

Entre todos os pontos, o mais delicado se refere à violência. É lá que os discursos racistas se metamorfoseiam em discursos contra a chamada “criminalidade” em um país onde critérios subjetivos são levados em conta nos julgamentos e a grande parte da população carcerária é negra.

É preciso lembrar que, nos bolsões de segurança onde vivem muitas das pessoas brancas, o risco de morte é ínfimo perto do que passam os moradores das comunidades periféricas.

Na semana passada, a pequena Kethellen de Oliveira Gomes, de cinco anos, se tornou a sexta criança morta por disparos de arma de fogo no estado do Rio em 2019. “Não chora, não, mãe”, disse ela, deitada no chão, após ser alvejada enquanto ia para a escola.

A bala, nesses espaços, nunca é perdida.

Entre 2007 e 2018, lembra a filósofa, 553 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. O alvo tem pele negra: 71,5% das vítimas, mesmo representando 55,8% da população brasileira.

Em dez anos, entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios da população negra aumentou 23,1%.

A maioria dos crimes não é sequer solucionada.

“A chamada ‘guerra às drogas’ serve como pretexto para uma guerra contra a população negra”, define Djamila.

Ainda assim, não há sinal de uma crise ética na sociedade brasileira.

“Não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar”, escreve.

No livro, Djamila fala também do “genocídio epistemológico” (para mim, uma expressão até então desconhecida) de quem só conhece autores de um determinado grupo e ignora a história de outras raízes, culturas, referências.

As dez pequenas lições da autora servem, assim, como grandes portas de entrada para se aprofundar no assunto, reavaliar posturas, mudar atitudes.

Como diz uma velha música, a lição sabemos de cor. Só nos resta aprender.