'Me perdoa, sou inocente', diz Flordelis a desembargador durante julgamento

***ARQUIVO***NITERÓI, RJ, 07.11.2022 - A ex-deputada federal Flordelis Santos de Souza antes de seu julgamento no fórum de Niterói, no Rio. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
***ARQUIVO***NITERÓI, RJ, 07.11.2022 - A ex-deputada federal Flordelis Santos de Souza antes de seu julgamento no fórum de Niterói, no Rio. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A ex-deputada federal Flordelis dos Santos de Souza chorou nesta quinta (10) e foi retirada do banco dos réus quando uma testemunha, o desembargador Siro Darlan, relembrou a sua atuação na década de 1990. Na época, o magistrado era juiz da Vara da Infância e Juventude e concedeu autorizações para a missionária cuidar de cerca de 30 crianças.

Antes de sair do tribunal, Flordelis disse a Darlan: "Me perdoa, doutor Siro, obrigada por tudo que você fez por mim. Sou inocente. Estou muito envergonhada".

A pastora, presa desde agosto do ano passado, está sendo julgada pela morte do marido, o pastor Anderson do Carmo, baleado em 2019. Ela é suspeita de homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio, uso de documento falso e associação criminosa armada, e nega todas as acusações.

Além da ex-deputada, também são réus a filha biológica Simone dos Santos Rodrigues, os filhos afetivos André Luiz de Oliveira e Marzy Teixeira da Silva e a neta Rayane dos Santos de Oliveira.

O quarto dia de julgamento, em Niterói, região metropolitana do Rio, foi marcado pelo início das oitivas das testemunhas de defesa.

Darlan explicou o motivo de ter regularizado a situação da guarda das crianças com a pastora. "Nunca foram reclamadas pelas famílias biológicas, então estavam abandonadas. Melhor acolher nessa família do que abandonadas na rua", disse.

Após testemunhar, ele conversou com jornalistas. "Não sei se só ela deve pedir perdão ou se a sociedade também deve pedir perdão por ter deixado crianças e adolescentes na situação que revelou a Flordelis. A Flordelis fez uma denúncia. Esse ato dela de recolher e abraçar 55 crianças, ou 27 quando eu a conheci, é uma denúncia: a sociedade não está tratando bem crianças e adolescentes. Não discuto nem coloco em debate o fato que está sendo julgado aqui. Agora, o exemplo dela deveria estar sendo cumprido pelo poder público", disse.

Sobre o pedido de perdão, Darlan afirmou que "ela está completamente desequilibrada, sentada onde ela está [no banco dos réus]". "Então, pode ter sido uma frase de desabafo, ou ter sido apenas pelo fato de eu estar neste momento, sendo testemunha do seu procedimento social e já ter estado com ela no auge."

Tayane Dias foi a primeira das 14 testemunhas arroladas pela defesa a ser ouvida. Ela é uma das filhas afetivas da pastora e afirmou que ter ouvido na casa da família que pelo menos duas de suas irmãs teriam sido abusadas por Carmo.

"Ele [Anderson] abusou da Rafaela, soube que abusou de outra irmã, a Kelly", relatou. A testemunha afirmou ainda que presenciou Anderson "batendo na bunda" de Rayane de Oliveira, neta de Flordelis e ré no processo. Tayane disse que, na época, não via problema, mas passou a avaliar o comportamento do pastor de outra forma após o assassinato, ao saber sobre outros casos de supostos abusos na casa.

A defesa de Flordelis tem questionado todas as testemunhas sobre supostos abusos cometidos por Carmo como uma estratégia para justificar o crime. Segundo o advogado Rodrigo Faucks, o pastor era um predador sexual.

Tayane também disse que Anderson do Carmo teria empurrado a ex-deputada da escada. "Estava todo mundo dormindo. Ouvimos os gritos do quarto deles. Eu não vi. Só ouvi os gritos", relatou.

Ao comentar a personalidade do pastor, Tayane disse que ele era estressado: "Ele era estressado por natureza, mas tinha dias que ele acordava com o diabo no corpo. Mais estressado do que o normal. A ponto da gente nem querer chegar perto".

Ao chegar ao plenário, nesta quinta, Tayane foi repreendida pela juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce por ter se comunicado com os réus. Flordelis, que presenciou o depoimento, chorou ao ver a filha.

Ela contou que foi chegou à casa de Flordelis e do pastor quando ambos ainda moravam no Jacarezinho, zona norte do Rio. Ela relatou que a mãe biológica não tinha condições de ficar com os filhos e a levou junto com cinco irmãos. "Eu não fui adotada legalmente. Minha mãe me deu para a Flor, e hoje eu tenho a Flor como mãe", disse. Ela continua morando na casa da ex-deputada, em Niterói, onde Anderson do Carmo foi morto.

Indagada pela defesa, a testemunha negou que Flordelis sequestrasse crianças para criar com sua família: "Nos 28 anos vivendo com ela, eu nunca a vi roubar nenhuma criança. Era sempre as mães que iam até a Flor". Ela também negou que houvesse orgias na casa.

Ainda pela manhã, testemunharam Roberta dos Santos, filha afetiva, que afirmou ter certeza de ter sido Flordelis a mandante do crime. Logo em seguida, foram interrogadas por Promotoria e defesa outra filha afetiva, Érica dos Santos Souza, e a neta Rebeca Vitória Rangel.

PEDIDO DE EXUMAÇÃO

Outra testemunha de defesa foi o perito Sami Abner. O especialista disse que Carmo foi morto com nove tiros, ao diferentemente do que aponta a perícia oficial.

Sobre a suspeita de que Flordelis vinha tentando envenenar o marido, o que foi relatado em outros depoimentos, ele disse que determinadas substâncias podem ficar no corpo por até cem anos.

Com base no depoimento, a defesa pediu a exumação do corpo para realizar o exame. A estratégia seria para livrar os réus que respondem pela tentativa de homicídio por envenenamento do pastor.

A juiz afirmou que iria analisar o pedido, antes de anunciar a retomada do julgamento para sexta (11), às 9h.

O CRIME

O pastor Anderson do Carmo foi morto a tiros na garagem da residência da família em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, em 16 de junho de 2019.

Ele tinha 42 anos e morava com Flordelis e mais 35 filhos. Foram constatadas 30 perfurações de bala em seu corpo.

As investigações indicaram que Flordelis começou a tentar matar o marido em maio de 2018, envenenando-o aos poucos, colocando arsênico e cianeto na comida dele. A vítima passou por hospitais no período, com episódios de vômito e diarreia.

Ela nega todas as acusações e diz que os promotores que a acusam trabalham para desconstruir sua imagem "como ser humano, como pastora".