Fundação cria aplicativo para combater racismo na África do Sul

Nerea González.

Johanesburgo, 2 mai (EFE).- Após 24 anos de democracia, a África do Sul ainda sofre com as feridas do apartheid em forma de discriminação racial e, para combater o racismo prevalente, surge agora uma nova arma: um aplicativo para reportar incidentes de ódio racial.

Denominado Zimele Racism Reporting App (Zirra) e disponível, por enquanto, apenas para o sistema operacional Android, o projeto foi impulsionado pela Fundação Ahmed Kathrada, que cuida do legado de um dos nomes mais destacados da luta contra a segregação racial no país.

O Zirra busca preencher um vazio existente na África do Sul, já que não há um sistema formal para coletar estatísticas sobre este tipo de incidente e nem para assessorar essas pessoas de forma remota.

"É difícil ter acesso aos dados e também, por exemplo, nas áreas rurais para a gente é difícil reportar os incidentes porque têm que viajar para longe", disse à Agência Efe Bongani Makhubo, membro da fundação e encarregado do projeto.

Enquanto para o usuário - que não necessariamente precisa ser a vítima direta - será mais cômodo receber o conselho das organizações sobre quais são os seus direitos e como proceder, o aplicativo permitirá criar uma base de dados com números sobre quais são as zonas mais problemáticas, quais tipos de incidentes são mais abundantes e quais as idades e genêro dos afetados.

A denúncia através do "app" não tem consequências legais e pode ser anônima, mas se na mensagem forem deixados dados pessoais para a fundação, a mesma entrará em contato para dar assessoria ou indicar se há bases legais para uma ação judicial.

O aplicativo foi lançado em fase piloto em março e agora trabalha-se para implementar melhorias e para colocar à disposição do público uma versão iOS (Apple).

Por enquanto, houve mais de 300 downloads e mais de 100 incidentes reportados.

"Recebemos, por exemplo, casos como o de um empregador que chama seus trabalhadores com uma palavra pejorativa que começa com 'k' ('kaffir', usado para se dirigir à população negra de forma muito insultante)", explicou Makhubo.

Apesar dos avanços conquistados nas últimas décadas e dos valores de reconciliação social que ocorreram desde o fim do apartheid (imperante desde 1948), a brecha entre a minoria branca e a maioria negra ou mestiça continua sendo muito grande e os delitos de ódio são, frequentemente, duramente castigados pela lei.

Um caso recente muito famoso foi o da condenação a dois anos de prisão de uma agente imobiliária, Vicki Momberg, sob a acusação de "injúria" por atentar contra a dignidade de policiais negros com comentários racistas.

Outros casos similares, no entanto, acontecem cotidianamente sem que sejam revelados.

"Há situações nas quais são usados termos pejorativos como 'macaco' ou a palavra com 'k' (...). Muitas destas coisas acontecem e as pessoas não reportam ou não têm formas para denunciá-las", exemplificou.

Embora o racismo impere em todos os ambientes, Makhubo apontou que as áreas rurais são especialmente problemáticas porque esse fenômeno é muitas vezes algo "normal".

Em outras ocasiões há "medo" de falar desse tema, acrescentou, e às vezes a pessoa que comete a injúria nem sequer é consciente do seu racismo.

"Nos últimos anos houve bastante progresso em termos de alertar as pessoas a falarem de racismo e em termos de legislação e justiça", opinou Makhubo, o que permitiu reduzir a sensação de impunidade, mas também educar as pessoas para melhores valores graças ao debate público.

"Ainda temos um longo caminho, mas estamos dando passos. Cria-se consciência e o diálogo também serve para as pessoas para identificar quando algo é racista", completou.

Como exemplo, Makhubo lembrou a polêmica por um anúncio da rede de roupa sueca H&M na qual um menino negro vestia um moletom com a frase "The coolest monkey in the jungle" ("O macaco mais legal da selva").

A propaganda desencadeou uma forte ira na África do Sul, onde a marca teve que fechar suas lojas temporariamente porque estavam sendo atacadas.

"Nós falamos com eles. A palavra 'monkey' pode ter duas conotações, uma pejorativa e outra carinhosa (...). Neste caso é um 'racismo acidental', porque a intenção não é cometê-lo, mas aqui é um termo associado com o racismo", ressaltou Makhubo. EFE