Pequim teme 'cenário Xangai' em combate à Covid e dispara preocupação na China

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente chinês, Xi Jinping, durante a reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente chinês, Xi Jinping, durante a reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Minutos após sair para ir à escola, a filha de 13 anos de Humberto Monteiro, 57, voltou para casa. Enquanto esperava o ônibus, a menina recebeu a notificação pelo celular de que o colégio suspendera as aulas em meio às novas restrições implementadas pelas autoridades de Pequim para frear o avanço da Covid-19.

"A gente fica sabendo em cima da hora. Por enquanto a situação está mais ou menos tranquila, mas quando vi todo mundo com sacolas de mercado cheias na segunda-feira [25], corri para fazer um estoque, porque senti que o bicho ia pegar", diz o cearense que vive na China há 23 anos. Na capital chinesa, onde comanda uma churrascaria brasileira, ele tem feito testes de Covid-19 dia sim, dia não.

Pequim tem seguido o roteiro que outras cidades do país conhecem bem desde que a variante ômicron do coronavírus furou as rígidas barreiras de controle e pôs à prova a política de "Covid zero", segundo a qual nenhum nível de contaminação é aceitável.

Nesta quarta (27), o governo confirmou 34 novos casos na cidade de quase 22 milhões de habitantes. Condomínios em que são confirmadas contaminações têm sido fechados, escolas suspenderam aulas e, em algumas regiões, autoridades recomendam, por ora, evitar sair de casa para atividades não essenciais.

É o que o regime batizou de "política dinâmica da Covid zero", que adota desde meados do ano passado, em que isola pontualmente áreas com registros da doença antes de decretar lockdown em toda a cidade. A estratégia causa incômodos: na última semana, por exemplo, todos que passaram por um shopping de Pequim precisaram se isolar em casa por dez dias após um único frequentador ter um caso notificado.

O que assusta a população é que esse foi o roteiro adotado em centros econômicos do país, como Shenzhen e Xangai --mas as duas não conseguiram conter a doença só com as medidas pontuais e depois precisaram decretar quarentenas rígidas. Na segunda, a situação se estende há semanas, em meio a insatisfação popular e protestos em redes sociais, disparados após denúncias de desorganização das autoridades municipais e desabastecimento, além de uma controversa política de separar pais de crianças infectadas.

O receio dos pequineses é que o mesmo aconteça na capital. Analistas, porém, apontam que as ações do regime comunista devem ser mais comedidas em Pequim, sobretudo após a repercussão negativa do lockdown de Xangai.

"O controle de uma série de coisas na China ficou muito mais rígido do que o usual nos últimos tempos, e nisso se inclui o controle sobre a pandemia", diz Jiangnan Zhu, professora de ciência política da Universidade de Hong Kong. "Para Pequim, no entanto, o mais provável é que a resposta aos casos recentes de Covid-19 seja conduzida de maneira mais cautelosa."

Isso porque no segundo semestre deste ano a capital recebe o 20º Congresso Nacional do Partido Comunista, em que há a expectativa de que o atual líder, Xi Jinping, confirme um inédito terceiro mandato. Figura mais poderosa do regime chinês desde Deng Xiaoping, Xi conseguiu abolir, em 2018, o limite de dois mandatos à frente do país, abrindo caminho para permanecer no poder de forma indefinida.

Ainda há, no entanto, pendências burocráticas, como mudanças em estatutos do partido que estipulam que só uma reeleição é tolerada e que colocam limites de idade para membros do politburo. Um provável terceiro mandato ainda enfrenta resistência de figuras importantes como o ex-premiê Zhu Rongji. Nesse cenário, tudo o que Xi não quer é ver eclodirem em Pequim movimentos de gente desesperada gritando pela janela ou ações orquestradas em redes sociais para criticar o regime, como houve em Xangai.

A situação na cidade continua desafiadora, levando inclusive a especulações a respeito de uma possível mudança na administração municipal. O polo financeiro da China registrou 13.562 novos casos nesta quarta e 48 mortes --levando a soma dos últimos dez dias a 238. O número de óbitos pode ser ínfimo para os padrões registrados em outras megalópoles em picos da doença (São Paulo teve, em 2 de abril do ano passado, uma média móvel de 220 mortes), mas é considerado desastroso na China.

Enquanto isso, os moradores de Pequim resolveram se precaver.

Humberto Monteiro, o brasileiro dono de uma churrascaria na cidade, acha que ainda não há motivos para desespero, mas por via das dúvidas fez estoque de comida para pelo menos um mês: comprou carne de porco, boi, galinha e pato, além de arroz, macarrão e muitos congelados para sustentar a casa onde mora com a mulher e três filhos. Ele vive em Chaoyang, distrito mais populoso da capital, com 3,5 milhões de pessoas, que primeiro anunciou que testaria toda a população três vezes nesta semana --outros dez distritos seguirem a estratégica e afirmaram que também farão campanhas de testes em massa.

A churrascaria, chamada de Brazilian Churrasco, fica em um hotel no qual operavam também outros quatro restaurantes, hoje fechados. "Como turistas estrangeiros não têm entrado no país e recentemente nem chineses mais se hospedam lá, o movimento caiu muito", diz ele.

Havia uma expectativa de que o turismo fosse reaquecido no 1º de Maio --o feriado do Dia do Trabalho estende as comemorações por alguns dias e forma uma data especialmente importante para o setor--, mas a prefeitura já ordenou que agências de viagens suspendam as excursões à capital e passou a exigir testes para entrar na cidade.

Também no setor de alimentos, Dino Dabach, 52, sócio de outro restaurante em Pequim, estocou comida para dois meses, com carne, frango, enlatados e produtos menos perecíveis. "Não quero que aconteça aqui o que passou a meus colegas em Xangai, que enfrentam uma situação difícil", afirma.

O empresário viu quarteirões próximos a sua casa se fecharem após a confirmação de casos da doença, mas até aqui tem passado incólume pelo vírus. Ele diz que o lockdown em Xangai tem ainda um impacto econômico: com a dificuldade de obter produtos, sobretudo carnes, do exterior, em meio a um congestionamento no porto do polo financeiro, seus gastos cresceram em torno de 30% nos últimos meses.

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