Percentual de mulheres que trabalham ou estudam despenca durante a gravidez e após nascimento de um filho

Leda Antunes
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Enquanto o nível de emprego e estudo das mulheres cai durante a gravidez e após o nascimento do bebê, o dos homens permanecem inalterado

As trajetórias profissionais e educacionais das mulheres costumam ser as mais afetadas pela chegada de um filho, devido à tradicionalmente desigual divisão do trabalho doméstico e das tarefas de cuidado. Isso fica ainda mais claro ao se observar em uma linha do tempo como se comportam os níveis de emprego e estudo de homens e mulheres durante a gravidez e depois do nascimento de um bebê. Enquanto o número de mães que trabalham ou estudam despenca nesse período, o de pais permanece inalterado, mostra um novo estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O levantamento feito com base nos dados Pnad Contínua, do IBGE, mostra que o percentual de mães que trabalham cai de 60% um ano antes da gestação para 41% nove meses depois do parto. Já o percentual de pais que trabalham praticamente não se altera antes ou depois do nascimento, permanecendo sempre ao redor de 89%. O estudo analisou toda a série histórica da pesquisa do IBGE, de 2012 até o último trimestre de 2019.

— A Pnad Contínua permite que você acompanhe um mesmo domicílio por 5 trimestres. Estão você tem dados de 15 meses da mesma família. São poucos os estudos que analisam a desigualdade de gênero desta forma, acompanhando uma mesma pessoa ao longo do tempo — explica a economista Ana Luiza Neves de Holanda Barbosa, co-autora do artigo, ao lado da também economista Joana Simões Costa, e do assessor especializado na Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea Marcos Hecksher, que lidera o estudo.

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Os dados permitem construir uma linha do tempo desde um ano antes do nascimento de um bebê, e, combinando diferentes domicílios, estendê-la para acompanhar o que acontece com mães e pais conforme seus filhos crescem. Nos domicílios analisados, 80% dos bebês vivam com a mãe e com o pai.

— Aparentemente, o nascimento de um bebê muda tudo na vida da mãe e não muda nada na vida do pai — afirma Hecksher.

Em relação aos estudos, a queda também é drástica. Os dados da Pnad mostram que as mulheres frequentam a escola, inclusive graduação e pós-graduação, em proporções superiores aos homens no Brasil. No entanto, ao longo dos trimestres da gravidez, essa vantagem cai até as taxas de mães e pais se tornem as mesmas, a partir do trimestre seguinte ao nascimento do filho. Enquanto o percentual de pais que estudam recua de 8,5% a 6,9%, o das mães cai acentuadamente, de 15,4% um ano antes da gravidez a 6,7% no trimestre seguinte ao parto.

Do lado das mães que não trabalham, o percentual de desempregadas (mas que buscam trabalho) cai de 8,5% para 1,3%, mas é compensado pelo forte aumento das que nem trabalham nem procuram trabalho, de 31,3% para 53,3%. Segundo o estudo do Ipea, esse aumento da inatividade no mercado de trabalho é explicado pelos entrevistados — nem sempre as próprias mães —, inicialmente, por motivos diversos, que incluem a gravidez e, sobretudo a partir do nascimento, porque elas tinham de cuidar da casa, dos filhos ou de outros parentes.

Impacto sobre o emprego formal

Outro fenômeno identificado no estudo do Ipea: o impacto da gravidez sobre a formalização das mulheres no emprego. Durante a gravidez, cai fortemente o percentual de mães que trabalham sem contribuição previdenciária, 17,9% são informais um ano antes da gestação. No trimestre do nascimento, esse percentual cai para 6% e sobe para 13,7% cinco trimestres depois do parto.

— O emprego informal cai em maior proporção e mais rápido durante a gravidez, mas é o que mais cresce à medida que o bebê cresce. Não sabemos ainda se são trabalhadoras formais que viram informais ou se são as que já eram informais e voltam a trabalhar. Já o trabalho formal não retoma ao mesmo patamar depois do nascimento — afirma Marcos Hecksher.

Os dados coletados no estudo mostram que proporção de mães que têm trabalho com contribuição previdenciária diminui mais suavemente ao longo da gestação até que a maioria esteja em licença-maternidade, mas a queda se acelera ao fim da estabilidade legal e o trabalho informal passa a ter um peso maior entre as mulheres.

A trajetória que os dados demonstram no estudo do Ipea em muito se parece com a da designer Patrícia Baroni, de 36 anos. Ela já tinha sido mãe aos 18 anos, por isso conta que já teve dificuldades para entrar no mercado de trabalho. Depois de alguns anos, se estabeleceu e foi convidada para trabalhar em uma editora em São Paulo, em 2012. Naquele ano, se casou e engravidou.

Ela conta que a empresa, que antes da gravidez dizia apoiar sua decisão de ser mãe novamente, começou a fazer exigências e criar impeditivos para que ela se dedicasse à gestação e, posteriormente, à maternidade.

— Não me deixavam ir às consultas do pré-natal. Depois queriam me forçar a assinar um documento abrindo mão da licença-maternidade. Quando a minha filha nasceu, queriam que eu voltasse para o escritório e levasse ela para lá, mesmo antes da licença acabar — conta a designer. — Como me recusei a fazer isso, fui demitida um dia depois de voltar da licença.

Depois da demissão, Patrícia trabalhou como autônoma e, poucos meses depois, abriu uma agência com o marido e outro amigo como sócios. Até hoje ela toca o próprio negócio e não pensa em voltar a trabalhar como funcionária contratada. Além disso, ela toca uma consultoria especializada para mães que desejam empreender.

— O empreendedorismo acaba sendo a única alternativa para muitas mães, mas muitas vezes é feito de forma precária, porque elas não têm conhecimento. É injusto como a sociedade espera que a gente tenha filhos como se a gente não trabalhasse e espera que a gente trabalhe como se não tivesse filhos — completa.

'Maternidade penaliza mulheres'

No artigo inicial do estudo do Ipea, publicado na semana passada, os pesquisadores apenas fazem uma análise descritiva dos dados, e não apontam as causas para o impacto da chegada de um filho em uma família ser maior para as mulheres do que para os homens. O diagnóstico das causas e análises ainda mais profundas dos dados virão numa próxima fase do estudo. Mas, algumas suspeitas são levantadas:

— A desigualdade de gênero ainda é bastante ampla. O que está muito estabelecido na literatura é que a maternidade traz uma penalidade para as mulheres, especialmente no mercado de trabalho — explica a economista Ana Luiza Neves de Holanda Barbosa.

Essa divisão desigual do cuidado com os filhos e os impactos que tem sobre as trajetórias profissionais e educacionais das mulheres resultam em altas taxas de mães que não estudam nem trabalham, o que limita suas oportunidades e o desenvolvimento ao seu redor.

— Nós temos várias suspeitas para o que causa isso, mas a resposta cada vez mais estabelecida é queé uma questão cultural. O principal fator que explica a desigualdade de gênero são as normas sociais e mudar isso com políticas públicas é mais difícil — completa a pesquisadora.

Ela considera, no entanto, que políticas como ampliação de ofertas de vagas em creches e incentivos e leis que obriguem empresas a ter iniciativas voltadas para mães e pais podem mitigar esses impactos.